Acordei. Quinze minutos, cochilei por quinze minutos! O livro sobre a barriga e o lápis caído no chão, enquanto me ajeitava na rede. É muito estranho quando isso acontece! Dificilmente durmo em outro período que não a noite, deitada em minha cama. Mas algumas vezes, quando tenho uma tarefa ou uma meta em mente, que não se deixa alcançar com facilidade, caio no sono ao invés de realizá-la. Em sonho, até posso cumpri-la, e vivo o prazer e o alívio por alguns minutos. Mas, a sonolência acaba consumindo a motivação.
Foi o que aconteceu esta tarde. Tinha uma terrível tarefa em mente: descobrir novamente - ou re-criar - a minha beleza. Depois do estica-e-puxa da gravidez, da flacidez pós-parto, das olheiras e rugas do cansaço da maternidade em sua mais exigente fase, decidi que era hora de me refazer, tomar as rédeas de meu novo corpo e voltar ao pário. Foi depois de um olhar de espanto e piedade, emitido pelo porteiro de meu prédio, que recobrei a vergonha de andar 24 horas por dia em formato super-mãe-cansada-sem-sexo.
Imagine, logo Seu Francisco, que até durante a gravidez, tentava mas não conseguia disfarçar a contemplação por meu quadril recheado e meus seios empinados. Eu me orgulhava de ser uma grávida de primeira viagem que se cuidava. Passava os cremes e óleos recomendados, fazia hidroginástica e natação. Minha alimentação era acompanhada por uma nutricionista, e engordei apenas 10 quilos depois das 40 semanas. Mas, fui cair no mito da beleza natural, e me arrasei no pós-parto e na amamentação. Resumindo: as estrias surgiram repentinamente, o peso ganho não foi embora, e ainda ganhei as marcas faciais do cansaço - não há porteiro que resista!
O livro sobre a barriga era um compêndio sobre alimentação e exercícios caseiros, o lápis era para grifar bem aquelas frases de efeito que têm como objetivo nos fazer desejar com todas as forças voltar à boa forma e caber de novo na "fôrma". "Lembre-se que para cada dia de esforço, você ganhará meses de admiração". Eu lembrava de meu marido. Ele ainda existe, afinal! Ainda está aí, mesmo sem mostrar muito interesse. Na verdade, ele evitava me pressionar, e esperava pacientemente que eu tivesse a iniciativa para o sexo. Mas, eu me sentia cansada demais - e agora, feia também. Não há mulher que sinta tesão sem se sentir bonita!
Acho que mulher é assim, primeiro ela tem que sentir atração por si mesma, pra depois permitir ao outro que a deseje e toque. Porque entrar numa relação encanada com a própria beleza - ou a ausência dela - impede que ela relaxe e goze. Literalmente. Desculpe o português xulo, mas olhar e pensar em meu corpo não me dá inspirações mais elevadas. Essa Bárbara que se vê tão acabada no espelho, mas encara brutalmente as noites mal dormidas e as longas, muito longas, mamadas, está mais para uma linguagem nua, crua e sem sal.
Onde está, afinal, minha beleza? Perguntei-me depois de ler na introdução do compêndio a seguinte frase: "Para entrar em forma, você precisa se lembrar de que a beleza está dentro de você". Ok, mais uma chamada para minha motivação. Porque ninguém vai querer fazer exercícios físicos e dieta se não acreditar que vai ficar belo. Mas, não era só isso. Eu era bonita sim! Eu era, juro!
Acordei aos quinze minutos de cochilo pós-leitura, com o volume gradativo do choro de Felipe. Um chorinho que foi se tornando uma tempestade. Quando acordei completamente, e o volume já estava no máximo, levantei e corri para o quarto. Peguei-o no colo e estranhei aqueles olhinhos encantados, que me observavam com um semblante apaixonado. Fiquei trinta segundos parada, naquela cena, como se fosse um terceiro espectador. Alguém me achava linda! Depois de amamentá-lo, voltei ao monólogo diante do espelho, revirei meu corpo de cima a baixo, e pensei: "Até que não estou tão mal! Amanhã começo a dieta!".
4 comentários:
Que lindo o seu texto!
Beleza é o antes e o depois...
estar grávida...
sentir uma vida dentro de nós.
Depois ser MÃE...
preocupada, cansada, insegura, mas descobrir que somos MULHER e continuar a gostar de nós!
(nem que se tenha de fazer dieta:)
beijinhos
Obrigada MZ! De fato, a beleza a que damos luz tira o foco de nós mesmas por um longo tempo... mas ainda assim, aprendemos a continuar nos amando!
Carolina tens razão quando dizes que a mulher para ter vontade de ter um relacionamento sexual satisfatório tem que se sentir bela, desejada, gostar dela. O pós parto traz alguns problemas físicos à mulher mas, o corpo pouco a pouco volta ao normal. As estrias dependem do tipo de pele e do que se engordou e aparecem após o emagrecimento repentino. Nunca mais saem e não há produto milagroso. Mas tudo isso é o preço de se ter um filho. Perdemos algumas coisas mas ganhamos a beleza de se ser mãe, de se ter um filho. Aprenderás a gostar de ti. Todas passamos por isso, todas aprendemos a viver com as mudanças, que não só físicas como já deves ter reparado. A beleza de uma mãe está no olhar, no olhar do filho para ela e dela para o filho. Há maior beleza? Tudo parece tão pequenino comparando com a realidade de se ser mãe. Tens aqui um post que nos fala de outro tipo de beleza, uma beleza que leva a mudanças, a dúvidas mas que traz muita felicidade e responsabilidade: ser mãe. Beijinhos
Brown Eyes,
realmente aprendi a reencontrar minha beleza após o parto. Este conto foi um exercício de imaginação e auto-conhecimento! Não engordei tanto nem fiquei me achando tão feia depois da gravidez quanto a minha personagem, nem entrei em uma greve de sexo tão longa... rsrsrs Mas sei que algumas mulheres passam por isso e têm dificuldade em voltar a amar o próprio corpo de novo! Vc definiu perfeitamente a beleza da maternidade!
Obrigada pelo comentário!
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