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domingo, 18 de julho de 2010

Mary & Max: sobre saúde mental, infância e amizade

Hoje vi o filme Mary & Max: uma amizade diferente (em inglês, One amazing friendship). E o filme é tudo isso: diferente e maravilhoso. Nunca vi uma animação retratar a realidade de forma tão sincera e comovente! Sobre o campo da saúde mental e das peculiaridades do sofrimento humano, há alguns desenhos animados que se aproximam, como o Snoopy, "A Noiva Cadáver", "Coraline", etc, que já me fizeram rir e chorar. Quem não se comove com a melancolia do Charlie Brown, rindo, entretanto, das tentativas dos colegas em animá-lo? Lembram da barraquinha de consultas psiquiátricas da Lucy?


Eu sempre tive uma atração por filmes que aproximam a infância a temas difíceis, como a depressão. Porque para alguém conseguir tocar o público e mantê-lo interessado, falando de algo tão complicado, o trabalho final tem que ser original. Não adianta simplesmente colocar lágrimas em meio às cores do desenho. É preciso saber transmitir a atmosfera da vida do personagem, fazer de seus conflitos o foco da animação, sem impedir que mesmo assim tenhamos um momento de excelente entretenimento. Para falar de saúde mental numa animação é preciso lembrar dos diversos elementos que estão conectados a ela, na vida real. É preciso fazer-nos refletir sobre as condições de nossa sociedade, sobre as dificuldades que herdamos de nossas famílias, e a importância dos amigos. Assim, o roteiro se torna dinâmico e rico, com diálogos perspicazes - como numa sessão de psicoterapia, em que uma pequena fala do terapeuta nos leva a um insight determinante!

Essa é minha sensação depois de assistir Mary & Max, no Festival Animamundi 2010, de ter sido delicadamente confrontada com minhas próprias concepções sobre o Outro, em especial, a criança. Afinal, nem sempre infância significa despreocupação, muitas vezes ela é marcada por uma seriedade pesada. Crianças também sofrem, também pensam sobre suas dores e buscam, com suas ferramentas, lidar com a angústia. O personagem de Mary me comoveu profundamente com sua solidão, mas também com sua força. Ela lembrou-me de outra menina, de um livro que comprei ontem, a Nina, de "Nina e a felicidade". Vou contar pra vocês uma coisa bem pessoal: nesta semana, quando um problema familiar me entristecia muito, sonhei que um livro infantil me fazia reviver momentos de uma alegria pueril e me dava mais tranquilidade para lidar com o que me entristecia. Aí, comprando um presente para minha filha e uma coleguinha sua que faz aniversário, numa livraria, meu marido me mostrou esse livro, comentando como era estranho uma história assim para crianças. Li algumas páginas, e resolvi comprá-lo, realizando o sonho da noite anterior. O livro ilustra, em quadrinhos, as reflexões de Nina sobre a vida, a dificuldade em sentir-se satisfeita, a tristeza que parece estar sempre à espreita.

Se nossas vidas, de adultos bem vividos, cheios de experiências e com o mínimo de maturidade emocional, é cheia de conflitos internos, imagina a de uma pequena menina - para a qual a aprovação dos colegas na escola é o veredito sobre sua auto-estima! Por isso, amei o filme, o livro e continuo aconselhando que pais e filhos entrem em contato com o mundo lúdico da tristeza, e possam aproveitar todo o potencial que essas obras originais têm a nos oferecer. O sofrimento é uma realidade para todos nós, às vezes ele chega no limite e leva à doença mental, mas é menos provável que isso aconteça quando somos capazes de encarar a vida e suas contradições, sem mascará-la, sem iludir nossos filhos de que ser feliz é nunca estar triste.

Já ia esquecendo! Para quem se interessou, veja no youtube o trailer do filme!

1 comentários:

ELA disse...

Olá, Carolina.

Li um comentário seu num blogue de mães outro dia e identifiquei-me bastante com seus questionamentos. Li um bocado por aqui, são boas reflexões as suas.
Esse mundo da maternidade é complexo, cheio de incongruências e com muita demanda de "receitas para a maternidade". É preciso encontrar muitos "eus" para não se desvencilhar do que realmente somos quando diante de tudo que a sociedade propõe a nós.

Um abraço,

Michelle Siqueira.