Já estou há muitos dias sem escrever. E sinto falta. Sinto muita falta desse espacinho, com poucos ecos, onde posso contar, comentar, descrever meus pensamentos e sentimentos. Especialmente agora, sinto falta disto.
Mas, é difícil equilibrar o tempo quando se tem uma filha tão novinha, um casamento tão recente, e as demandas e exigências extra-familiares! Parei pra perceber que o tempo que sobra para meus desejos é muito escasso e precioso. É uma pena que ele sobre, e não exista caso não me sobre mais nada. É uma pena que um casal tenha que se equilibrar entre alimentar mutuamente seus desejos e sonhos e satisfazer as carências e expectativas de familiares (aos quais acabamos de nos associar).
Faz parte. É o que dizem: quando casamos, casamos também com a respectiva família de nosso cônjuge.
Agora veja só: cuidar de uma bebezinha, de seu desenvolvimento, educação, alimentação (que ainda inclui o leite materno), etc etc + cuidar de uma casa e seus afazeres domésticos + cuidar de um relacionamento, que apesar de longo é recente nessa história de juntar as escovas + cuidar das expectativas de mães, irmãs, vovós, cachorros, papagaio, piriquito, blá blá blá e todo o mais que vem junto com esse PACOTE chamado família!
É justo que seja tão difícil, mas tão valioso pra mim, desabafar um pouquinho nesse blog!
Esqueci de comentar na quinta a publicação da crônica Identidade Materna: real ou dissimulada, que já postei aqui, no blog da Vanessa, o Fio de Ariadne. É uma tremenda honra para mim ter minha crônica selecionada por ela! Adoro seu blog!
Aliás, tenho descoberto gente muito interessante com muita coisa boa pra falar nesse universo dos blogs. Espero ter mais tempo e habilidade para continuar me aventurando nesse universo! Em breve pretendo postar minha lista de blogs indicados e batalhar para divulgar melhor os meus links.
Pode parecer que o título deste texto refere-se a um saudosismo acrítico por algum período da História brasileira em que não havia dúvidas sobre o exercício da autoridade: o autoritarismo violento que reinou durante a ditadura populista e a ditadura militar. Não, de forma nenhuma imagino pregar saudade de um tempo assim!
A idéia é trazer à tona uma situação constrangedora que vivenciei numa agência bancária do Banco do Brasil, quando Laura tinha 3 meses, para refletir um pouco sobre o tema proposto pelo Cachorro Solitário para esta blogagem coletiva.
Lembro da frase do segurança do banco, impedindo minha entrada na agência (com um título da União que só poderia ser pago no BB, e o carrinho de minha filha ). Ele disse que eu não estava sendo cidadã porque questionava sua ordem, e porque não queria obedecer a uma regra do banco. A regra era a seguinte: mulheres com bebê em carrinho só poderiam entrar na agência se este fosse pequeno suficiente para passar pela porta giratória, elas não poderiam entrar pela porta para cadeiras de rodas. Acontece que o carrinho da Laura era bem grande nessa época, daqueles que quase simulam o conforto de um berço.
Algumas pessoas que me viram constrangida com a "ordem" do segurança prestaram-se a chamar o gerente, pois ele tinha se negado a sair de seu posto para chamá-lo para autorizar, excepcionalmente, minha entrada. O gerente abriu finalmente a porta, mas não satisfeito com meu constrangimento, dirigiu-e à mim, agora na longa fila para idosos, gestantes, deficientes e mulheres com crianças de colo, e disse que da próxima vez eu teria que vir com minha filha no colo ou não entraria no banco.
Todos ao meu redor se indignaram com a atitude do gerente e do segurança. Mas, não confrontaram-nos. Eu tentava acalmar a Laura, que a esta altura já estava impaciente e chorando... Saí da agência profundamente triste e envergonhada, depois de enfim pagar a bendita inscrição no concurso público que faria.
Saí pensando especialmente no que me disse o segurança. Afinal, o que seria cidadania na cabeça desse sujeito? Obedecer a uma regra, estupidamente inventada, brutalmente imposta aos clientes (potencialmente bandidos disfarçados, com armas escondidas no fundo falso de um carrinho de bebê!). Dias depois, a estória se completou e me ajudou a entender que tipo de autoridade e cidadania algumas pessoas e instituições promovem.
Depois de fazer uma reclamação no site do BB, recebi uma ligação do gerente geral da agência onde a situação ocorreu. Com todas as desculpas e explicações, este gerente me ofereceu um privilégio: eu poderia entrar na agência com o carrinho de minha filha se ligasse para seu celular avisando com antecedência de minha chegada. Resumindo, o meu direito de ir e vir dentro do banco (que além de tudo é uma instituição estatal) seria respeitado, excepcionalmente, porque o gerente resolveu me dar esse benefício.
O panorama que vejo é de uma crise de autoridade e de valores de cidadania, que carrega a História da relação desigual, populista e violenta do Estado Brasileiro, em diferentes períodos, com certos grupos sociais.
Sem ser catastrófica, acho que esta situação mostra que retrógrados valores ainda revivem no dia-dia, em momentos que seriam tão banais se não nos servissem para, pelo menos, refletir. A construção do Estado e da cidadania no Brasil é constante e não está fechada! A cada dia, nas relações mais triviais, precisamos promover a cidadania em que acreditamos.
Cláudia acorda de um pesadelo. Não se lembra ao certo do enredo da história, apenas de ter ouvido um grito de socorro e ter acordado com o coração disparado. Estava suada. A casa estava quente. Era uma manhã quente de primavera, mas ainda estava cedo, precisamente sete e meia. Ela não costumava acordar tão cedo assim nos fins de semana, mas há algumas semanas que não vinha dormindo muito bem. Pensou no remédio que tomava para dormir. Pensou na médica – talvez esteja na hora de voltar a consultá-la e aumentar a dose. Pensou na maldita menopausa, e aqueles calores que já a assaltavam pela manhã.
Um beija-flor aproximou-se da tela em sua janela, buscando talvez um daqueles vasos com água e açúcar que os vizinhos colocam para fora. Mas, frustrado, parou no peitoral, e parecia descansar. Cláudia viu o Cristo Redentor, que estava ainda mais bonito com aquele céu azul. Lembrou-se de quando comprou o apartamento. Os filhos eram ainda crianças, o marido confiava em seu gosto e deixara-lhe escolher sozinha o local do novo lar. Ele trabalhava demais, mas ela fazia questão de dar-lhe o maior conforto nos poucos momentos em que parava em casa.
Mas, aquele apartamento ela tinha escolhido para si. Nele desejava construir a família de seus sonhos.
Tinha decidido que, a partir da mudança, teriam um casamento diferente. Seus filhos não presenciariam mais as brigas de ciúmes. Seu marido desejaria voltar para casa e ficar ao seu lado todos os dias. A casa seria a fonte e a testemunha dessa transformação. Prometera não bater nem gritar mais com seus filhos. Sentia-se culpada demais pelo beliscão que dera em sua filha aos dez anos de idade, por causa da insistência para lhe comprar uma boneca. Tinha feito um escândalo na rua. Seu impulso foi o de apertar-lhe o braço e dar-lhe um beliscão, olhando bem em seus olhos e dizendo para que não repetisse a cena. A filha, magoada, disse-lhe que a odiava.
O filho era diferente. Não era capaz de responder-lhe com um grito. Parecia amá-la profundamente desde a primeira infância. Não gostava de desapontá-la. Era apenas um menino de oito anos quando passaram a morar naquele prédio, e agora já parecia um homem.
Olhou para a porta do quarto de seu filho. A porta aberta, e a cama arrumada. Aos poucos o quarto ia ficando mais vazio. Ele estava em vias de casar. Ia carregando suas coisas, lentamente, para a casa da namorada. Cláudia achava estranho que ele não hesitasse em ir morar num apartamento tão pequeno e sem uma empregada doméstica. Ele nunca aprendera nem a lavar as próprias cuecas! Estava acostumado a ser muito bem cuidado pela mãe e pela empregada, que há 20 anos trabalhava em sua casa.
O coração de Cláudia voltou a palpitar. Os calores lhe subiam pelo corpo. Ainda deitada, ensaiou uma prece, e levantando-se até sentar, pensou: hoje vou fazer aquela receita de pudim de claras!
O passarinho continuava na janela, o céu permanecia azul, e o Cristo lá: imóvel e ostensivo. Para algumas pessoas, esses eram sinais perfeitos de um belo dia para se passear no Rio de Janeiro: ir à praia, tomar um caldo de cana na praça, até mesmo dar uma olhada nas vitrines das lojas de rua. Convites que não despertavam o interesse de Cláudia. Seu mundo era sua casa. É claro que ela saía para ir ao supermercado, à igreja, às Lojas Americanas, e sempre trazia algum utensílio inovador para sua cozinha.
Essa dicotomia entre a vida lá fora e o mundo de dentro representa bem o que Cláudia tinha feito de sua própria vida. Tinha se esforçado tanto na construção de um lar bem-sucedido! Uma família em harmonia, a todo custo. Evitava ao máximo trazer qualquer preocupação para seus filhos sobre as despesas e as dívidas acumuladas da casa. Não podia frustrar as expectativas de que era capaz de sustentar, ainda que só, aquelas paredes solidamente construídas e que mantinham bem reprimidos seus conflitos internos.
É claro que o Cristo ali, tão próximo de sua janela, era uma prova de que tinha escolhido muito bem seu apartamento. Era assim que ela o via. Mas ultimamente, andava sentindo um incômodo estranho. Não era mais tão reconfortante certificar-se de sua excelente capacidade de ser mãe, uma mãe 24 horas preocupada com a felicidade de seus filhos. Vê-los satisfeitos depois de um bom jantar, relaxando em frente à tv, comentando sobre o dia na faculdade ou no trabalho, fazendo as velhas piadas e brincadeiras de irmãos... Essa era a perfeita tradução da felicidade familiar. Melhor ainda era ver os namorados e namoradas sentindo-se à vontade e unindo-se ao quadro também.
Mas, essas cenas já estavam ficando escassas. E ao invés de sentir-se triste e carente, Cláudia passara a sentir raiva. Uma raiva estranha, talvez uma reação ao que parecia ingratidão dos filhos. Envergonhava-se desse sentimento, e procurava esquecê-lo imediatamente. Mas, além da estranha sensação, havia as insônias e os calores! Maldita menopausa! Devia ser isso, afinal, essa menopausa podia estar lhe causando mudanças de humor.
Já não tinha mais paciência para seguir passo a passo uma receita. Inquietava-se com tantas frescuras – Coar todos os ingredientes, pra quê? O bolo fica fofo do mesmo jeito! Também não sentia mais aquela satisfação ao ver o melhor resultado possível. Fazia para fica bom ao paladar, e isso bastava – Ninguém ia ficar notando todo aquele capricho na hora de tirar o bolo da fôrma, ou os furinhos do palito de fósforo cuidadosamente disfarçados com a calda mais grossa. Já não esperava mais ouvir os comentários prestigiando-a, bastava que o bolo, o pudim, a pizza fossem prestigiados silenciosamente.
Será que estava se tornando uma velha mal humorada?
Respirou fundo. Expulsou aqueles pensamentos. Agradeceu a Deus pelo dia, pela casa, pelos filhos, pela comida... Meia hora se passara, e ela ainda sentada sobre a cama. E o beija-flor ainda na janela. É hora de acordar! Pensou.
Há muito tempo que o termo "família" é parte dos discursos políticos brasileiros. A defesa deste núcleo social foi integrada ao lema Positivista em favor da propriedade privada e da religião. O progresso do país já foi, em diferentes momentos históricos, associado à preservação da família. Hoje, na era da afirmação da diversidade e da luta contra os preconceitos, este núcleo é formado por arranjos muito diferentes. Os discursos mudaram, tentando acompanhar a defesa pelos Direitos Humanos, a emancipação da mulher, a aceitação da homossexualidade, mas mantiveram o forte ideal de que a "família" pode estar ameaçada, e de que, somente em sua defesa, chegaremos, enfim, no status de nação desenvolvida.
Podemos dizer que o discurso político no Brasil tem essa característica: procura rapidamente adaptar-se às novidades, incorporar o máximo de valores e visões de mundo, mesmo que eles sejam contraditórios., sem abrir mão de velhas idéias tradicionais. É a expressão da fraqueza ideológica de nossos partidos e de nossos representantes. Não estou aqui caindo no senso comum de afirmar que nossa vida política é uma droga (ainda que ele tenha muita razão de existir). Estou fazendo uma reflexão tardia com base em minha pesquisa de mestrado, e tendando juntar os pauzinhos...
O Bolsa-Família é o principal programa social do governo atual, em defesa da família e da popularidade de um governo, originalmente, controverso. Ele não pretende proteger nosso núcleo social mais importante do terrorismo comunista, mas tem o objetivo de combater a pobreza, assim, como numa guerra. Quando estamos em guerra é bem mais fácil reunir as forças antagônicas em prol de um suposto bem maior. A família perece um elemento catalisador para isso, e, portanto, qual é o político que se arriscaria a discursar sobre outros temas? Não parece ser muito popular falar de Educação, distribuição de renda, reforma agrária, direito universal à saúde, blá blá blá! Assim, o eterno combate se mantém, reunindo o povo, e sustentando os poderes.