Nesta semana recebi um chamado, uma convocação de Deus, do além, das coincidências da vida, para falar de um assunto muito caro, para mim, que já me considero uma feminista. Explico-me: no domingo a noite, o motivo da discussão com meu marido foi o "machismo disfarçado" - do qual ele bem que tenta escapar, mas às vezes não consegue. Vejam só, entre as características que ele abomina entre nós, fêmeas, estão: "falar palavrão como os homens" e "brigar fisicamente", basicamente porque nós teríamos mais sensatez, seríamos mais controladas, teríamos o dom da maternidade - que eles não têm, e portanto são desculpáveis (Meu amor, estou dramatizando a situação, tá? Sei que você não pensa exatamente assim!). Eu passei a argumentar sobre as qualidades culturalmente impostas à nós, e ele passou a dizer que eu estava sendo parcial. Fiquei ofendida, mas depois me corrigi, afirmando que, em se tratando de machismo eu sou parcial sim - busco sempre desvendar os mitos que prendem as mulheres em esteótipos de fraqueza.
Então, ontem, minha irmã Júlia me convidou para participar de um grupo de estudos sobre a condição feminina na contemporaneidade, e eu que nem gosto de estudar e nem me interesso pelo assunto - imagina! - já estou dentro, né? E, finalmente, nessa cadeia de eventos feminísticos, hoje li o post do blog Desabafo de Mãe, que nos convoca a escrever sobre a guerra x partilha com o sexo masculino, na criação dos filhos.
Então, vamos por partes. Meu argumento para o Marcelo, no domingo, foi o seguinte: a figura da mãe, impregnada na nossa cultura, é de uma pureza inexistente. Se ser mulher significa ter o potencial para gerar e isso significa carregar em si um dom sublime, somos engarregadas de uma tarefa sobre-humana. E, se é assim e fomos "programadas biologicamente" para tal, então nossas reclamações de estafa, nossos ataques de fúria, nosso descontrole emocional são injustificáveis. Por isso, homens podem se divertir lutando vale-tudo, mas mulheres não podem extravasar a agressividade pela violência - mesmo no ringue. Então, é um absurdo que mães sejam tão primitivas e descontroladas e saiam por aí botando pra fora sua agressividade? Mas, gente, o que é mais necessário num trabalho de parto? Eu diria que parir é entrar em contato com nossa identidade mais primitiva, com uma força até então desconhecida ou negada. Temos medo de parecer descontroladas e isso aumenta o medo de passar pela intensidade do parto normal. Para fugir de uma cesária eletiva e oferecida - diga-se de passagem - é necessário resgatarmos nossa força de superação, física e emocional.
Durante a gravidez eu tentei convencer o meu marido de que ele nunca saberia o que eu estava passando. Que, por mais compreensivo e companheiro que ele fosse, não dava para comparar nossos "cansaços" e nossos medos. Não consegui convencê-lo de minha escolha por um parto domiciliar, porque eu achava que ele deveria participar dessa decisão. Mas, acho que hoje, tanto eu quanto ele, sabemos que seu papel naquele momento era me apoiar, estar preparado para as eventualidades, me ajudando a ter mais auto-confiança. O ambiente onde laura nasceria deveria ser escolha minha. Mas escolhi fazer o que ele preferia e o que o médico indicara - mea culpa!
Sobre os afazeres domésticos, consegui fazê-lo entender que o fato de eu estar em casa, porque eu trabalhava em casa, e porque eu diminuíra o ritmo - e ganhava então menos dinheiro - não significava que eu seria responsável por manter a ordem sozinha. Depois de algumas discussões e desabafos, ele compreendeu que as tarefas domésticas tinham que ser divididas. Aí, como uma boa mãe, resolvi deixar que ele escolhesse as tarefas que faria... Dei sorte de ele ter escolhido exatamente o que eu detestava: lavar pratos e levar o lixo. Tá, eu sei que há muito mais a se fazer dentro de casa, e eu assumi a responsabilidade de fazer o máximo, e de não me incomodar se ele se incomodasse com a bagunça que ainda sobra. Porque, o mundo de roupas que é lavado, passado e dobrado só aparece quando se acumula no cesto, mas os brinquedos e sapatos espalhos pela sala são frutos do ritmo acelerado da Laura, e não somem antes do papai chegar.
No dia dia é difícil demais conciliar os cuidados com ela, as tarefas domésticas e os afazeres profissionais - que ainda vou levando lentamente. Mas, Laura é a prioridade e aprendi a não me exigir tanto quanto ao resto. Isso tem me dado ainda mais inspiração e força para traçar uma carreira mais gratificante, como psicóloga, pesquisadora e escritora. Marcelo está se adaptando também. Sabe o que ajudou muito? Ele ter assumido a tarefa de acordar de madrugada junto comigo, desde o início, e agora dar o café da manhã para ela, sem mim. Ele sai do quarto, fecha a porta, para que eu durma o máximo possível, e vai dar toda atenção à Laura, enquanto lava os pratos e prepara o café da manhã. Foi com a prática que ele aprendeu a valorizar de verdade tudo o que faço o dia inteiro!
Infelizmente, muitos empregadores não acreditam que é possível conciliar a dedicação aos filhos com uma carreira sólida. Esta é uma questão importante da condição feminina hoje. Como conciliar nosso lado mamíferas com nossa identidade profissional? Será possível viver plenamente a experiência da maternidade e continuar sendo valorizada como trabalhadora? A sociedade precisa nos apoiar para encontrarmos bons caminhos - a começar por valorizar, na prática, todo trabalho da maternidade. Enquanto isso, vamos compartilhando sonhos, sentimentos e vivências entre nós mesmas e com nossos parceiros, buscando construir um ambiente melhor para sermos "família".
O Manifesto pelas Mães, promovido pelo Grupo Cria, captou com uma enorme sensibilidade nossos desafios, como mães e como famílias. É um manifesto pela valorização da maternidade, mas que precisa muito do apoio e da participação dos pais e das mulheres e homens que não têm filhos - que são também nossos representantes políticos e esbarram conosco nas calçadas esburacadas e nas portas giratórias da vida.
Então, sendo você homem ou mulher, dê uma lida e assine o manifesto!

2 comentários:
Olá,sigo seu blog já faz um tempo e me identifiquei com o manifesto!Já assinei e estou divulgando no meu blog também!bom final de semana!
Carolina,
estou...sem palavras!!! Tão bom ver um depoimento assim na blogosfera materna, cheio de riqueza, de partilha, de aprendizado e sabedoria. ainda não tive tempod e bisbilhotar os links, mas prometo fazer isso numa próxima. obrigada, obrigada e obrigada por aceitar entrar nessa roda de conversa e trazer essas nuances tão importantes para nossa luta. É com relatos como esse que o manifesto vai ganhando vida e sim vamos chegar ás ruas para gritar e com as nossas pequenas conquistas dentro de casa acho sim que devemos começar a mudar o mundo bem devagarinho para nossos filhos e conto contigo pra isso.
bjkas e prazer imenso em conhecê-la!
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