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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mamãe, eu quero ser dona de casa!

As crianças começam a responder a famosa pergunta sobre o querem ser quando crescer muito cedo. Outro dia ouvi o caso da menina de cinco anos que quer ser dona de casa, contrariando a mãe - que trabalha o dia inteiro numa grande empresa. Lembrei do meu marido brincando com meus brios, questionando qual seria minha atitude caso a Laura desejasse ser uma dona de casa conformada. Eu ficaria triste, certamente. Talvez tivesse com ela uma conversa séria, no tom da que minha mãe teve comigo quando decidi fazer psicologia:

- Minha filha, você tem certeza de que quer fazer psicologia? Não é melhor fazer um concurso público? (Ou seja: minha filha, psicologia não dá trabalho, não dá dinheiro, você quer mesmo sofrer desse jeito?).

Eu escolhi uma profissão tipicamente feminina, que é sim mal remunerada e que ainda é pouco valorizada no Brasil. Mas, eu fui insistente e no mestrado, para reforçar ainda mais meu padrão, fiz Saúde Pública, estudei Política Social e encasquetei com um tema espinhoso: Cidadania. Eu brinco com uma amiga que fez praticamente a mesma formação que eu, dizendo que nós escolhemos ser pobres! Mas, a verdade é que nós temos esperança de mudar alguma coisa nessa sociedade imediatista, que ainda não abraçou a idéia de que o bem estar social e subjetivo das pessoas gera benefícios para todos - vide as sociedades com Estados de Bem-estar Social européias. Ok... crises aparecem, desafios enormes se colocam e grita-se: Um outro mundo é possível! nos Fóruns Sociais. Mas, ainda não se sabe concretamente que ideal de mundo sustentar. Mesmo nas sociedades onde se preza pelo bem-estar, as políticas estão tomando rumos diferentes, as pessoas estão confusas  e elegem governantes conservadores para depois esbravejarem contra os cortes nos investimentos públicos.

Mas, isso aqui não é palanque e eu vou mudar o rumo da conversa. A questão é que a perspicácia da menina que quer ser dona de casa me surpreendeu! Ora, a mãe dela provavelmente não pára em casa, vive estressada com as demandas do trabalho, esforçando-se para não ser ausente, e passa uma imagem atribulada do que é ser uma mãe que trabalha fora. Imagino que ela tenha satisfação pessoal por ter construído uma carreira, por não ter aberto mão de seus sonhos profissionais por causa da maternidade, mas como ela não deve se sentir ao escutar a filha afirmar que quer fazer o oposto? Isso me faz pensar na terrível luta que nós, mulheres, temos que travar para conciliar vida pessoal, profissional e maternidade. E aí, eu li na entrevista citada no post sobre a Avaliação das Creches no Brasil, que estamos avançando com uma política de Educação Infantil que não coloca mais as creches como serviços "sociais" que permitem à mulher trabalhar, mas como dispositivos de Educação para as crianças - e isso é bom.
E agora eu me pergunto: será que é um avanço ignorar a função primordial das creches e de todos esses dispositivos que se direcionam à saúde dos bebês? Será que não é hipocrisia dizer que a função principal desses serviços é de promover o desenvolvimento dos filhos? Porque o fato é que as creches, as babás, os parquinhos, as brinquedotecas, os fraldários nos shoppings e restaurantes, etc. são importantíssimos para garantir o bem-estar materno! Eles fornecem a segurança e a tranquilidade necessárias para se voltar a trabalhar, se ausentar de casa e voltar a tocar os projetos pessoais, para se ter momentos de lazer sem transtornos rotineiros, para fazer do passeio matinal com o bebê um momento de prazer e não de sufoco, protegendo-o da sujeira, dos carros, do ambiente inadequado. Infelizmente, como nossas instituições são mal preparadas, a gente sofre para achar alternativas.

Então, é claro que a saúde de nossos/as filhos/as é nosso foco. Mas, até que ponto ele não é usado para impedir a visão sobre nossas próprias necessidades? Eu não quero que minha filha me veja tão estressada a ponto de querer ser meu oposto! E já estou aqui pensando: por que ela iria querer ser psicóloga e pesquisadora, ter que trabalhar e estudar uns dez anos antes de obter algum retorno justo?  E eu tenho esperança: talvez aos cinco anos ela dirá que quer ser modelo, mas aos quinze já vai poder entender que minhas escolhas profissionais contribuiram para diminuir a desigualdade e melhorar a qualidade de vida das mulheres (pelo menos espero que a vocês, minhas leitoras, eu esteja ajudando um pouquinho...). 

Pense nisso e participe da nova enquete do blog! Com ela pretendo saber  de você, mãe, qual é sua experiência subjetiva em relação a creche ou pré-escola de seu filho. Você está feliz com a escolha que fez? Ainda sente-se insegura? Vive dividida? Está satisfeita? Por favor, vote em apenas uma opção e aproveite para comentar o que pensa aqui!

6 comentários:

Paloma, a mãe disse...

Oi, Carol, já votei. Adoro seu blog e passo sempre aqui. Tenho comentado pouco porque fica difícil elaborar refçlexões com um bebê nos braços (quando sobra um tempinho, eu tô blogando). E já coloquei o link do post sobre amamentação no site do Grupo Cria, obrigada pela dica!
Beijos

Mari Moscou disse...

Carol,
lembrei do teu trabalho por conta de uma matéria da qual participei para uma revista direcionada a "pais e mães da nova geração"... Justamente sobre escolher a escola de educação infantil! :) Quando sair eu aviso certinho, divulgo o nome da revista e tal.

Enquanto isso, gostaria de fazer uma pequena crítica: quando vc diz que a "função primordial" da creche é um lugar para que mães e pais deixem seus filhos ao irem trabalhar, eu concordo. Mas isto não deve ser confundido com "escola de educação infantil", uma invenção que veio depois, acompanhando a filosofia da educação que começou a entender a infância como um período bem epecífico da vida e cheio de necessidades "especiais".

Enquanto o objetivo primeiro da creche é cuidar das crianças enquanto os pais e mães trabalham, as escolas de educação infantil geralmente são escolhidas por outros motivos. Além do que, existe uma difereça bem grande em relação aos grupos sociais que buscam cada tipo de instituição. ;)

Carolina Pombo disse...

Oi Paloma! Adoro suas visitas e comentários! Fico admirada por sua capacidade de blogar enquanto amamenta a Clarice! Parabéns! Bjs

Oi Mari, eu li sobre isso na reportagem que linkei, mas a Política de Educação Infantil atual coloca tanto a creche quanto as pré-escolas no mesmo "saco". Apesar de ter sido constituida como serviço social para as mães, as creches hoje são parte do curriculo da Edcucação Básica. Olha essa citação do Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil: "Ele representa um avanço na educação infantil ao buscar soluções educativas para a superação, de um lado, da tradição assistencialista das creches e, de outro, da marca da antecipação da escolaridade das pré-escolas."

Ou seja, há um avanço sim, porque a idéia é adaptar melhor as creches para o desenvolvimento dos bebês, mas por outro lado, desconsidera-se a participação mais ativa dos pais na criação e funcionamento dessas instituições.

Coloquei o RCN no Google Docs para facilitar a quem quiser ler.
https://docs.google.com/fileview?id=0BwULheT2Nj38MDQ5NzEzYTYtN2UyYy00Nzk3LWE3OWQtNDczODMxNzk5MTFh&hl=pt_BR

Natalia disse...

Carol, eu não votei porque ainda não usufruo (ou melhor, meu filho! Quem, afinal?) de nenhuma das opções. Talvez escolhesse a última, mas o fato é que o Benjamin ainda está com 4 meses, eu pedi demissão de um dos meus trabalhos porque a licença é ridiculamente curta e o outro é bem próximo à minha casa (sou psiquiatra e uma das minhas atividades é atender em consultório). Em breve começarei a trabalhar em outro lugar – onde me permitiram começar só depois que acabasse a amamentação exclusiva. Além disso, minha sogra não é daqui e está ficando na minha casa por alguns meses pra ajudar (com lógicos ônus e bônus dessa situação). É por tudo isso que até agora não precisei de babá nem creche. Enquanto atendo, minha sogra (ou algum outro parente) fica com meu filho, e consigo organizar os horários de acordo com as mamadas. Eu me sinto extremamente privilegiada de poder direcionar as coisas dessa forma porque pra mim é divino o tempo que consigo estar com Benjamin e por ele estar com gente da família. Mas está chegando o momento que esse tempo será menor; eu voltarei a trabalhar mais, minha sogra vai embora e eu provavelmente precisarei de uma babá. Por enquanto, vemos nessa a melhor opção, longe de ser ideal. Meu marido é cubano, e lá a licença maternidade é de um ano, prorrogável para dois, este segundo sem remuneração. E as creches são bem diferentes... Mas voltando pra esse chão que a gente pisa, já pensei muito sobre isso que você coloca, de todos esses “serviços” serem é para a mãe... Eu mesma já oscilei, desde o nascimento do Benjamin, entre carrega-lo pra todo canto e me reger mais pelo ritmo dele, abrindo mão de algumas coisas. Em cada momento, um dos jeitos é o melhor, sem que isso não seja definitivo nunca... mas como é difícil fazer essa escolha (e tantas outras) a cada vez... Acho que acabamos sendo equilibristas ao virarmos mães, tentando inventar nossa corda pra andar em cima no correr do dia a dia...
Aproveito pra dizer que estou gostando muito do seu blog, eu, recém-adentrada no mundo bloguístico...
Beijos
Natalia

Carolina Pombo disse...

Natalia, você resumiu nossa situação quando nos chama de "equilibristas"! Contar com a família é sempre muito bom! Eu estou abrindo mão da creche para contar mais um pouco com minha mãe... Enquanto isso, me preparo para escolher uma escolinha melhor quando Laura tiver seus dois aninhos. Adorei saber que em Cuba a licença é assim! Vou pesquisar mais sobre isso!

Grande beijo

Mariana disse...

Well, seguir uma carreira muitas vezes não é opção e sim necessidade! Após anos trabalhando, se hoje eu pudesse escolher, seria dona de casa. Nem que fosse por um ano ou 2.
Desta forma não soube o que responder na enquete!
Beijo no coração, Mariana do Diario da Mariana