Geralmente, quando falamos de "indivíduo" aqui no Brasil, é para discutir os problemas do individualismo contemporâneo. Temos as críticas ao conceito - tão em voga nas revistas semanais e nos blogs que fazem críticas sociais - na ponta da língua, e não queremos ser identificados como "individualistas" de jeito nenhum! Individualista é aquela pessoa que só pensa em si, que almeja o sucesso acima de tudo, que consome sem refletir sobre as consequências de seus exageros e desperdícios, que cria os filhos para serem ricos e não para serem boas pessoas. Costumamos criticar enfaticamente a sociedade capitalista, especialmente a ocidental, pela cultural individualista e até confessamos - nossos pecados são culpa dela.
Mas, neste ensaio, quero retomar o "indivíduo" como discutido por Roberto DaMatta, em seu livro
Carnavais, Malandros e Heróis. Ali, ele nos lembra que essa entidade sociológica tem suas raízes na valorização da liberdade de escolha e na universalidade de direitos, conquistas gradualmente expandidas pelas sociedades ocidentais após o período "de trevas", o tal feudalismo, no qual a "verdade" era possuída pela Igreja Católica e as liberdades individuais incogitáveis. Portanto, eu quero repensar um pouco esse hábito que tem se difundido entre nós, indivíduos livres para manipular a informação e escolher como aplicá-la, de romantizar as culturas tradicionais e importá-las para nosso dia a dia, na tentativa de "vencer" o individualismo. Afinal, queremos dar à luz e educar indivíduos ou pessoas?
Acontece que a centralidade do indivíduo como unidade de organização cultural e política é fundamental para vivermos em democracias, para lutarmos contra as desigualdades de gênero, de classe econômica, de etnias, enfim. A "certeza" da existência de um mundo compartilhado entre unidades iguais, com os mesmos direitos e deveres que eu, me faz agir como cidadã, tendo consciência, gradualmente, de minha influência e meu lugar nesse mundo. É esta certeza que nossos filhos são estimulados a desenvolver na escola e no dia a dia, em que transitam pelas ruas e locais públicos de nossas cidades. É assim que eles vão aprendendo que um governo que oprime as liberdades individuais não serve e que ainda há muito o que lutar para que todos os indivíduos tenham seu papel respeitado nessa sociedade. DaMatta me ajudou muito a entender que, por outro lado, o conceito de "pessoa" diz respeito a alma do indivíduo - ou seja, à roupagem coletiva que é colocada sobre ele. O sociólogo faz uma comparação interessantíssima entre sociedades que priorizam o indivíduo e sociedades que primam pela pessoa. O segundo tipo é exemplificado pelas tribos indígenas, pela sociedade de castas indiana, pelas culturas tradicionais. Nelas, "é como se a totalidade estivesse penetrando o elemento individualizado", assim, as crianças são incorporadas na sociedade através de rituais bem definidos e fortemente protegidos, sem opção, usando-se marcas corporais e/ou ritos religiosos. Em algumas sociedades, essa penetração chega a ser violenta e profundamente opressora sobre as identidades femininas e até sobre a saúde das crianças.
Estou radicalizando para levantar algumas questões interessantes sobre a maternidade no ocidente e os movimentos recentes de estímulo à incorporação de práticas orientais ou tradicionais de cuidado dos bebês. Ocorre que, na vida real, em todas as sociedades, indivíduo e pessoa convivem cotidianamente e são usados por todos nós, em níveis e formas diferentes. Em sociedades europeias é mais evidente a sobreposição do primeiro elemento, porque são historicamente mais "experientes" na democracia republicana - e portanto, é mais fácil compreender porque a liberdade de escolha das mulheres quanto às práticas de cuidado dos bebês é tão defendida. Ou seja, não proíbe-se a amamentação artificial, não obriga-se ao parto natural, não impede-se que as mães saiam de casa para trabalhar logo depois do nascimento dos bebês, não define-se quantos filhos elas poderão ter, e trabalha-se para que elas tenham acesso à maior diversidade de opções possíveis. As mulheres não tem papéis sociais pré-definidos, imutáveis, elas podem ser mães ou não, (inclusive fazendo aborto), e podem adotar o modelo de maternidade que quiserem, com sling, sem sling, com carrinho, sem carrinho, com berço ou sem berço... Contanto que zelem pela vida da criança. Quando uma cidadã opta por definir-se prioritariamente por sua natureza materna ou por ser uma "mamífera" antes de qualquer coisa, ela tem liberdade para escolher e agir como tal. Ela não está abrindo mão de sua qualidade de indivíduo, mas quer ser reconhecida como pessoa que adota esses valores, prioritariamente. O que pode ser visto como uma grande coisa - tendo em vista todo o tempo no qual a mulher foi subjugada à categoria de semi-indivíduo, de não cidadã, enfim, de pessoa relegada aos deveres domésticos e matrimoniais, sem possibilidade de escolha.
Mas, às vezes, escuto recomendações sobre práticas de maternidade extraídas de sociedades tradicionais ou orientais sem que seja feita essa reflexão. Mesmo em sociedade individualistas, esquecer da pessoa, em suas marcas culturais, em sua herança étnica, em seus afetos, não é possível e nem é desejável - porque afinal, sempre buscaremos ter "alma". Talvez por isso muitas mulheres tem optado por educar seus filhos para serem pessoas e não somente indivíduos - a questão é saber equilibrar essa equação! Será que para contrabalancear o individualismo ocidental temos que importar modelos de criação de filhos de outras sociedades? Será que usar uma roupagem de "mãe tradicional" - ou quiçá "alternativa" - é uma arma eficaz contra o individualismo negativo? Por outro lado, renegar os hábitos dos povos "não-civilizados", como nossos antepassados fizeram tanto, garante a igualdade e a liberdade individual? Quantas perdas, em relação à saúde e ao meio ambiente, não tivemos por ignorar as boas práticas desses povos?
Eu continuo me perguntando essas coisas, e confesso que - talvez como um "mal" produzido pela influência iluminista em meus pensamentos - prefiro me ater às perguntas do que sacar respostas padronizadas. Resumidamente, suspeito dos grupos que tentam impor suas vestimentas à todas as mães e mulheres, e concordo com os benefícios de diversas práticas das sociedades não-ocidentais. O que me deixa mais feliz, porém, é saber que posso me beneficiar delas sem ter que me submeter à uma identidade ou papel social pré-estabelecido. Pode-se usar sling sem dispensar o carrinho! Pode-se amamentar naturalmente e usar mamadeira! Pode-se dar à luz de parto normal, com uma dose de anestesia. E pode-se praticar cama compartilhada sem engolir prontamente o pacote
attachment parenting... E, se alguém quiser me convencer de que tenho que me converter ao seu modelo de alma, digo que quero criar pessoa sim, mas sem me esquecer de que antes, conquistamos a individualidade! E é isso que prezo na educação da minha filha: que ela se sinta especial por ser minha filha, mas que não se sinta melhor do que os outros porque come salada orgânica e bebe suco natural!