Este blog faz parte do Portal What Mommy Needs, juntamente com o blog Dicas da Mel, e nossas colunas Vida Sustentável, Dicas Culturais, Mãe em Análise e Palavra da Professora.

Aqui, a voz é quase sempre de Carolina Pombo - mãe, escritora, psicóloga e empreendedora "verde". Alguém que adora perguntas, ama debates, e abre o coração sem medo.

sábado, 2 de junho de 2012

Eu e a sustentabilidade

"Como a sustentabilidade entrou na sua vida?" foi uma das perguntas feitas pela jornalista Joana Dale da Revista O Globo que está saindo neste domingo com uma grande reportagem sobre jovens que trabalham com sustentabilidade. Tive o maior prazer em conversar com ela, primeiro pelo telefone e depois, num encontro descontraído na Lagoa Rodrigo de Freitas. Mas, no começo, tive certa dificuldade de definir exatamente como tudo começou. Só fui me dando conta quando as perguntas ficaram mais detalhadas. Ela quis saber, por exemplo, se meus pais se preocupavam em passar adiante uma educação ambiental, e eu lembrei que, tendo um estilo de vida nada consumista e uma dieta vegetariana, minha mãe foi uma grande influência para mim, desde a mais tenra infância. Além disso, lembro de meu envolvimento com o grande evento que foi a ECO92, com meus nove anos de idade. Na época, começamos a separar o lixo para coleta seletiva em casa e participamos de passeatas em prol de políticas para a sustentabilidade. Meus pais e minha madrasta me ajudaram a entender que um mundo melhor depende de atitudes práticas individuais e luta política coletiva.

Depois do mestrado em Saúde Pública e da maternidade, minha relação com o tema ficou ainda mais forte. Porque concluí que saúde é o resultado de relações mais harmônicas e respeitosas com a natureza e com nosso meio social. Não adianta falar de sustentabilidade se não paramos para pensar nas pessoas que sustentam este planeta. Ao mesmo tempo em que a gente pode contribuir para a preservação dele, podemos ser alimentados, curados e fortalecidos por seus recursos naturais. Então, meu sonho para o Rio continua sendo o acesso à saúde, pública e de qualidade, principalmente para gestantes e mães terem seus partos e amamentação de forma natural. Espero, sinceramente, que daqui a 20 anos, minha cidade seja reconhecida pelo salto extraordinário no nível da qualidade de vida de seus cidadãos.

Abaixo vocês podem ver a foto que está estampada na revista, ilustrando esse meu caminho profissional e pessoal - porque na verdade, não só trabalho com sustentabilidade, mas tento vivê-la ao máximo possível. Não me considero "mais verde" do que ninguém, e aliás, tenho muito o que melhorar. Acredito que ser sustentável não é exatamente sacrificar-se sozinha, carregar o peso dos problemas do mundo, nas costas. Mas, é reproduzir ao longo da vida, hábitos mais saudáveis pra mim e para meu próximo. Por isso, a escolha das fraldas de pano. Por isso, abrir uma loja com esse foco. Por isso continuar estudando e escrevendo sobre o assunto. Fico muito orgulhosa porque meu curto percurso já pode ser objeto de interesse e inspiração para muitos leitores desse revista tão popular em minha cidade!


Na foto: eu, sentada na Tripp Trapp da Stokke, com um varalzinho de fraldas One Size da Popolini (ambas a venda em minha loja), com a linda Maria Sophia no colo.

*Apenas uma pequena correção do texto da reportagem: não foi exatamente minha prima quem me apresentou as fraldas da marca austríaca Popolini, foi a Adélia do blog Pedalando em Paris. Minha querida prima Clarissa Oliveira, do blog A mãe que quero ser, morou na Noruega e de lá sempre me dá dicas de consumo sustentável para uma maternidade consciente.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Brincando com coisa séria: re-postagem para a blogagem coletiva #semanamundialdobrincar


Eu queria muito participar da blogagem coletiva para a #semanamundialdobrincar . Mas, não consegui parar para postar ontem e por isso, só agora, resolvi re-publicar um post do ano passado, no qual contei minha aventura com Laura ao tentar fazer uma tarefa da escola para o Projeto Eco, que eles fazem lá todo ano. A tarefa virou uma brincadeira muito gostosa, mas que tem à ver com algo muito sério: o aprendizado da consciência ecológica!

Nesta semana recebi uma tarefa desafiadora da escola de Laura: montar com ela uma borboleta, um casulo e uma lagarta, de sucata. Junto com a circular informando a tarefa, veio uma sacola com três tipos de papéis coloridos, confetes, um potinho de danone vazio, dois palitos de picolé, e a cereja do bolo: um potinho pequenininho de porpurina vermelha. O deadline para a entrega da super produção foi hoje. Mas, ansiosas para a tal tarefa, eu e Laura sentamos juntas no chão da sala, cheias de curiosidade, na terça feira, para abrir a sacola e por as mãos na massa!

Eu fiquei empolgada com a possibilidade de participar mais ativamente de uma atividade que minha filha já vinha desenvolvendo na escola. A borboleta, o casulo e a lagarta fazem parte do Projeto ECO, no qual as crianças se aproximam do tema da sustentabilidade, se familiarizando com bichinhos e seus habitats naturais. O fechamento do projeto se dá numa feira com todos os seguimentos da escola, onde algumas empresas e instituições mostram seu trabalho voltado para a ecologia. Ano passado, uma das iniciativas mais interessantes foi a contratação de uma empresa de educação ambiental para montar uma espécie de "chocadeira" artificial - tipo uma gaiola com ovos reais de galinha sob a iluminação e o calor constantes até o nascimento dos pintinhos. As crianças puderam acompanhar dia a dia a evolução da vida dos pintinhos. Eles nasceram e passaram até a circular entre elas, nas salas e nas aulas de música, no meio das brincadeiras - sempre com os olhares atentos das professoras. Quando eles ficaram grandinhos, foram levados pela mesma empresa (ok, a gente fica com pena dos filhotes gerados sem o real calor materno, mas essa é outra questão...).

Esse ano, as crianças tiveram contato direto com casulos, e até deram a maior sorte de ver uma borboleta saindo de dentro do seu! Elas aproveitaram o espaço verde enorme da escola para observarem outros bichinhos e catarem folhas. Parece simples, mas é super proveitoso, porque justamente nessa faixa etária (de 2 a 3 anos) elas começam a ter "nojo" e medo das coisas, a diferenciarem "sujo" e "limpo", e às vezes, pela falta de familiaridade com a natureza, desenvolvem hábitos pouco ecológicos, como matar as formiguinhas à toa e arrancar flores. Parece besteira, mas foi assim que eu levei um susto, quando vi Laura pela primeira vez, toda empolgada, batendo forte no chão e falando "Batoooou! Batoooou!" (entende-se por "Matou! Matou!"), seguido por "Ai que nojo!", olhando para umas poucas formiguinhas esmagadas. Confesso que foi meio assustador ver a total indiferença dela para com outro ser vivo - e eu juro que não tenho hábito de matar formigas nem fazer cara de nojo pra elas!

Mas, desde esse momento fatídico, tenho a estimulado a ver os animais e as plantas como seres vivos respeitáveis - mesmo aqueles que representam algum tipo de ameaça. E, com a ajuda da escola, tem dado super certo!

Toda essa volta foi para dizer que, apesar de minha empolgação de mãe novata, o projeto com a sucata deu todo errado! A porpurina foi parar imediatamente no chão, antes que eu tivesse tempo de identificar do que se tratava aquele micro potinho brilhoso. A guerra para evitar que Laura arrancasse a tesoura de minha mão e o ímpeto dela por esmagar todos os papéis coloridos, me fizeram desistir... frustrada! Fiquei chateada com a escola, e (como toda boa mãe chata) mandei até um recadão na agenda, reclamando que a tarefa estava aquém da idade de Laura e de meus dotes artísticos.

Mas, depois de desabafar no bilhete, deixei a sala toda suja, e carreguei Laura para o jardim do prédio. Resolvi fazer com ela um projeto diferente! Com olhos atentos e curiosos, nós duas procuramos bichinhos e plantinhas para fotografar. Ela lembou-se da aranha que tínhamos visto dias atrás numa parede, com um graveto enroscado em sua teia. Na ocasião, ela tinha ficado a dois metros de distância, por causa do "nojo", mas eu consegui fazê-la ir se aproximando aos pouquinhos. Para nosso projeto, encontramos outra aranha, sobre uma folhinha, e para minha surpresa, Laura não só se aproximou como tocou no inseto! Tiramos fotos e ela gargalhou de alegria com a novidade. Depois vimos um caracol, formigas, folhas e plantas diferentes. Ela me apontou o pombo na rua e as borboletas pintadas na parede à frente do prédio, até que uma verdadeira veio nos presentear com a foto final para o projeto. Chegamos em casa munidas das fotos impressas e fizemos uma colagem, como um livro. Eu fui escrevendo e ditando, enquanto ela ia acrescentando dados à história, para contar o desenvolvimento do projeto aos amigos da escola. Depois ela carimbou mais borboletas, corações, flores e pintou com lápis de cera. Foi a coisa mais fofa do mundo vê-la chegar na escola toda ansiosa para mostrar para as duas professoras seu primeiro trabalho escolar com a mamãe!


Toda essa brincadeira me rendeu um recadinho carinhoso da diretora e um PARABÉNS da professora! E para completar, me senti a mãe mais orgulhosa do mundo por transmitir desde cedo à minha filha o valor da natureza, a importância de vê-la como parte da nossa vida, do nosso dia dia. Parece só uma brincadeira passageira, mas eu sei, eu tenho fé, que é assim que se formará a base para uma consciência ecológica.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Estamos criando indivíduos ou pessoas?

Geralmente, quando falamos de "indivíduo" aqui no Brasil, é para discutir os problemas do individualismo contemporâneo. Temos as críticas ao conceito - tão em voga nas revistas semanais e nos blogs que fazem críticas sociais - na ponta da língua, e não queremos ser identificados como "individualistas" de jeito nenhum! Individualista é aquela pessoa que só pensa em si, que almeja o sucesso acima de tudo, que consome sem refletir sobre as consequências de seus exageros e desperdícios, que cria os filhos para serem ricos e não para serem boas pessoas. Costumamos criticar enfaticamente a sociedade capitalista, especialmente a ocidental, pela cultural individualista e até confessamos - nossos pecados são culpa dela.

Mas, neste ensaio, quero retomar o "indivíduo" como discutido por Roberto DaMatta, em seu livro Carnavais, Malandros e Heróis. Ali, ele nos lembra que essa entidade sociológica tem suas raízes na valorização da liberdade de escolha e na universalidade de direitos, conquistas gradualmente expandidas pelas sociedades ocidentais após o período "de trevas", o tal feudalismo, no qual a "verdade" era possuída pela Igreja Católica e as liberdades individuais incogitáveis. Portanto, eu quero repensar um pouco esse hábito que tem se difundido entre nós, indivíduos livres para manipular a informação e escolher como aplicá-la, de romantizar as culturas tradicionais e importá-las para nosso dia a dia, na tentativa de "vencer" o individualismo. Afinal, queremos dar à luz e educar indivíduos ou pessoas?

Acontece que a centralidade do indivíduo como unidade de organização cultural e política é fundamental para vivermos em democracias, para lutarmos contra as desigualdades de gênero, de classe econômica, de etnias, enfim. A "certeza" da existência de um mundo compartilhado entre unidades iguais, com os mesmos direitos e deveres que eu, me faz agir como cidadã, tendo consciência, gradualmente, de minha influência e meu lugar nesse mundo. É esta certeza que nossos filhos são estimulados a desenvolver na escola e no dia a dia, em que transitam pelas ruas e locais públicos de nossas cidades. É assim que eles vão aprendendo que um governo que oprime as liberdades individuais não serve e que ainda há muito o que lutar para que todos os indivíduos tenham seu papel respeitado nessa sociedade. DaMatta me ajudou muito a entender que, por outro lado, o conceito de "pessoa" diz respeito a alma do indivíduo - ou seja, à roupagem coletiva que é colocada sobre ele. O sociólogo faz uma comparação interessantíssima entre sociedades que priorizam o indivíduo e sociedades que primam pela pessoa. O segundo tipo é exemplificado pelas tribos indígenas, pela sociedade de castas indiana, pelas culturas tradicionais. Nelas, "é como se a totalidade estivesse penetrando o elemento individualizado", assim, as crianças são incorporadas na sociedade através de rituais bem definidos e fortemente protegidos, sem opção, usando-se marcas corporais e/ou ritos religiosos. Em algumas sociedades, essa penetração chega a ser violenta e profundamente opressora sobre as identidades femininas e até sobre a saúde das crianças.

Estou radicalizando para levantar algumas questões interessantes sobre a maternidade no ocidente e os movimentos recentes de estímulo à incorporação de práticas orientais ou tradicionais de cuidado dos bebês.  Ocorre que, na vida real, em todas as sociedades, indivíduo e pessoa convivem cotidianamente e são usados por todos nós, em níveis e formas diferentes. Em sociedades europeias é mais evidente a sobreposição do primeiro elemento, porque são historicamente mais "experientes" na democracia republicana - e portanto, é mais fácil compreender porque a liberdade de escolha das mulheres quanto às práticas de cuidado dos bebês é tão defendida. Ou seja, não proíbe-se a amamentação artificial, não obriga-se ao parto natural, não impede-se que as mães saiam de casa para trabalhar logo depois do nascimento dos bebês, não define-se quantos filhos elas poderão ter, e trabalha-se para que elas tenham acesso à maior diversidade de opções possíveis. As mulheres não tem papéis sociais pré-definidos, imutáveis, elas podem ser mães ou não, (inclusive fazendo aborto), e podem adotar o modelo de maternidade que quiserem, com sling, sem sling, com carrinho, sem carrinho, com berço ou sem berço... Contanto que zelem pela vida da criança. Quando uma cidadã opta por definir-se prioritariamente por sua natureza materna ou por ser uma "mamífera" antes de qualquer coisa, ela tem liberdade para escolher e agir como tal. Ela não está abrindo mão de sua qualidade de indivíduo, mas quer ser reconhecida como pessoa que adota esses valores, prioritariamente. O que pode ser visto como uma grande coisa - tendo em vista todo o tempo no qual a mulher foi subjugada à categoria de semi-indivíduo, de não cidadã, enfim, de pessoa relegada aos deveres domésticos e matrimoniais, sem possibilidade de escolha.

Mas, às vezes, escuto recomendações sobre práticas de maternidade extraídas de sociedades tradicionais ou orientais sem que seja feita essa reflexão. Mesmo em sociedade individualistas, esquecer da pessoa, em suas marcas culturais, em sua herança étnica, em seus afetos, não é possível e nem é desejável - porque afinal, sempre buscaremos ter "alma". Talvez por isso muitas mulheres tem optado por educar seus filhos para serem pessoas e não somente indivíduos - a questão é saber equilibrar essa equação! Será que para contrabalancear o individualismo ocidental temos que importar modelos de criação de filhos de outras sociedades? Será que usar uma roupagem de "mãe tradicional" - ou quiçá "alternativa" - é uma arma eficaz contra o individualismo negativo? Por outro lado, renegar os hábitos dos povos "não-civilizados", como nossos antepassados fizeram tanto, garante a igualdade e a liberdade individual? Quantas perdas, em relação à saúde e ao meio ambiente, não tivemos por ignorar as boas práticas desses povos?

Eu continuo me perguntando essas coisas, e confesso que - talvez como um "mal" produzido pela influência iluminista em meus pensamentos - prefiro me ater às perguntas do que sacar respostas padronizadas. Resumidamente, suspeito dos grupos que tentam impor suas vestimentas à todas as mães e mulheres, e concordo com os benefícios de diversas práticas das sociedades não-ocidentais. O que me deixa mais feliz, porém, é saber que posso me beneficiar delas sem ter que me submeter à uma identidade ou papel social pré-estabelecido. Pode-se usar sling sem dispensar o carrinho! Pode-se amamentar naturalmente e usar mamadeira! Pode-se dar à luz de parto normal, com uma dose de anestesia. E pode-se praticar cama compartilhada sem engolir prontamente o pacote attachment parenting... E, se alguém quiser me convencer de que tenho que me converter ao seu modelo de alma, digo que quero criar pessoa sim, mas sem me esquecer de que antes, conquistamos a individualidade! E é isso que prezo na educação da minha filha: que ela se sinta especial por ser minha filha, mas que não se sinta melhor do que os outros porque come salada orgânica e bebe suco natural!