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domingo, 21 de março de 2010

Precisamos falar sobre...


 Eu estou lendo "Precisamos falar sobre o Kevin" de Lionel Shriver. O nome parece masculino, mas só uma mulher poderia escrever este livro, ou um homem intimamente ligado a uma fonte feminina totalmente honesta! No caso, é uma mulher. O livro é muito gostoso de ler, mas ao mesmo tempo é um soco no estômago. Não que qualquer uma se identifique com a mãe de um sociopata mirim, mas o interessante da estória é justamente conciliar a terrível curiosidade sobre o histórico de um serial killer de quinze anos - que na verdade, está mais para um assassino instântaneo de colegas de classe, quase comuns nos EUA - e a identificação com os desalentos secretos da maternidade que a personagem principal descreve detalhadamente. Ela resolve ser totalmente honesta com seus sentimentos - e falta de sentimentos - em relação ao filho, numa busca por entender como contribuiu para o evento e a prisão do garoto. Admite que nunca amou a idéia de engravidar, pra começo de estória. Mas, não vou contar o resto, pra não desagradar quem pretende ler o livro. Também ainda não consegui terminar, e volto depois para dar minha opinião final.

O que me deu vontade de escrever tem mais à ver com a vida real, com o desespero, desamparo e tristeza que algumas mulheres passam em algum momento de suas vidas como mães. Sem lançar mão do termo técnico "depressão pós-parto" - que Lionel ironiza fantasticamente com a brilhante frase: "eu estava deprimida depois do nascimento de Kevin porque eu estava deprimida depois do nascimento de Kevin" - quero enfatizar que nem sempre com a gravidez vem a redenção, nem com o a convivência com o bebê, e fica mais difícil ainda quando não se pode ser honesta quanto a isso, porque é um tabu. Afinal, não é natural sentir amor pelo filho? Não é o instinto materno - que não existe no sexo masculino, diga-se de passagem - que faz todo sacrifício valer à pena? E aquelas que não concordam com isso, não são justamente as que se enquadram no tal diagnóstico?

Pensar nessas coisas me fez lembrar do meu primeiro trimestre de gravidez. Eu não estava feliz com a notícia. Eu não tinha nem idéia de como deveria me sentir - apesar de minha sogra dizer que ser mãe era a plenitude da mulher. Eu não queria me sentir plena com a maternidade. Eu queria a minha vida de volta! Eu chorava sozinha e procurava arduamente na internet relatos e testemunhos de mulheres que também se sentiam assim. Foi difícil, mas achei um blog português - que eu nem sei mais o nome e o link - que falava sobre essa tristeza na gravidez, e vários comentários anônimos contando seus sofrimentos. Tinha relato até de mulheres com seus bebês recém-nascidos. O fato é que muitas delas não estava sentindo aquilo que deveriam sentir! Criaram uma enorme expectativa... passaram pelo processo intenso do parto... mas aquilo não tinha acontecido! Ou sentiam-se culpadas, porque depois de tanto tentar não ficaram felizes com a notícia da gravidez. Ou, como eu, temiam as mudanças definitivas que ela traria.

Aquilo me fez muito bem - desculpe o egoísmo. Mas, gostei de ver a honestidade de outras mulheres, e perceber que eu não era uma aberração! Concluí que ser mãe é mesmo uma escolha, precisa ser uma escolha! Senão a gente sufoca as emoções contraditórias que surgem, e acaba submerso no meio delas, sem entender porquê passamos por isso ou aquilo. É melhor encarar a realidade, poder conversar honestamente sobre ela - inclusive com o companheiro, e aprender, no meio da dor, a como lidar com ela.

Uma vez até me surpreendi com a honestidade de uma mãe de gêmeos que conheci num dos passeios matinais, quando Laura tinha uns seis meses. Seus filhos estavam com sete, e ela disse que agora é que podia dizer que os amava, porque antes ela ainda não os conhecia! Acho que é assim, cada mulher com sua história e sua forma de descobrir o amor maternal. Eu não tive depressão pós-parto, e até o nascimento de Laura aprendi a lidar com meus descontentamentos sem ignorá-los - às vezes até anunciando-os aos quatro ventos - e amei e continuo amando muito essa profunda mudança em minha vida. Mas, sei que há muitas histórias diferentes, e gostaria de dizer a essas mulheres que ser verdadeira e procurar apoio nas pessoas amadas é muito melhor do que manter uma couraça de super-mãe que não corresponde ao interior. Acho que os filhos são mais felizes com mães de verdade!

5 comentários:

Gisa disse...

Concordo contigo viu !! e vou ver se leio este livro, parece muito bom.

E essa gatinha como está ? estive um tempinho fora, sabe com é, mãe, mulher, funcionária, estudante E querer ser blogueira não é fácil rsrsrsrs ... vou caminhando.

Gosto muito daqui, muito mesmo.
bjaao

Neto disse...

Não sou mãe, mas entendo. E sua frase final diz tudo.

Minha esposa teve uma depressão pós-parto também porque não queria ter o filho, estava muito confusa com esses sentimentos (ela conversou comigo posteriormente). Ela engravidou e aconteceu. Eu queria, ela não. Ela achava que não era o momento para ter filhos, eu achava que era. Como meu trabalho era viajando (passava alguns finais de semana em casa e a semana toda em outros lugares a trabalho), ela se sentiu um pouco só. talvez isto tenha agravado, pois revia o tempo todo a situação que se desenrola, mas por pensar em mim sentia-se feliz, por pensar nela ainda achava que não.

Incrível como eu não percebi, e como ela não se abria e não me falava nada. Depois de muito tempo (após a criança nascer) ela falou o que sentia, e foi acostumando-se. Encontrei um emprego em minha cidade na época e fiquei mais tempo ao lado dela, então tudo passou.

Concordo com você quando diz que filhos devem ser planejados e, no mínimo, quando os dois querem. È bem melhor assim.

Abraços carol!
Gostei da indicação do livro, assim que der vou procurá-lo para ler :-)

Tudo de bom pra você e sua menina!

Carolina Pombo disse...

Pois é queridos, ser mulher nesse mundo de múltiplas exigências não é fácil! Mas, contando com o apoio de nossos companheiros a gente consegue até se sair muito bem!

Sobre a escolha, eu acredito que mesmo que uma gravidez inesperada ocorra, é possível transformarmos a situação em uma escolha consciente. Sem entrar na polêmica do aborto, acho que o que precisa ser entendido por homens e mulheres é que ser mãe não é simplesmente natural e fácil! Viu?! Mas tb pode ser uma delícia!

Vanessa disse...

Carolina, eu tb não fiquei feliz com a notícia da minha gravidez pq nunca quis ter filhos. Sempre achei responsabilidade de mais colocar filhos neste mundo louco , e continuo achando. Tanto que pretendi ficar só neste a não ser que o destino me pregue outra peça. Não cheguei a rejeitar meu filho pq absorvo bem os impactos mas que passei o primeiro trimestre da gestação querendo minha vida dee volta , eu também passei . Ainda bem que o tempo cura tudo , ou quase tudo . Beijo

Melissa - Psicólogia e Sanitarista disse...

Não sou mãe e ainda não sei se quero ser. Na verdade, sempre tive a sensação de que digo "AINDA NÃO SEI" mais em função das caras e bocas que recebi quando disse que não queria ter filhos do que de fato em função a uma dúvida. Com isso, não preciso ter passado pela experiência de engravidar para entender pq alguém não se sentiria (pelo menos inicialmente) feliz com isso e não teria onde ou a quem recorrer em tal situação.
O "ser mãe é natural" ou o "toda mulher nasce para ser mãe (como se esse fosse o objetivo da vida)" ou qq coisa parecida é um discurso muito forte no Brasil. Espero que com o tempo consigamos mudar isso também. Voto para que possa ser uma escolha de cada um.