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Aqui, a voz é quase sempre de Carolina Pombo - mãe, escritora, psicóloga e empreendedora "verde". Alguém que adora perguntas, ama debates, e abre o coração sem medo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Eu quero uma creche parental!

Depois de ler o artigo de Daniel Kahneman e colegas, indicado pela reportagem Why parents hate parenting, afirmando que as mulheres francesas têm mais prazer em ficar com os filhos do que as americanas, passei a pesquisar sobre as creches na França. Será que lá existe algo inovador? Será que as creches lá são todas gratuitas e bem estruturadas? Será que por isso as mães podem desfrutar com mais prazer dos momentos com as crianças?

Depois de conhecer alguns sites interessantes e ler alguns artigos, comecei a levar a sério essa curiosidade. É ela que está me fazendo repensar o projeto de pesquisa para o doutorado. E mais, ela está me fazendo desnaturalizar idéias bem à la brasileira do que é uma creche. Descobri que, no universo multi-colorido da educação infantil francesa existem as creches parentais, que não são interamente gratuitas mas bem mais acessíveis e financiadas por diferentes parceiros (além do Governo). Elas surgiram na década de 1970, após a Revolução de 1968, pela iniciativa de pais e mães que não encontravam vagas nas escolas infantis da época e questionavam sua qualidade. Então, os criadores da creche parental se uniram em uma associação de pais, com os seguintes objetivos:


  • Organizar um modo de acolhimento coletivo em pequenas unidades (média de 16 crianças), nas quais os pais e mães assumissem um papel presente, junto aos filhos, com um complemento salarial permanente.
  • Favorecer uma transição tranquila e adaptada entre o meio familiar e o espaço coletivo.
  • Equilibrar melhor a divisão de papéis entre homens e mulheres no lugar de acolhimento e na família.
  • Refletir de forma regular sobre a educação e cuidados necessários ao bom desenvolvimento das crianças pequenas.
  • Promover um lugar de entrada e convívio, favorecendo a responsabilidade dos adultos junto as crianças.
  • Desempenhar um papel de cidadão ativo, propondo soluções funcionais e satisfatórias no domínio do acolhimento das crianças pequenas.

Ou seja, as creches parentais são gestadas pelos pais e mães. Eles também desempenham papel de educadores, de acordo com o regulamento acordado e aprovado por um médico especialista na saúde da criança e da mãe, e construido junto com pelo menos um profissional de educação. As creches são pequenas, e defendem o número máximo de 5 crianças (de até 3 anos) por adultos, enfatizando que o ideal é de apenas 3. Ela enfoca a participação das famílias, e por isso, os profissionais trabalham em total sintonia com suas demandas.  Apesar de ter crescido enormemente nas primeiras décadas de funcionamento, as creches parentais têm diminuído o número de ofertas de vagas, desde 2003, em função principalmente das políticas educacionais adotadas pelo governo Sarkozi. A ACEPP é a associação de todas as iniciativas parentais, e tem um site muito interessante que aborda o assunto. Vale a pena acessar, se você lê em francês.

Pensando nisso, fico irritada com a delicada relação que nós, mulheres brasileiras, temos com as escolas e creches de nossos filhos. É comum ver mães que se envergonham de perguntar, criticar ou fazer sugestões às professoras/es e diretoras/es. E não é comum ver profissionais de educação abertos para dialogar e aprender com os pais. Você sabia que a Referência Curricular Nacional para Educação Infantil recomenda que as famílias tenham acesso a todas as informações importantes sobre a estadia da criança na creche? Deveríamos conhecer os currículos dos profissionais, a carga horária de trabalho de cada um, o cardápio, as atividades diárias, enfim. Geralmente, podemos facilmente saber o cardápio do dia, mas nem ousamos perguntar quantas horas aquela professora está trabalhando, correndo atrás das crianças, subindo e descendo escadas, etc. (Uma vez perguntei e fiquei desesperada com a resposta: a professora estava trabalhando mais de 10 horas por dia! E ela também é mãe!).

Hoje, resolvi questionar quantas crianças estão matriculadas na turma de minha filha, no berçário II, porque percebi que havia duas novas. Nesses últimos dois meses a turma cresceu de 12 para 15 crianças! Isso dá uma média de 7 crianças por adulto. A diretora argumentou que, por lei, ela pode colocar 20 crianças na mesma turma, ao que respondi que se isso acontecer, Laura sairá da creche. Tenho certeza que várias mães, que trabalham integralmente, e deixam os filhos pequenos por mais de 6 horas diárias lá, não tem noção de como está a turma e também não se habilitam a perguntar e questionar essa situação. Afinal, se o que impera é a lógica do mercado, então nós, como consumidoras, não deveríamos pagar o mesmo preço para ter um serviço que vai piorando ao longo do tempo! Certo?

Eu não sei como é na prática o funcionamento das creches parentais francesas. Mas, fico pensando que seria muito legal fazer parte de uma associação de pais que tomam as rédeas da educação de seus filhos e não têm medo de encarar os modelos tradicionais. E você?

 *Leitura recomendada: 

- Daniel Kahneman e colgs. Time Use and Subjective Well-Being in France and the U.S. In Soc Indic Res (2009) 93:7–18.
- Les crèches parentalles In : http://w3.cerises.univ-tlse2.fr/dossiers/dossiers.php?id_dossier=2602&idparent=2561
-Les differents modes de accueil des enfants In: http://www.acepp.asso.fr/?Les-differents-mode-d-accueil-des
 

4 comentários:

Tais Vinha disse...

Carolina, que texto bom! Desconhecia as creches francesas, mas acho que aqui no Brasil seriam o equivalente às cooperativas educacionais, geridas pelos pais. Tem o CEC em Campinas, que parece ser uma escola muito boa (e cara). Vc tem razão quando cita que muitos pais se inibem ao questionar a escola. E com os educadores sempre na defensiva, acaba-se criando uma distância que só prejudica.

Ultimamente começo a pensar que o melhor modelo é o tribal. As criancas são educadas por toda a aldeia. E aprendem naturalmente, enquanto brincam. Sempre em contato com idosos, mulheres, homens e crianças de idades diferentes. Somos todos parte do processo.

Quero virar índia! Bjs

ana isabel disse...

OI Carol

O Zezé frequenta a creche desde os 4 meses.
Na verdade, o meu sonho de consumo (para crianças até 3 anos) seria o modelo de Portugal, com as "amas" domiciliares, ou seja, babas que cuidam de crianças em suas casas (no máximo tres crianças). Elas são registradas junto ao governo.
Mas esse modelo não existe no Brasil e acho dificil de ser implementado.
A primeira creche do Zezé, eu escolhi a dedo. Era uma creche pequena, e por isso tinhamos mais proximidade com a diretora. Eram 4 bebes (até 2 anos) e depois entraram mais 2 para duas professoras.
Na creche atual, há um conselho de pais, mas eu sinto que eles se sentem um pouco tolhidos, afinal quem sabe pedagogia são as professoras..
Quanto a legislação, existe um máximo de crianças por educadora, acho que é 5, mas não consegui achar a legislação
Eu poderia falar mais sobre isso...
Um abraço

Ana Isabel

ana isabel disse...

Complementando Consegui achar
No Rio Grande do Sul é no máximo 6 alunos por educador (não necessariamente professor) e turma de 18 alunos

Carolina Pombo disse...

Oi Taís! Você tem razão, o modelo tribal é simples e eficiente! rsrs Vou procurar saber se aqui no Rio há alguma cooperativa de pais... e se na prática ela funciona bem. Obrigada pela contribuição!

Ana Isabel, obrigada pela dica! Lá na França também existem esse serviço de babás que atendem até 3 crianças em casa. Ele também é regulado e supervisionado pelo governo e pelas creches coletivas. Parece que ultimamente, o governo tem investido mais nesse tipo de acolhimento. Mas, muitas pessoas questionam isso, porque impede que as crianças ocupem os espaços coletivos e não incentiva que os pais e mães participem mais ativamente de sua educação. Também já ouvi falar que as babás são super exigentes e elas é que escolhem as crianças que vão cuidar... ou seja, a lógica é invertida!

Sobre a legislação, gostaria muito de saber se esse é o limite no Rio também. Obrigada pela informação!

Beijos