Hoje acordei com muita vontade de falar sobre amamentação. Pra mim, um assunto que parecia tão tranquilo e pessoal, até me deparar com as polêmicas que ele pode causar em discussões (ou na falta delas) em mensagens de um grupo virtual. Explico-me: a enfática frase "amamentar é um ato de amor" pode às vezes, carregada de dogmas, fomentar o disparo de críticas desmedidas a uma ponderação ou reflexão diferente sobre o ato de amamentar. Além disso, minha fiha completa 6 meses no próximo sábado, quando já começo a planejar a introdução de alimentos salgados e o gradual desmame. Ela, na verdade, já come frutas e bebe água, com a orientação pediátrica, desde 3 meses completos, e, apesar da máxima super divulgada do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, continuo afirmando que esta foi uma das melhores decisões que tomei neste período. Por quê?
Bem, para mim e para outras mulheres que tenho conhecido, o ato de amamentar não começou como algo naturalmente fácil e prazeroso. No meu caso, tive até grandes vantagens por ter preparado o bico durante a gestação e por ter muito leite, desde o início. Mas, tenho um desvio sério na coluna, que me causa muita dor! Laura, sempre bem maior que a média de bebês de sua idade, e uma bezerrinha, mamou em intervalos de 2 horas durante os dois primeiros meses. Parada numa mesma posição, segurando-a nos braços ou deitada, numa posição desconfortável para minha lombar, cheguei a ter um torcicolo sério e contraturas recorrentes.
Como comentei em outro texto, eu e meu marido optamos por não ter babá neste momento, nem colocar Laura numa creche. Parei de trabalhar, por enquanto, para dedicar-me quase exclusivamente a ela. Contando com ajuda eventual da família, nós dois temos sido vitoriosos na divisão do cuidado, mantendo cada um à sua maneira uma relação muito íntima e gostosa com nossa "gostosurinha" (como a apelidamos!). Mas, eu sou muito honesta comigo mesma. Aprendi com alguns anos de terapia que, hipocrisia e mensagens dúbias são alguns dos piores males nos relacionamentos, inclusive parentais. Por isso, sempre fui clara com meu marido: amamentar não é fácil! É preciso valorizar!
Entrando num estado de estresse intenso, com muitas dores e dormindo pouco, a tristeza começou a se instalar sorrateiramente em mim. Amamentava Laura, em alguns momentos, com um estado de tristeza e desânimo. Pensava na interrupção de minha carreira (que tanto prezo), na saudade de sair com os amigos, na dificuldade de planejar meu dia-dia e fazer algo puramente para mim! A tensão se intensificava e a dor alimentava ainda mais esses pensamentos.Consolava-me, em vão, com idéias de culpa, de responsabilização: "eu escolhi ter filho, eu que agüente toda a carga".
NÃO! Não acredito que seja essa a tradução do aleitamento materno como ato de amor. E, comecei a perceber que todo aquele estado de espírito não era causado pelo fato de eu estar cuidando de minha filha, mas era simplesmente minha mente absorvendo o profundo cansaço físico em que estava. Decidi buscar uma solução alternativa para não permitir que tal ato sacrificasse tanto meu corpo e mente, sem privar a Laura do melhor alimento que ela poderia ter. Voltei a me alegrar muito em ver minha "gostosurinha" mamar com tanta felicidade.
Conversei com a pediatra, e com uma vaga perspectiva de voltar a trabalhar quando Laura completasse 6 meses, resolvemos introduzir as frutas quando completou 3. É claro que isso só foi possível com uma avaliação de seu estado de saúde. Ela já tinha ganho muito peso, bem mais do que a média de sua idade, e fomos testando aos pouquinhos como as frutas afetavam seu sistema digestivo. A banana foi ficando de lado, até ela recebê-la melhor, a maçã, a pêra e o mamão foram muito bem digeridos. A alegria dela ao experimentar os novos alimentos também se tornou contagiante! Ela ficou tão alegre que passou a não pedir mais o mamá após a frutinha, como ocorria no início.
Introduzir os novos alimentos e continuar a amamentar, sem a introdução de mamadeiras, foi muito bom para nós duas! Continuo achando maravilhosa a intimidade que construímos com o processo da amamentação. E também tenho ficado surpresa com a confiança e a gradual "independência" que Laura tem manifestado, se desenvolvendo até mais rápido do que o esperado.
Hoje não estou com medo do tal desmame, que assusta muita gente! Sei que Laura irá receber, com muita alegria, os novos sabores das papinhas salgadas, e ela sabe que isso não implica em perder de vez seus momentos prazerosos ao seio da mamãe. Até quando amamentarei? Não sei! Vou construindo, sem preconceitos e dogmas, essa gostosa relação com minha filha. Quando estivermos prontas para uma mudanças como essa, ela virá sem a carga de culpa e chateação que tantas mulheres, infelizmente, ainda tem que enfrentar!
OBS.: Vale muito a pena ler o texto do link! Ele foi escrito pela Taís do Ombudsmãe, um blog excelente! Há também um outro mais polêmico ainda, e em inglês, no seguinte endereço: http://www.theatlan tic.com/doc/ 200904/case- against-breastfe eding/3
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