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domingo, 29 de janeiro de 2012

A relação entre dor, amor e amizade no parto e na amamentação

Algumas descobertas científicas recentes tem corroborado antigos filósofos, identificando uma função extraordinária do amor na tolerância e alívio da dor. E eu não estou falando dos pesquisadores que estudam o hormônio ocitocina e que já defendem o parto humanizado e a amamentação natural. Estou falando de cientistas focados no estudo da dor, e principalmente da dor crônica. Tenho lido o livro As cronicas da dor, de Melanie Thernstrom, da editora Objetiva, que traça um panorama abrangente dos significados e tratamentos da dor desde a Idade Média até os dias de hoje, debatendo os avanços e retrocessos da medicina, contando sua própria história como portadora da dor crônica e as histórias de diversas mulheres e homens com dores diferentes. Ela acabou me dando uma luz sobre a dor no parto, e tem me feito pensar bastante sobre a experiência da dor.

Buscando compreender as diferentes reações à dor entre as pessoas e entre situações específicas que as mesmas pessoas vivem, médicos, psicólogos e neurocientistas diferenciam dores integrativas das dores desintegrativas. Eles definem que há dores que nos causam um sofrimento enorme a ponto de ameaçar a integração de nosso eu, de nossa personalidade. E há também aquelas que nos fazem sentir mais fortes, que fortalecem nosso eu - como em casos de atletas, mulheres em trabalho de parto, rituais religiosos, etc. O que define porém se tal dor é ou não integrativa não é a natureza ou a origem dela, mas a experiência da pessoa - que tem à ver com as narrativas culturais sobre a dor. Ser pendurados por ganchos nas costas enquanto uma procissão de fiéis os puxam para cima é uma experiência de êxtase para alguns hinduístas - mas seria uma tortura terrível para a maioria de nós, ocidentais. Por outro lado, se é possível dizer que a dor do parto é integrativa para muitas mulheres é, provavelmente, por causa de dois fatores, ou melhor, de dois estimulantes: o amor e o apoio social. Essa é uma suposição que faço baseada em duas pesquisas citadas pela Melanie em seu livro.

A primeira pesquisa a que me refiro é do cientista Sean Mackey da Universidade de Stanford. Ele e sua equipe testaram os efeitos do amor romântico na intensidade e tolerância à dor. As pessoas que estavam apaixonadas e foram estimuladas a olhar a foto do parceiro e a se concentrar nele enquanto se submetiam a sessões de dores moderadas, tiveram uma redução de 46% da dor em relação a quando foram orientadas a olhar fotos de pessoas conhecidas. Os pesquisadores também observaram o efeito desse comportamento no cérebro: enquanto olhavam as fotos de seus parceiros amorosos, as regiões associadas aos opioides e a dopamina eram ativadas - concluindo-se portanto, que a experiência do amor pode aliviar a dor. Veja uma matéria e um vídeo interessantes sobre o estudo neste link.

A segunda pesquisa é da Universidade de Oxford. Com ela comparou-se a o limiar da dor de atletas que haviam treinado individualmente com os de outros que haviam treinados coletivamente, o mesmo esporte. Concluiu-se que o segundo grupo teve o limiar de dor muito mais alto do que o primeiro - ou seja, eles ficaram muito mais tolerantes à dor. Portanto, o engajamento na comunidade e a amizade podem tornar a dor numa experiência integrativa e melhorar os mecanismos de alívio e tolerância da mesma.

Trazendo esse debate para o universo materno e feminino, poderíamos dizer que estar apaixonada e apoiada socialmente traria um efeito importante para nossa experiência da dor do parto e da amamentação. As contrações não precisam ser vividas como dores desintegrativas, nem as dores que podem ocorrer no início da amamentação, se estivermos envoltas numa atmosfera de amor e de apoio emocional. Realmente, é preciso que as maternidades e os profissionais que nos acompanham nesses processos estejam mais capacitados a nos envolver em tal atmosfera, contribuindo para trabalhos de parto mais prazerosos. O documentário Orgasmic Birth já mostrou que é possível sim ter prazer com as contrações. Na verdade, a questão não é a possibilidade ou não de ter prazer nesse momento único, mas a necessidade de termos estímulos prazeroso que atuem no alívio e no aumento do limiar da dor. Até mesmo para lidar com as cólicas menstruais, alguns especialistas, defensores de formas naturais de manejar a dor, sugerem as atividades físicas prazerosas, inclusive o sexo e a masturbação, como explica o documentário Moon Inside You, sobre qual já comentei num outro post.

Imagem: trabalho de parto dançante, do documentário Moon Inside You

Portanto, se vocês está em busca de uma experiência forte, marcante, integrativa em momentos como o parto, converse com o profissional que está a acompanhando no pré-natal e que deve assisti-la no trabalho de parto. Mostre para ele essas evidências científicas que tem sido estudadas inclusive por especialistas em dor. A experiência das contrações não é traumática, mas pode ser muito edificante. Procure profissionais que buscam o seu conforto, em primeiro lugar - que não a aterrorizam com exames excessivos e desnecessários, que não a pressionam exageradamente em relação ao peso, ao enxoval, a data de nascimento de seu filho, enfim, que respeitem seu tempo e seu espaço. Procure também o apoio de amigos e familiares, os grupos de apoio ao parto normal e à amamentação podem ajudar muito nisso. Olhar para seu companheiro, já sonhando com o momento de ter seu filho nos braços e nos seios, pode ser muito encorajador durante o trabalho de parto.   

Durante muito tempo a saúde das mulheres tem sido mal manejada nas clínicas médicas, que tentam controlar o corpo feminino sem compreender seu potencial de prazer e sua relação com dores diversas. A autora do livro critica fortemente a dificuldade da medicina ainda hoje em conciliar assistência clínica e pesquisa científica, em relação aos pacientes com dor crônica - em sua maioria, mulheres. E, no que tange à ginecologia, também podemos perceber a segmentação do corpo e a falta de espaço para que a experiência íntima das mulheres seja reconhecida e usada no manejo da dor e na prevenção de doenças. Assim, é importante, na era da informação, que as próprias mulheres, de todas as classes e grupos sociais, possam dividir suas experiências e buscar o conhecimento direto na fonte - assumindo o papel de protagonistas de sua saúde.

Imagem: Embraza Mundo, do documentário Moon Inside You

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Um (novo) relato de parto natural hospitalar

Já fazem 2 anos e (quase) 9 meses que Laura nasceu. A maioria das pessoas que me conhecem sabem da história do meu parto: um parto sem anestesia, sem episiotomia, em posição (quase) vertical, numa sala de parto humanizado de uma maternidade privada. Já falei um pouco sobre meu processo até chegar à escolha do parto natural, em outro post, há muito tempo atrás. Mas, hoje, resolvi revisitar a madrugada do dia 23 para o dia 24 de abril de 2009, e contar como foi exatamente o nascimento de Laura, segundo minhas sensações e lembranças. Agora vou falar do que lembro e do que ficou daquela experiência determinante.


Nessa foto acima, nós (eu, Marcelo e Laura) ainda estávamos na sala de parto, poucos minutos depois de ela nascer, antes mesmo do cordão umbilical ser cortado. E tudo começou mais ou menos as 4 horas da manhã do dia 24. Na noite anterior, tínhamos comemorado o aniversário do Marcelo na casa da mãe dele, e eu já estava super desejante de receber a Laura. Eu já tinha entregado a versão final de minha dissertação, e já tinha marcado a defesa para a primeira semana de junho, meu corpo já estava ansioso para dar à luz! A barriga estava super baixa, e eu já andava como "uma pata", com as pernas abertas! Lembro de reclamar muito disso!


Eu já contava com o obstetra 40 semanas de gestação, já tinha visto o muco sair há mais de uma semana, e tinha verificado 2 centímetros e meio de dilatação na consulta feita dias antes. Pois então, mais ou menos as 4 da madruga, fui fazer um dos 5 ou 6 xixis noturnos em casa, e percebi a saída de uma quantidade grande de líquido (o que possivelmente foi o rompimento da bolsa). As contrações começaram pouco tempo depois, de forma irregular. Começamos a cronometrá-las as 5 horas. É interessante que em nenhum dos filmes de ficção que vi, com cenas de trabalho de parto, as parturientes contam o intervalo entre as contrações - mas esse foi um dos aprendizados mais importantes que tive durante a gravidez. Sabíamos que se viessem 2 contrações num intervalo de 10 minutos, pelo período de pelo menos 1 hora, significava que eu estava entrando em trabalho de parto, teríamos que avisar ao obstetra que me atenderia e nos arrumar para ir pra maternidade. Já tínhamos passado por várias situações de "alarme falso", em que as contrações começavam e depois paravam de vez. Numa ocasião duas semanas antes, estávamos assistindo a uma peça e saímos no último ato, porque eu tinha "certeza" de que era a hora!

Durante a primeira hora de contrações,  fizemos alguns exercícios para o alívio da dor. Digo fizemos porque o Marcelo me ajudou bastante. Repetimos aquilo que tínhamos aprendido juntos num curso de preparação para o parto natural, e funcionou! Eu continuava sentindo as contrações, mas não as sentia como dores insuportáveis. Em um momento, fiquei até meio tonta, por causa da hiperventilação. Eu me sentia meio "anestesiada". Ligamos para o obstetra as 6 horas e para minha irmã Fernanda (que morava a cinco minutos da minha casa e tinha carro). Na verdade, eu só pensava em ficar uns minutinhos debaixo do chuveiro quente, rebolando e respirando, como já tinha visto em documentários e outros relatos de parto. Mas, como eu tinha planejado um parto hospitalar, mesmo contrariada, não tive tempo pra isso. Tive que colocar uma roupa mais decente, sapatos (lembro que isso foi quase insuportável!), e descer pelo elevador até o carro da minha irmã.

Durante o tempo em que fiquei sentada no banco da frente do carro até chegar à maternidade, as contrações foram incomodando mais. O fato de eu não poder me locomover como queria, atrapalhou. Acho que a evolução do meu trabalho de parto foi bem rápida, por isso, foi tão desagradável esse trajeto. Eu sentia que a Laura não ia demorar.


Antes ainda de ir para o centro cirúrgico, onde fica a sala de parto, fiquei num quarto da maternidade, aguardando o médico chegar, com minha mãe me dando a maior força. Minha irmã mais nova, Julia, também já tinha chegado com sua câmera, registrando tudo. Nosso combinado era de que ela filmaria o processo todo - o que aconteceu, para minha enorme alegria! Fiquei admirada com a força das pessoas que me acompanharam. Fernanda foi super prestativa, pontual, e cuidadosa. Deixou-me na maternidade e voltou pouco tempo depois para ver Laura nascida. Marcelo se mostrou muito envolvido e maduro, sempre me ouvindo e respondendo ao que era necessário (ele assistiu a tudo também!). Minha mãe ficou comigo até o momento de ir para a sala de parto. Ela me ajudou dentro de seus limites. Disse que não conseguiria me ajudar depois daquele momento. E Julia foi sensacional! Filmou tudo, dos ângulos mais impressionantes, falando o estritamente necessário e chorando de emoção.

O médico chegou no quarto por volta das 8 horas. Viu que eu já estava com 9 centímetros de dilatação. Eu disse "ela não vai demorar a nascer" e ele disse "eu sei" e foi preparar a entrada no centro cirúrgico. Até aí, eu estava numa boa com as contrações. Ainda não tinha dado um berrinho sequer. Respirava e me sentia quase em transe! Mas, tive que deitar numa maca e ser levada por um auxiliar de enfermagem até o centro cirúrgico, sozinha. O tempo que passei naquele elevador pareceu uma eternidade! Realmente, acho muito impressionante uma mulher que consiga parir deitada - deve mesmo ser muito difícil!

A ideia era parir na banheira da sala de parto humanizado. Mas, logo o médico percebeu que não daria tempo, pois a água ainda estava fria. Subi na cama reclinável, especial para parto vertical e comecei a fazer força. Finalmente, eu podia fazer força! Mas, a posição não estava muito confortável, pois eu sentia dores no quadril e nos pés. Acabei encostando na cama e parindo reclinada a mais ou menos 45 graus. O médico me ofereceu anestesia umas duas vezes, mas eu estava bem convicta de minha decisão, e não cedi. A foto abaixo, mostra o primeiro momento.


Depois é que começaram os urros! Nos últimos quarenta minutos, além de lidar com as contrações, tive que lidar com o incômodo do médico "passar" o dedo na abertura da vagina, como que para ajudar a cabecinha da Laura a sair. Isso doía de verdade. Até hoje, quando assisto o vídeo, do ângulo frontal, me dá agonia toda vez que ele faz isso. Em um momento até falei "doutor, peraí!" e ele tirou o dedo. Não sei se esse procedimento era realmente necessário, mas foi assim que aconteceu. Então, quando ela coroou mesmo, e ficou com uma parte da cabeça bem encaixada, a dor aumentou bastante. Pra mim, a parte mais dolorosa foi essa: a saída. Acho que ficamos bem uns 20 minutos com os cabelinhos pretos dela pra fora. Em um momento, parecia que as contrações estavam aumentando o intervalo, e cheguei a ficar preocupada. Urrava de dor e de irritação. Eu pedia a ajuda do médico, porque me sentia cansada e quase vencida pelo esforço. Mas, a única coisa que ele podia fazer era realmente continuar com as mãos ali, aguardando a saída da minha filha. 

Eu também falava com minha filha. Pedia pra que ela fizesse força. Dizia "vem minha filha!", talvez até um pouco impaciente. Ao que o médico disse: "ela não vai poder fazer nada, agora é com você!". Eu me sentia uma mulher super poderosa, e também uma criança carente. O poder das contrações é justamente o de nos fazer sentir muito mais do que somos. Eu me senti parte de um universo, parte de um TODO, que me atravessa com suas "leis" e sua complexidade. A natureza se fazia presente de forma inesquecível. Lembro bem de ter pensado em quanto aquilo era sobrenatural! Eu falava com Deus e me surpreendia com a força que me dominava. Mas, eu também tinha instantes de insegurança. Normalmente, quando as contrações davam uma trégua, eu me sentia fraca, com medo de não dar conta. Por isso, acho que parir sob o efeito de anestésico não seria legal pra mim. Acho que a dor fez parte fundamental, as contrações foram cruciais para que conseguisse me desligar um pouco dos estímulos adversos do hospital (incluindo os papos paralelos entre pediatra, obstetra e enfermeira, e os comentários sobre meus gritos). É chato ficar ouvindo as pessoas dizerem "Vai! Vai! Tá quase saindo! Força!". Eu me senti pressionada, e isso me desconcentrou um pouco. Eu até achava que eles estavam mentindo pra mim, que ainda ficaríamos um tempão ali. 

O médico preparou uma seringa e eu não entendi pra quê. De qualquer forma, ele não teve que usá-la. Nem fez nenhum corte para ajudar a saída da Laura. O expulsivo foi bem rápido, e por volta das 9 horas da manhã Laura nasceu. Na última contração, com um berro que parecia mais um canto lírico (hoje ouvindo o vídeo, me pergunto de onde veio essa voz!), empurrei-a com toda a força. Ela saiu meio roxinha, rasgando um pouco minha pele, e demorou um pouquinho pra chorar. Depois de ser estimulada por um minutinho nas costas e no peito, com as mãos do médico alisando-as, abriu o berreiro! Chorou um pouquinho no meu colo, mas logo que a coloquei no seio, começou a sugar. Marcelo chorava de um lado e Júlia de outro. Eu me sentia em êxtase! Senti uma fraqueza que eu não saberia definir se era de fundo físico mesmo ou emocional. Comecei a amar a Laura naquele exato momento. Éramos cúmplices. Tínhamos vivido aquela luta do nascimento juntas, e juntas começaríamos a amamentação e os primeiros passos dessa família.


Enquanto eu ia me preparando para ir para o quarto (no qual fizemos alojamento conjunto, ou seja, nós três dormimos juntinhos), Marcelo foi com a pediatra fazer os testes e colocar a primeira roupinha em Laura. Eles aproveitaram e exibiram a nova membro da família para minha sogra, minha mãe e as titias que faziam plantão na maternidade. No quarto, dormimos bem umas quatro horas seguidas, e eu não queria receber ninguém ainda, até descansar e me entender bem com a amamentação. Mas, fomos visitados ainda no mesmo dia pelas pessoas mais próximas da família, inclusive meus sobrinhos fofos! Tivemos alta para ir pra casa no dia seguinte de manhã. Eu já estava transbordando leite!


Eu levei apenas 3 pontinhos, que caíram em menos de uma semana e não me deixaram qualquer sequela. E para quem acha de que é impossível ter uma vida sexual totalmente normal e prazerosa depois de parir pela vagina, saiba que isso é um mito brabo! De lá pra cá, posso dizer que nesse quesito as coisas só melhoraram. Claro que a melhora foi na qualidade e não na frequência - afinal, agora somos pais! Mas, posso dizer que ter vivido a experiência do parto com a companhia de meu marido foi muito importante para nosso relacionamento. As coisas amadureceram mais rápido na cabecinha dele. Foi mais fácil se adaptar às noites mal dormidas a aos cuidados intensivos. Ele ganhou muitos créditos comigo! E eu ganhei muitos créditos com ele e com a Julia. Os dois ficaram tão impressionados com a cena, que mudaram a visão sobre mim. Minha irmã que me via como uma mulherzinha fresconilda, agora me vê como um mulherão de responsa! Ano passado, ela até usou o áudio do meu parto para uma performance artística, com o texto deste link.

Então é isso. Perguntas e comentários são super bem vindos! Ultimamente, tenho recebido várias mensagens de amigas e conhecidas grávidas que desejam um parto normal e estão às buscas de suas próprias experiências. Espero que este relato sirva para ajudá-las, animá-las. Pra mim, é sempre muito gostoso lembrar desses momentos. De tempos em tempos posso sentir o gostinho de novo daquilo tudo, com ares renovados e muita gratidão no meu coração por ter conseguido o que desejei (apesar de não ter vivido o parto no conforto da minha casa, na água de uma banheira morninha). Tive muitas dificuldades para chegar lá (a gravidez não foi muito tranquila e nem todo mundo contribuiu para que o parto fosse natural), mas o saldo final foi muito positivo! Pra uma mamãe coruja como eu que não planeja ter outro bebê nem tão cedo é bom voltar ao tempo e curtir o que passou, né? Obrigada pela companhia!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Em busca de linhas de fuga

Não existe coisa mais angustiante para uma mulher de espírito livre do que a sensação de não poder voar. Seja por causa de limitações materiais ou pelas limitações de um companheiro que não pode ou não consegue seguir caminhando junto. A pior coisa é sentir-se presa a uma perspectiva de vida que não foi escolhida, mas foi imposta pelas circunstâncias. Muitas pessoas convivem com isso e não sofrem tanto. Ou sofrem e procuram “medicar-se” de várias formas – taí tantos sintomas contemporâneos que refletem a falta de realização pessoal, a falta de amor por aquilo que se faz e vive. Tem pessoas que não almejam nada muito diferente do que aquilo ao que já são “destinadas” por suas famílias. E eu não posso falar nada dessas pessoas porque não as compreendo.

Eu posso falar das mulheres que, como eu, vêem a vida por uma perspectiva fora do padrão. Mulheres que almejam uma liberdade e uma autonomia de existência pouco alcançada pela maioria. Para os homens, de maneira geral, as limitações impostas por uma vida “normal”, enquadrada, linear, referem-se principalmente à necessidade/pressão de serem “profissionais” bem posicionados no mercado, tendo um salário ou um rendimento estável e suficiente para sustentar um padrão de vida de consumo intenso e acelerado. Espera-se que eles cumpram esse papel, tendo ou não companheiras que também trabalhem e também possam sustentar a família. Mas, para as mulheres, a imposição está em enquadrá-las no papel de boas “governantas”, boas cuidadoras de casa, dos filhos e do marido. Ainda que elas reconheçam a necessidade de ser mais do que isso, de fazer uma faculdade, ou de desenvolver uma profissão, o papel de domésticas estará sempre no horizonte. Como uma mulher que se sente responsável pela vida doméstica de uma família pode sonhar em voar, em ter a liberdade de não se estabelecer num ninho fixo? Eis o tema de tantas obras literárias de mulheres de ontem e hoje, que conseguiram encontrar suas alternativas, libertando-se ou não das imposições de uma vida “recatada”.

Para mulheres que almejam coisas diferentes da vida, além de filho e de um companheiro para dividir as alegrias e as tristezas, os ninhos devem ser móveis, mutáveis, leves, simples. Os ninhos devem ser apenas um detalhe. Mas, como construir algo assim em parceria com um homem que ainda se sente muito pressionado a exercer esse papel de “provedor”, de profissional bem colocado no mercado? Lembro aqui da história de April Wheeler, no romance Revolutionay Road (Foi apenas um sonho), em que a suposta parceria do marido para que ela alçasse vôos se resumia a acompanhá-la em apresentações pífias de um teatro de bairro em auditórios escolares. Ele desejava um ninho móvel, mas se fixava numa casa grande e pesada na mesma cidade e trabalhando na mesma empresa que seu pai. Aliás, na versão cinematográfica da história há uma cena sensacional dos homens na estação de trem, retornando do trabalho, com seus chapéus e ternos idênticos, em contraste com um Leonardo Di Caprio irreverente. A ideia de apoiar a mulher em seu vôo solo e ir com ela para Paris era apenas uma ideia – longe de ser concretizada – mas que o fazia sentir, de certa forma, superior aqueles homens mudos da multidão. Engano que acabou com o casamento e o sonho de duas pessoas que se sentiam diferentes mas não tiveram coragem para serem de fato diferentes.


É possível que os homens se sintam livres apesar dos papéis impostos a eles? Sim, é possível. Existem homens que conseguem usar o próprio sistema para encontrar linhas de fuga. E existem mulheres que assim também o fazem. É muito difícil decifrar se o que estamos traçando é de fato algo novo, respirável, vivível, ou se é uma linha já traçada por tantos outros que não conseguiram livrar-se. Mas, ainda sim, é na busca pela liberdade, na busca por uma compreensão maior da subjetivação que nos é produzida, que podemos viver com menos angústia. Como li recentemente, numa citação de Deleuze: “faz falta chegar a dobrar a linha, para constituir uma zona vivível, onde poder alojar-se, tomar apoio, respirar – brevemente, pensar”.  Não predizer, diz Deleuze, senão estar atento ao desconhecido que toca à porta.

Uma boa jornada para mim (que inicio um novo ano de vida) e para todos que almejam algo verdadeiramente novo!

Referências:
Deleuze, Foucault. Paris: Éditions de Minuit, 1986. p. 101