Este texto foi escrito especialmente para o concurso de blogueirAs do blog Escreva Lola Escreva. A proposta da Lola é que a gente pense sobre a origem de nosso feminismo, escreva sobre isso e mande o texto para o concurso, para trocarmos nossas histórias e povoarmos a blogosfera feminina - que tem muita coisa de qualidade, por sinal! Eu pensei bastante até me lembrar de que só fui assumir mesmo meu feminismo depois de me tornar mãe. Sabe aquele mito, muito propagado, de que a mulher só se sente plena depois de ter um filho? Contrariando minhas próprias expectativas, foi mais ou menos isso que aconteceu comigo, e vou explicar já - antes que minhas colegas feministas desistam deste texto!
Acontece que, aos vinte e cinco anos, vivendo há um ano financeiramente independente de meu pai, depois de fazer minha primeira viagem ao exterior bancada inteiramente por mim, depois me ver abandonada por uma orientadora no mestrado e correr em busca de outra, depois de me sentir emocionalmente livre para escolher o homem com quem eu queria namorar, transar, e compartilhar meus sonhos, com toda a liberdade e autonomia que eu vinha conquistando, me vi grávida!
*Imagem: Escapism, Julia Pombo, 2009
A idéia de ser mãe me colocou diante de um dilema inédito: 1) assumir a responsabilidade pela vida de outra pessoa e assim continuar nesse incrível processo de amadurecimento em que já estava, 2) abortar e continuar a traçar meu caminho como se nada tivesse acontecido (gastando uma enorme energia para superar o trauma), 3) ou paralisar e deixar que a maternidade se apossasse de mim, sorrateiramente, sob as expectativas alheias.
Eu escolhi a opção número um. E quando descobri que esperava por uma menina, meu feminismo passou a orientar boa parte de minhas escolhas. Pra começar, tive que revirar uma história pessoal e familiar de opressão, machismo e violência silenciosa. Um trauma que eu havia soterrado sob as demandas do dia-dia de mulher independente, mas que nunca havia de fato sumido de minha memória. Tive que encarar os abusos de meu pai, que não haviam ficado só no passado, mas se perpetuavam numa relação ambivalente e autoritária que ele sustentava como a um troféu. Pensar que minha filha poderia sofrer o que eu sofri, me deu forças para abraçar meu feminismo e ir à luta contra meu opressor. Foi difícil desmascará-lo, especialmente para mim, que precisava tanto de uma referência de pai para doá-la a minha filha. Mas, o companheiro que eu escolhi se mostrou a cada dia um pai amoroso e verdadeiro - a referência que nós precisávamos.
Foi ele quem mais me desafiou a assumir de vez meu feminismo, apesar de nunca ter tido essa intenção. Em nossos debates acalorados, sobre a criação de filhos, a sociedade capitalista, a depressão, a vida, eu era volta e meia acusada de "parcialidade" por sair em defesa das mulheres. A nossa sociedade é escandalosamente mais difícil para uma mulher se desenvolver e ser feliz - e isso foi ficando cada vez mais evidente enquanto eu tentava lidar com meu trauma e me preparar para ser mãe de uma menina. Ele estava certo - eu estava sim sendo parcial, muitas vezes, em que tentava compensar as injustiças com que tantas mulheres se acostumam.
E aí, volto para a história da plenitude. Não foi exatamente a identidade materna que me fez sentir plena, foi a tarefa de assumir essa responsabilidade. Eu poderia simplesmente ter seguido o curso da vida, deixado a Laura nascer, engolindo as intervenções médicas desnecessárias, me submetendo aos desejos das avós, vestindo sem perceber uma couraça de mãe sem senso crítico, altamente consumidora das últimas novidades da maternidade profissional e tecnológica. Provavelmente, teria sido uma mãe expectadora e não protagonista de minha história.
Mas, eu encarei a violência de gênero, eu questionei a desigualdade nas tarefas domésticas, eu lutei contra o sistema de cesarianas em série e o mercado do parto humanizado. Eu fui protagonista do meu parto, do meu processo de amamentação, da pausa e do retorno à carreira profissional. Eu conheci outras mulheres lutadoras, que defendem a maternidade consciente sem ignorar a saúde da mãe. E o maior lucro que tirei de tudo isso foi, na verdade, o desconto do peso incalculável da mão violenta de meu pai, me tornando mais mulher do que nunca e mais poderosa do que eu poderia imaginar! Assumir o meu feminismo me fez plena, sem exigir que Laura seja a fonte de minha plenitude, deixando-a livre, portanto, para ser uma mulher mais feliz.

18 comentários:
Estou lendo os links que deixaram no blog da Lola. Muito legal o seu post! Ótimo ler textos de mulheres que se sentem plenas, que são feministas, conciliam filhos, casamento e carreira profissional (como os homens machistas sempre fizeram, mas muitos querendo nos fazer acreditar agora que pra mulheres isso não é possível, quando a gente sabe que não é verdade).
Bjus pra vc e pra sua filha, minha xará, rs, apesar que o meu é só um pseudônimo do blog mesmo.
Oi Carolina,
Fiquei sem palavras com seu texto. Acho que não encontrei meu feminismo e deve ser isso a causa de tantos dilemas.
Um abraço
Cynthia
Obrigada Laurinha! Eu acho que não é fácil conciliar tudo isso, mas se a gente souber passar a bola para os homens também, e responsabilizar nossos companheiros pelas coisas que eles sempre se acharam livres de fazer, a gente consegue. Tem que saber escolher também quem é que vai te acompanhar nessa estrada, porque não é comum um homem aceitar dividir igualmente o cuidado com os filhos e com a casa, aceitar que a mulher tem um tempo próprio para se construir como mãe sem desistir da carreira... enfim, é difícil mas muito mais prazeroso do que seguir a boiada... rsrs
Beijos e obrigada pela visita!
Oi Cyntia! Ainda é tempo de achar seu feminismo, viu?!
Beijão e obrigada pela visita!
Carol, às vezes é preciso uma porrada para nos dar a plenitude e colocar a prova o que antes ficava só na teoria(e coloco o "feminismo" nessa categoria, porque é muito mais simples se dizer feminista antes de sair de casa, de ter um parceiro e, imagino, de ser mãe). Para mim, a dissolução do meu primeiro casamento teve esse impacto. Com você, esse crescimento veio num "pacote" muito mais belo e enriquecedor, apesar dos traumas do passado. Parabéns pela honestidade e profundidade desse post e do blog de maneira geral, que enriquece a vida de todos os leitores. E parabéns também por escolher o caminho da consciência e da evolução, e não de se contentar em fazer o que manda a tradição ou o status quo. Pode-se dizer que você escolheu viver "comme il faut" e não por "default" (hehe, adoro trocadilhos!). Um beijo, Clarissa
Estou feliz, se essa é a palavra de ler relatos como o seu. Escrevi tambem em função da "provocação" da Lola e foi bem difícil lembrar que a origem de meu feminismo está em experiências familiares. Ler seu post me fez mais feliz em ter "confessado".
Abraços
http://wonderwoman-bra.blogspot.com/2010/08/origem-do-meu-feminismo.html
Mais uma que chegou pelo blog da Lola. Achei o seu texto muito lindo, como é bom ver tantas mulheres se unindo dessa forma!
que lindo este texto! espero poder viver algo semelhante um dia. você parece um ser humano, uma mulher e uma mãe incrível.
beijo!
Carolina,
cheguei aqui via concurso da Lola e gostei muito de seu texto. Ser mãe é uma oportunidade incrível para refletirmos sobre nossos posicionamentos na vida, ô, se é! Serve para o feminismo, para nossa relação com o meio ambiente, com a política, com tudo. O mundo deixa de ser só nosso, né? E aí é preciso pensar e repensar muita coisa.
Gostei daqui, vou voltar. Beijos
Rita
Nossa, carolina! fiquei emocionada com que você escreveu, especialmente com o último parágrafo!
Parabéns pelo texto, pelas escolhas e pelo blog.
Um beijão pra vc e pra sua pequena!
Gente boa, eu que fico profundamente emocionada com tantos comentários de apoio e elogios! Obrigada pela leitura, pela participação e pelo retorno!
Beijos
Texto lindissimo Carolina, adorei...Ganhou o meu voto sem sombra de duvida :-)
Boa sorte no concurso...
Beijos de Londres
Fernanda
www.ogritodefernanda.blogspot.com
Nossa, olha o nível da minha "concorrente" hahaha. Muito alto, não vou conseguir! :P
Falando sério: belíssimo post, belíssimo blog, belíssima história! E sorte a da sua filha, por ter uma mãe com essa cabeça para crescer em liberdade. Não quero ter filhos, mas se um dia os tiver, quero ser assim!
Você tem a minha admiração (isso de estar consolidando a própria vida, de estar grávida - eu nunca me veria grávida). E você tem um jeito de escrever muito legal, eu curti! Boa sorte no concurso.
Também parei aqui pelo concurso da Lola.
E também estou participando...
Achei seu post lindissimo!Muito bom mesmo...
O mais legal do concurso é ler o que outras blogueiras escrevem, e poder mostrar um pouco do que eu penso!
Nossa! Que poste, ein Carolina?! Muito bom mesmo. Aliás, excelente!
Voltarei sempre, viu?! Beijo
Lindo seu texto!! Muito bom mesmo!
Excelente história, Carolina! Muito bom escutar que ser mãe em vez de te levar a um papel passivo de "mulher que cumpriu sua função social" te levou a ser mais ativa. Parabéns pelo texto! :)
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