Uma reportagem divulgada ontem mostra superficialmente os resultados de uma pesquisa chinesa que conclui que crianças nascidas de cesarianas opcionais têm menor propensão a problemas como timidez, ansiedade, depressão, dificuldade de concentração e comportamento delinquente e agressivo. A explicação dada pelos pesquisadores é a associação a níveis mais baixos de cortisol que os encontrados em crianças nascidas em partos normais com o uso de fórceps e vácuo extrator. Vale lembrar que o uso desses intrumentos é desaprovado pela Organização Mundial da Saúde, assim como o uso de cesariana eletiva.
O cortisol é um hormônio que tem sido relacionado a problemas mentais, como depressão e ansiedade, como neste artigo do Jornal Americano de Psiquiatria. Mas, é muito difícil afirmar que, isoladamente, o hormônio seja um fator de risco para esses transtornos, já que normalmente fatores sociais, históricos e contextuais contribuem juntos para o adoecimento mental.
Ainda que se possa afirmar que o cortisol é um hormônio do estresse, não há nada de muito original em dizer que bebês nascidos através de trabalho de parto apresentam nível mais alto dele no sangue. Afinal, os mecanismos biológicos produzidos pelas situações de estresse são benéficos até certo ponto. Como meu professor de fisiologia na faculdade costumava dizer, se eles não existissem, não saberíamos nos defender dos perigos e seríamos extintos! Portanto, é quase óbvio afirmar que o bebê retirado do útero sem passar pelo trabalho de parto, às vezes até adormecido, não apresentará o mesmo estado de alerta e defesa que um bebê, que precisa "se esforçar" para nascer.
Por outro lado, partos submetidos a intervenções agressivas como o uso do fórceps, podem gerar no bebê um estresse bem mais prolongado e um estado de alerta mais intenso. Além disso, é de se pressupor que o estado da mãe após seu nascimento não será dos mais felizes, se ela estiver profundamente fatigada e sentindo-se "invadida". Um parto difícil é então resultado de uma série de ocorrências, que podem ser prevenidas se a mulher for previamente orientada sobre os processos naturais de seu corpo, e se tiver liberdade de movimentos e espaço suficiente para concentrar-se em suas próprias necessidades durante o trabalho de parto. A cadeia excessiva de internvenções médicas nesse trabalho geram um ciclo vicioso de insucessos e inverdades.
Finalmente, é preciso olhar com cautela para essas reportagens que não abordam os detalhes metodológicos das pesquisas citadas, e que fazem comparações sensacionalistas. De que maneira foram definidos "comportamentos agressivos"? O que foi utilizado para medir essas variáveis? Fica difícil compreender como eles fizeram a associação entre elas e os partos. Enfim, é importante tomar cuidado com afirmações categóricas como essas.
8 comentários:
Outra coisa que fiquei pensando é na influência das variáveis socio-econômicas na saúde mental e no tipo de parto. Se cesarianas eletivas são mais comuns entre os mais ricos, então, o acesso a melhor educação, estímulos, e bens de consumo nessa classe também podem influenciar na melhor condição mental.
Conheco casos de partos com forceps e vacuo. Em abos, as mulheres sofreram muito na recuperacao.Nao tenho filhos, mas isso ja esta bem claro pra mim: nao quero sofrer desnecessariamente na hora do parto.
Fica até parecendo que parto normal = fórceps e vácuo x cesárea.
Aff! Melhor indicar umas leituras sobre recomendações da OMS sobre parto, porque faria mais sentido, nessa linha de comparação, com o parto recomendado.
Quando será que cesárea, forceps, vácuo extrator e demais intervenções serão vistas como exceções e regras?
Parto não é sinônimo de sofrimento, é sinônimo de alegria, de vida, de esplendor!!!
Olá.
Hoje venho aqui para te convidar para participar do amigo oculto do Mix.
Passa lá:
http://www.mixculturainformacaoearte.com/2010/11/amigo-oculto-de-livros-segundo-ano.html
Te espero!
Le, obrigada por comentar! O sofrimento desnecessário no parto é consequência de fatores evitáveis. Se você estiver grávida, busque se preparar para um processo natural do trabalho de parto, aqui no blog há alguns artigos sobre o assunto. Bjs!
Dani, entendo sua revolta. Só não entendi se você se revoltou com meu post também... Espero que não, porque a intenção aqui é desmistificar certas informações que aparecem na mídia o tempo todo. Resolvi escrever este pot por causa da preocupação de uma das leitoras do blog, que me encaminhou a reportagem e perguntou minha opinião! Obrigada pela visita! Beijos
Esse estudo parece estar "justificando" o número absurdo de cesareas feitas na China. Eles faze mais cesárea que no brasil , como se fosse um "alíviio" para as mães com mais dinheiro. O número de cesáreas na China cresceu proporcionalmete com a prosperidade do país. Triste!
Oi Carol - obrigada por atender a meu pedido ;-)
Concordo com a Ligia - essa pesquisa parece ter sido elaborada/executada para justificar a epidemia de cesáreas na China - e não é à toa que fez manchete por aqui, né? E também acho super válido o ponto da Carol sobre a relação entre a cesárea e o acesso à educação - de fato, se a China for como o Brasil, a cesárea deve ser mais comuns nas classes mais altas ou com maior acesso à educação. o que é irônico é que, quando o assunto é parto, a informação que chega até as mulheres de classes favorecidas vem filtrada pela obstetrícia/medicina tradicional, que enxerga o parto como algo "perigoso" e que necessariamente requer medidas de controle ou gerenciamento. É uma pena que não existem estudos comparando o parto vaginal natural com as cesáreas e com partos vaginais intervencionistas. e, enquanto isso, parabéns Carol por levantar o debate!
ola carolina, como estás?escrevendo muito e bem como sempre.....
gostei do seu artigo. bjs
fatima
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