Hoje eu tive um sonho, um daqueles que ficam para sempre na memória. Foi tão intenso que tive que "furar" o plano de escrever só aos domingos para expor aqui nesse espacinho tão pessoal e coletivo as lembranças que o sonho me fez reviver!
Sonhei que estava em pleno trabalho de parto, do segundo filho. Laura já existia e estava por perto. O pai, nervoso, me apoiava com todo o amor que já tinha demonstrado no primeiro parto. Estávamos na casa de uma tia, uma casa grande (imaginária), onde se espalhavam pelos cômodos alguns de meus parentes: irmãs, primas e primos. Todos da mesma geração, pois, por algum motivo, a geração de avós não se encontrava.
As dores das contrações foram tão vívidas! E eu conseguia manter uma sincronia quase perfeita com a vinda do meu novo filho, numa suíte, com uma banheira, olhando a lua cheia pela janela, com as dores mais intensas e felizes da minha vida. A sincronia era quase perfeita, porque além de meu marido, meu companheiro, que alí já não tinha como argumentar contra um parto domiciliar (como fez tanto durante a gravidez de Laura), haviam dois homens desconhecidos opinando sobre meu parto. Então estávamos assim, em cinco: três homens, meu filho no útero, e eu, a mulher, querendo parir, me esforçando para me concentrar apesar da pressão dos homens nervosos, ansiosos, querendo controlar o parto. Um dizia que eu deveria parir logo, que não ia dar pra ir para a banheira (semelhante ao que aconteceu no parto de Laura, quando apesar de meu pedido ao obstetra e apesar de estar numa sala de parto "humanizada", não pude fazê-lo na água, porque o médico disse que não ia dar tempo de esquentá-la). O outro, ficava tenso porque seria um parto fora do hospital, e cogitava o que poderia dar errado. Eu, tentando deixar fluir as contrações, dizia mentalmente ao bebê que poderia vir quando estivesse pronto. Mas, de repente, fui interrompida. A tensão que se acumulava ao redor interrompeu minha concentração e as contrações deixaram de ser vívidas e harmoniosas, para serem dores agudas, como as de cólicas menstruais. As sensações que davam as boas vindas ao novo ser foram reduzidas a dores eventuais, tão banais e comuns como as que sinto mensalmente. O bebê, que parecia se aproximar, se recolheu, e o colo do útero, que já estava dilatado se contraiu e quase fechou.
Acordei quando, em posição fetal, contraía quase todos os meus músculos, suando e sentindo um frio tão repentino e estranho! Abracei meu marido e me cobri, mas não podendo ainda ser aquecida, pedi que ele diminuísse o frio do ar condicionado. Ele estranhou, mas o fez, apesar da noite altamente quente.
Fiquei alguns minutos meditando sobre o sonho, e lembrando do processo de nascimento de Laura. Foi incrível! Pois lembrei detalhadamente das dores das contrações. Voltando no tempo, acho que re-signifiquei tudo aquilo que tínhamos vivido.
Eu nunca relatei detalhadamente meu parto. Eu tive dificuldades para assistir o vídeo, mesmo depois de 4 meses. Eu não conseguia expressar o que tinha sentido quando vi a Laura pela primeira vez. Eu já a amava, e me sentia realmente feliz. Mas, a sensação exata eu não saberia descrever, porque, de uma certa forma, me sentia um pouco adormecida... anestesiada... apesar de não ter tomado nenhum tipo de anestesia e não ter sofrido nem indução nem episiotomia.
O choro forte veio mesmo horas depois no quarto, quando Laura ficou ausente por 1 hora, porque as enfermeiras a haviam levado para fazer "exames de rotina". Depois que ela foi levada, dormi uns 15 minutos e acordei com uma sensação muito forte: uma necessidade de sua presença. Fiquei esperando, ansiosa, alguns minutos, e telefonei para a enfermaria. Disseram-me que ela estava fazendo os exames e logo subiria para o quarto. Esperei mais algum tempo, e nada. Comecei a chorar. Vesti-me com o que tinha próximo e desci. Vi vários bebês na enfermaria, a maioria chorando, e um parecia muito com Laura, mas era um menininho. Eu não conseguia lembrar exatamente como era seu rosto! Uma enfermeira veio falar comigo fora daquela estufa à prova de intromissão de mães. Disfarcei o nervosismo, me achando uma novata idiota. E ela me disse, mais uma vez, que Laura já subiria. Quando enfim isso ocorreu, me explicaram que o exame da audição teve de ser repetido porque ela chorava muito! Não era à toa que eu chorava também...
Nesta madrugada, lembrei de tudo isso! Lembrei do quanto me senti estranha, invadida, e até meio roubada nesse período em que levaram a Laura. Lembrei do quanto me esforcei para controlar os gritos durante as contrações quando tive que ser carregada na maca, deitada, semi-nua, praticamente sozinha, no elevador da maternidade, por um funcionário qualquer do sexo masculino. Eu queria ter ido andando, com ajuda de meu marido, ou, no máximo numa cadeira de rodas, mas não deixaram. Lembrei que, antes de decidirmos pela maternidade, e de ter ouvido o obstetra não recomendar parto domiciliar para mim, porque era meu primeiro parto e porque eu tinha uma escoliose acentuada na coluna (o que, segundo ele, poderia dificultar a saída da Laura, por causa da rotação em meu quadril), eu tinha cogitado seriamente ter meu parto em casa. Mas, tantos preconceitos, e a resistência de meu marido, me impediram de seguir minha intuição. Não tive um parto ruim, desumano, como tantas mulheres têm e nem chegam a saber. Mas, meu sonho me fez pensar novamente sobre as contradições que vivi.
Meu trabalho de parto durou pouco. Foram apenas 4 horas, desde as primeiras contrações regulares da madrugada do dia 23 para 24 de Abril de 2009. Acordamos as 4hs, e as contrações se regularizaram em intervalos de 5 minutos as 5hs. Ligamos para o obstetra as 6hs, conforme sua recomendação. Houve um momento em que quase desmaiei por causa da hiperventilação. Respirava o tempo tempo todo, profundamente, e orava, pedindo a Deus que a Laura viesse por um parto tranquilo. Estava insegura com o médico, porque tivemos um mal entendido dias antes.
Tive que colocar uma roupa para ir para a maternidade, e eu já pensava em quanto queria continuar em casa, com aquela camisola mesmo, e tomar um banho quente, com meu marido do lado. Como não queria ter que sair, entrar num carro, sentir as trepidações, ver o nervosismo de todos que me acompanhavam (minhas irmãs e meu marido). Mas, ter encontrado minha mãe na maternidade foi um alívio! Ela conseguiu me transmitir serenidade, e por um tempo foi meu ponto de equilíbrio.
O médico chegou no hospital as 8hs. Eu já tinha dito que não queria anestesia, mas ele ofereceu uma última vez. Eu neguei novamente. Eu sentia a Laura despontando e disse que não ia mesmo demorar! Houve momentos em que eu achava que não ia conseguir, porque parecia ser necessária muita força para ajudá-la a sair. Cheguei a pedir ao médico que a tirasse logo! Além da dor, tinha medo de que ela sofresse com a demora. Mas, ele me devolveu o pedido, dizendo que o trabalho alí era meu. Sentia-me apoiada, mas ao mesmo tempo me deixei contaminar pela ansiedade ao redor. Todos na sala de parto tentavam me incentivar, dizendo "vai! força! já dá pra ver a cabeça!". Eu me sentia entre a sintonia com Laura e as expectativas de todos. Mas, busquei me concentrar na primeira idéia. Houve um momento em que eu tive que dizer que a posição estava desconfortável (o médico tinha sugerido ficar de cócoras mas percebi que era melhor quando inclinava um pouco mais para trás, com meu marido segurando minha lombar e pressionando o quadril - como havíamos aprendido num curso para gestantes). Houve momentos em que me senti dona do meu parto.
O momento imediato após o nascimento foi lindo! Meu marido chorando, minha irmã mais nova filmando e chorando também. E eu, sentindo muitos incômodos ainda, tentava conciliar a emoção de ter a Laura nos braços com as sensações experimentadas. Chorei internamente, sem lágrimas. O médico prosseguiu imediatamente com o fechamento de uma pequena laceração, com três pontinhos. A região estava muito sensível! Eu sentia dor e também sentia frio. Minhas pernas tremiam. Na minha frente, a pediatra, uma auxiliar de enfermagem, e o obstetra. Eu reclamava da dor, do frio, da sensibilidade, e ao mesmo tempo dizia à Laura o quanto ela era linda!
Apesar de tudo ter saído bem, da Laura ter nascido saudável, de não ter tido complicações no parto, hoje, percebo que houve uma dissonância importante entre o ambiente e o evento mais emocionante de minha vida. O ambiente hospitalar, ainda que teoricamente humanizado, não "casou" com minhas expectativas de entrar em sintonia com minha filha e minha família. A presença de pessoas estranhas e pouco sensíveis ao que eu experimentava foi uma barreira para uma vivência perfeita de meu parto.
Hoje, especialmente depois desse sonho, e de ler relatos tão poderosos de partos domiciliares (inclusive os de minha mãe), penso que gostaria de ter seguido minha intuição, ter tido coragem de me informar melhor, correr atrás de um profissional que me apoiasse e assumido minha decisão. Não seria nada arriscado, nem irresponsável, como dizem alguns preconceitos, e como diz a medicina machista pouco sensível aos desejos maternos. Eu moro perto de vários hospitais e maternidades, se houvesse alguma emergência. Eu tenho uma família grande e unida, que me daria o suporte necessário. Eu poderia ter vivido o momento mais importante da minha vida no conforto do meu lar, e levaria a Laura para fazer todos os exames necessários depois de curti-la e conhecê-la de verdade. Eu me sentiria o TEMPO TODO DONA DO MEU PARTO.
Eu tinha escolhido o obstetra em busca das melhores condições para um parto natural. Eu escolhi a maternidade indicada por ele. Eu quis conciliar meus desejos com a vontade de meu marido. Por isso, não insisti na idéia do parto em casa. Mas, eu já desconfiava que, ainda que com o rótulo do "humanizado", um parto hospitalar não me daria a liberdade, privacidade, autonomia e a sintonia que eu sonhava.
Por outro lado, eu tive a alegria de ser firme em minha decisão de não receber anestesia, para não correr o risco de prolongar ainda mais o trabalho de parto e interferir no tempo natural do nascimento da Laura. Também tive a satisfação de colocar em prática alguns ensinamentos do curso de preparação para o parto natural, contar com a participação ativa de meu marido, e ter tudo registrado em filme por minha irmã!
É... parir é tão intenso e complexo que só conseguimos "juntar" as sensações e construir um sentido para a experiência tempos depois, principalmente quando temos que nos dividir com tantas expectativas e imposições externas...
12 comentários:
Carol,
adorei o seu sonho e o seu relato. Muito sincero, muito lindo. A vida 'e isso ai' mesmo... nem sempre acontece tudo do jeito que sonhamos, mas certamente foi uma experiencia melhor do q a de muita gente. E tem sempre o segundo filho... De qualquer forma, so' o q podemos fazer e' tentar de tudo para realizar o nosso sonho. E fazer as escolhas mais verdadeiras possiveis. Acho que vc conseguiu. Parabens! bjs, Clarissa
É amiga! Essas suas reflexões profundas me fizeram ter vontade de tb expor as minhas através de um blog tb. Ainda não tive essa experiência da maternidade, mas fico muito orgulhosa de ter uma amiga que se preparou tanto pra esse momento especial e pode agora estar elaborando tantas reflexões de um momento tão delicado que é o parto. É mto bacana ver toda a sua dedicação a sua filha e a sua família. Esse seu atirgo foi bem intenso e quem sabe vc daqui a pouco vai ter o segundo...hehehe E que sonho mais detalhado hein! Cinematográfico! Bjs, Mi
Pois eu daria tudo para ter lembranças como as suas. Um parto ótimo, sem intervenções, respeitoso. Não consigo entender esse seu descontentamento. Se alegra mulher, fica feliz com o teu parto porque foi muito bom, segundo li nesse seu relato.
Claro que pari em casa é algo incomparável, mas talvez essa sua vivência a tenha deixado bem mais forte e determinada em relação ao nascimento de seus próximos filhos.
O que estou querendo dizer é que, sim, existe uma opção ainda melhor(PD), MAS, que sua experiência foi muito boa e é bobagem não encará-la dessa forma.
Beijocas :)
Eu estava lá...! é tudo verdade.
ps: o pessoal, que papo é esse de segundos e terceiros filhos?! vamos com calma aí que eu ainda pretendo dormir nessa vida.
Obrigada Clarissa e querida amiga Mi! Paty, com certeza agradeço muito pelo parto que tive. Sei que muitas mulheres passam por situações horríveis, muitas até enfrentam uma cesária desnecessária. Mas, foi bom pra mim ser completamente honesta com meus sentimentos, e perceber que mesmo com tudo de bom que vivi, ficou a vontade de ter tido um PD. Não sei se haverá um segundo filho... não está nos nossos planos... por isso, talvez eu nunca viva este sonho. Mas, não estou me lamentando!!! Graças a Deus, Laura teve uma ótima chegada ao mundo, e tem muito mais pela frente!!!
Beijos a todos e obrigada pela visita!
Meu amor, você estava lá e está agora sempre muito presente. Isso é fundamental!!!
Carol e Marcelo,
Esse negócio de botar filho no mundo vicia, hehe. Daqui a uns me contem como foram os lindos partos em casa que vocês tiveram.
Beijos
Oi Carol!
Amei ler seu relato, tão forte e intenso! Tive muitas afinidades com tudo o que vc escreveu, embora ainda não seja mãe!
Parabens!
beijokas,
Iris
Querida Carol, Que lindo o seu relato. Emocionante. Enquanto eu lia, lágrimas escorriam de meus olhos. Realmente, seu relato é muito envolvente; uma experiência transcedental e mágica que ainda nessa vida, gostaria muito de realizar.
Parabéns pela clareza, franqueza e intensidade de seu texto. Bravo!! palmas! palmas!
Saudade de vc... vcs estão morando aonde?
Abraço para o Marcelo, beijocas para vc e Laura. Quero conhecê-la.
Oi Iris e Mari! Que bom receber seus comentários! É muito gostoso poder dividir com outras mulheres essas minhas experiências, me contem quando for a vez de vcs!
Beijão
Ai, que lindo!
Adorei, adoro ler relatos de parto, pq fazem eu reviver o meu, enquanto alta "tempo (leia-se dinheiro, espaço e tempo) pra ter mais uns (ou umas).
Parir vicia sim!
Mas saiba que até no meu, que foi domiciliar, eu ico com umas encanações de que poderia ter sido assim ou assado...
Mas, como diz minha sábia e amada parteira e amiga (Vilma Nishi): "a gente pari (como conjuga esse verbo?) como a gente vive!"
Mas o que prevalece é a sensação boa de que nós conseguimos, somos capazes e protagonistas e as lembranças maravilhosas!
Bjos!
Cath, da Laura (também! mas de 1a8m)
adorei esse sonho e eu esto gravida de 7 meses e e trigemeas
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