O título deste post é a chamada de um comercial que passa num canal de desenhos infantis. Pode acreditar! Os anunciantes realmente acham que nossas filhas vão querer comprar a tal boneca porque ela baba de verdade! Elas vão se divertir muito tendo o trabalho de limpar a baba de uma, o coco da outra, e lavar uma fralda suja de verdade. Ou querem nos fazer acreditar que é muito saudável já começar a treinar as pequenas meninas para seu trabalho maternal inevitável? Eu, particularmente, não sou contra dar bonecas para as meninas, nem para os meninos, porque são brinquedos, que como tantos outros, simulam arealidade, abrindo um espaço para as crianças projetarem suas fantasias e construirem sua própria identidade, enquanto se divertem. A brincadeira é uma atividade fundamental e tão gostosa! Eu adoro ver qualquer criança brincando, sozinha ou acompanhada! Mas, eu detesto essa divisão sexista de brinquedos e principalmente a exposição de nossas meninas à tantos brinquedos voltados para trabalhos domésticos. É claro que é muito prazeroso ter um filho, mas não é prazeroso trocar uma fralda cheia de coco! Por que insistem em empurrar uma idéia tão ilusória da maternidade? O gostoso de "fingir" em ser mãe é justamente o jogo do "faz de conta", da possibilidade de imitar os adultos sem ter a responsabilidade deles.
Em minha monografia de graduação, estudei um pouco a função da brincadeira para a formação da subjetividade e para a relação que o indivíduo desenvolve gradualmente com a sociadade. Um autor que me inspirou muito, Donnald Winnicott, me ajudou a entender que brincar é uma atividade transicional, ou seja, que se localiza numa área de experiência entre o que percebemos como realidade compartilhada e o que nos é totalmente íntimo e subjetivo. E me fez concluir que:
"A atividade do brincar criativo é, assim, um fenômeno transicional. O uso de um objeto transicional equivale, progressivamente, ao uso que o sujeito adulto faz da cultura, apropriando-se de seus elementos para afirmar sua potencialidade individual. (POMBO-DE-BARROS, 2007, P. 31)"
Portanto, quando a uma menina são oferecidos apenas brinquedos voltados para a vida doméstica, ela vai ter o trabalho de transformar essa realidade em algo prazeroso - na medida do possível - enquanto, cria uma identidade na sociedade que aprende a reconhecer. Daí surge a identidade de gênero, a incorporação das diferenças de funções sociais entre homens e mulheres. As mulheres têm que ser cuidadoras. Elas têm que saber cuidar de bebês e também dos homens, que são atraídos para atividades mais expansivas e arriscadas, de ocupação dos espaços públicos, de trabalhos ligados à guerra e à construção de casas, carros, etc. A mulher é "dona de casa", o homem é dono da força. É, isso parece uma análise ultrapassada, afinal, nós mulheres da geração pós-feminismo não aceitamos mais esse discurso que nos impede de conquistar também os espaços públicos e o mercado de trabalho. Mas, não me iludo, porque sei que ainda há muitas mulheres sendo criadas para pertecerem ao mundo doméstico, e quando conseguem suplantar esta realidade, é para acumular funções e não escolher uma em detrimento da outra. Assim, meninos continuam sendo educados bem longe de atividades maternais - ou melhor, paternais, já que pais têm o mesmo nível de responsabilidade na geração e educação de um filho - e não crescem com o senso de cuidado que as mulheres precisam adquirir. Por isso, é tão desafiador para um homem se envolver no dia-dia da criação dos filhos; muitos se sentem inadequados, cosntrangidos, e não entendem o estresse da mãe, que deveria, afinal, estar nas nuvens com a vinda de seu bebê!
Um outro autor importante no estudo de brincadeiras infantis é o Gilles Brougère, e ele me ajudou também a entender que uma criança, ao manipular brinquedos, não se contenta em repetir comportamentos e imitar puramente as instruções de uso, mas manipula significados e aprende a lidar com o sistema cultural do grupo no qual se inclui. Assim, ela ensaia papéis que demarcam aos poucos sua existência como indivíduo, e aprende a dosar seus afetos com as condutas prescritas no grupo (POMBO-DE-BARROS, 2007).
Por isso, eu não compraria uma boneca que baba de verdade para minha filha, eu não quero restringir a delícia de suas brincadeiras à um treino preciptado para a maternidade! Não é o momento de ela ter o trabalho de cuidar "de verdade" de um bebê! Esse tipo de aprendizagem deve ser introduzido com a educação sexual, lá pela adolescência, aí ela vai entender a dificuldade que é cuidar de uma criança de verdade, vai se esforça para prevenir uma gravidez indesejada e se planejar para ser mãe - se assim quiser, num momento mais adequado. Ah! E também espero que assim, ela saiba escolher um homem para dividir todo esse trabalho e prazer que é ter um filho, um homem que não espere de sua mulher apenas uma "dona de casa".
Atualmente, cada vez mais, as crianças são bombardeadas por propagandas e ideiais de consumo que, aparentemente formam uma simples relação de oferta e procura. Mas, eu não aceito a falsa mensagem de que o que nossas meninas querem é imitar a parte mais enfadonha da vida adulta! Fique atenta(o) você, que é mãe ou pai, ou pensa em ser um, e procure diversificar as opções de brinquedos para seus filhos. Termino este post com a idicação de um ótimo site que discute esse tema, e vai mais além, questionando as imposições de modelos femininos através de vários tipos de produtos de consumo, faça uma visita no Pink Stinks, e depois volta aqui para comentar o que você acha disso tudo também!


4 comentários:
Carol, adorei os temas que você levantou nesse post! Realmente, é chocante ver essas bonecas cada vez mais "como bebês de verdade" sendo vendidas para nossas crianças de maneira cada vez mais inescrupulosa. O Brasil tem pouquíssimas leis contra propaganda direcionada a crianças, especialmente comparado a países europeus, por exemplo. Outro tema correlato é a sexualização cada vez mais precoce de nossas meninas- estimulando uso de maquiagem, tratamentos de beleza etc. Sem contar o lado "racial" das bonecas louras, de olhos claros etc. Você abriu a caixa de pandora (rsrs). Bom, são muitos assuntos interessantíssimos para se discutir. Eu divaguei muito aqui nesse comentário, mas é que realmente seu post levanta milhares de outros assuntos... Bjos, Clarissa
Oi querida! Pois é... sei que minha iniciativa é só um grãozinho de areia nesse mundão temeroso... rsrs Quem é mãe de menina tem que ficar ligada! Obrigada pelo comentário, foi super relevante!
Beijão
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O tema dos brinquedos sempre me incomodou. Eu tive a sorte de ter um irmão apenas 1 ano mais novo com o qual me dava muito bem e brincávamos muito juntos. Assim, pude usufruir de brincadeiras e brinquedos feitos para meninos e meninas, o que penso ter contribuído muito para forma como vejo as diferenças sexuais hoje e a aceitar as minhas preferências (mesmo que elas sejam vistas como "tipicamente" masculinas). Acredito que os brinquedos nos ajudam a formar uma identidade social. Carol levantou tópicos importantes, mas ainda há muitos outros, mostrando que este é um tem complexo. Não me esqueço de dois dos meus brinquedos favorito no tema "brinquedo de menina". Um era uma boneca, mas era um menino. O outro foi uma barbie morena. Não estou dizendo branca com cabelo castanho. Estou dizendo morena mesmo. Meu pai a trouxe do exterior. Talvez hoje já sejam mais comuns, mas em meados da década de 80, todas as bonecas eram meninas, loiras e de olhos azuis.
Sei que não dá para controlar os gostos e vontades das crianças, mas sempre que possível devemos estar atentos a que brinquedos brincam nossos filhos.
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