Algumas descobertas científicas recentes tem corroborado antigos filósofos, identificando uma função extraordinária do amor na tolerância e alívio da dor. E eu não estou falando dos pesquisadores que estudam o hormônio ocitocina e que já defendem o parto humanizado e a amamentação natural. Estou falando de cientistas focados no estudo da dor, e principalmente da dor crônica. Tenho lido o livro As cronicas da dor, de Melanie Thernstrom, da editora Objetiva, que traça um panorama abrangente dos significados e tratamentos da dor desde a Idade Média até os dias de hoje, debatendo os avanços e retrocessos da medicina, contando sua própria história como portadora da dor crônica e as histórias de diversas mulheres e homens com dores diferentes. Ela acabou me dando uma luz sobre a dor no parto, e tem me feito pensar bastante sobre a experiência da dor.
Buscando compreender as diferentes reações à dor entre as pessoas e entre situações específicas que as mesmas pessoas vivem, médicos, psicólogos e neurocientistas diferenciam dores integrativas das dores desintegrativas. Eles definem que há dores que nos causam um sofrimento enorme a ponto de ameaçar a integração de nosso eu, de nossa personalidade. E há também aquelas que nos fazem sentir mais fortes, que fortalecem nosso eu - como em casos de atletas, mulheres em trabalho de parto, rituais religiosos, etc. O que define porém se tal dor é ou não integrativa não é a natureza ou a origem dela, mas a experiência da pessoa - que tem à ver com as narrativas culturais sobre a dor. Ser pendurados por ganchos nas costas enquanto uma procissão de fiéis os puxam para cima é uma experiência de êxtase para alguns hinduístas - mas seria uma tortura terrível para a maioria de nós, ocidentais. Por outro lado, se é possível dizer que a dor do parto é integrativa para muitas mulheres é, provavelmente, por causa de dois fatores, ou melhor, de dois estimulantes: o amor e o apoio social. Essa é uma suposição que faço baseada em duas pesquisas citadas pela Melanie em seu livro.
A primeira pesquisa a que me refiro é do cientista Sean Mackey da Universidade de Stanford. Ele e sua equipe testaram os efeitos do amor romântico na intensidade e tolerância à dor. As pessoas que estavam apaixonadas e foram estimuladas a olhar a foto do parceiro e a se concentrar nele enquanto se submetiam a sessões de dores moderadas, tiveram uma redução de 46% da dor em relação a quando foram orientadas a olhar fotos de pessoas conhecidas. Os pesquisadores também observaram o efeito desse comportamento no cérebro: enquanto olhavam as fotos de seus parceiros amorosos, as regiões associadas aos opioides e a dopamina eram ativadas - concluindo-se portanto, que a experiência do amor pode aliviar a dor. Veja uma matéria e um vídeo interessantes sobre o estudo neste link.
A segunda pesquisa é da Universidade de Oxford. Com ela comparou-se a o limiar da dor de atletas que haviam treinado individualmente com os de outros que haviam treinados coletivamente, o mesmo esporte. Concluiu-se que o segundo grupo teve o limiar de dor muito mais alto do que o primeiro - ou seja, eles ficaram muito mais tolerantes à dor. Portanto, o engajamento na comunidade e a amizade podem tornar a dor numa experiência integrativa e melhorar os mecanismos de alívio e tolerância da mesma.
Trazendo esse debate para o universo materno e feminino, poderíamos dizer que estar apaixonada e apoiada socialmente traria um efeito importante para nossa experiência da dor do parto e da amamentação. As contrações não precisam ser vividas como dores desintegrativas, nem as dores que podem ocorrer no início da amamentação, se estivermos envoltas numa atmosfera de amor e de apoio emocional. Realmente, é preciso que as maternidades e os profissionais que nos acompanham nesses processos estejam mais capacitados a nos envolver em tal atmosfera, contribuindo para trabalhos de parto mais prazerosos. O documentário Orgasmic Birth já mostrou que é possível sim ter prazer com as contrações. Na verdade, a questão não é a possibilidade ou não de ter prazer nesse momento único, mas a necessidade de termos estímulos prazeroso que atuem no alívio e no aumento do limiar da dor. Até mesmo para lidar com as cólicas menstruais, alguns especialistas, defensores de formas naturais de manejar a dor, sugerem as atividades físicas prazerosas, inclusive o sexo e a masturbação, como explica o documentário Moon Inside You, sobre qual já comentei num outro post.
Imagem: trabalho de parto dançante, do documentário Moon Inside You
Portanto, se vocês está em busca de uma experiência forte, marcante, integrativa em momentos como o parto, converse com o profissional que está a acompanhando no pré-natal e que deve assisti-la no trabalho de parto. Mostre para ele essas evidências científicas que tem sido estudadas inclusive por especialistas em dor. A experiência das contrações não é traumática, mas pode ser muito edificante. Procure profissionais que buscam o seu conforto, em primeiro lugar - que não a aterrorizam com exames excessivos e desnecessários, que não a pressionam exageradamente em relação ao peso, ao enxoval, a data de nascimento de seu filho, enfim, que respeitem seu tempo e seu espaço. Procure também o apoio de amigos e familiares, os grupos de apoio ao parto normal e à amamentação podem ajudar muito nisso. Olhar para seu companheiro, já sonhando com o momento de ter seu filho nos braços e nos seios, pode ser muito encorajador durante o trabalho de parto.
Durante muito tempo a saúde das mulheres tem sido mal manejada nas clínicas médicas, que tentam controlar o corpo feminino sem compreender seu potencial de prazer e sua relação com dores diversas. A autora do livro critica fortemente a dificuldade da medicina ainda hoje em conciliar assistência clínica e pesquisa científica, em relação aos pacientes com dor crônica - em sua maioria, mulheres. E, no que tange à ginecologia, também podemos perceber a segmentação do corpo e a falta de espaço para que a experiência íntima das mulheres seja reconhecida e usada no manejo da dor e na prevenção de doenças. Assim, é importante, na era da informação, que as próprias mulheres, de todas as classes e grupos sociais, possam dividir suas experiências e buscar o conhecimento direto na fonte - assumindo o papel de protagonistas de sua saúde.
Imagem: Embraza Mundo, do documentário Moon Inside You




