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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Coragem de Mãe: relato de uma anônima

Foi muito difícil escolher o terceiro texto da promoção Coragem de Mãe. Não só porque tinha ainda alguns bons textos, mas porque este aqui me deixou intrigada. A mãe que o relata é anônima, criou um e-mail só para participar da promoção. Mas, nos conta uma história de coragem ao enfrentar o dilema de uma gravidez indesejada, num país estrangeiro, separada. Convido vocês a lerem seu relato com o coração aberto!

Oi Carolina,

tenho uma história de coragem para contar. Pensei em enviá-la como se não tivesse se passado comigo, como se fosse o relato de uma outra pessoa, mas não soaria sincero. Então, criei um e-mail novo só para enviá-la esse pequeno texto anônimo. Não sei porquê, mas talvez ele ajude a alguma outra mãe numa situação como a minha. Eu tenho 29 anos e sou separada. Moro num país europeu, com meu filho de dois anos e quatro meses, mas sou brasileira. Vim pra cá com meu filho recém-nascido, com o pai dele, que é europeu. Moramos juntos por mais ou menos um ano e depois ficou impossível a convivência! Tive que enfrentar uma separação com um filho bem pequeno, e não pude voltar para o Brasil para ficar com minha família. Fiquei com medo de afastá-lo do pai tão radicalmente. Como aqui temos alguns incentivos para ficar mais tempo com os filhos pequenos, meu ex-marido foi bastante participativo e tem uma relação muito forte com ele.


Não posso dizer que fui corajosa ao enfrentar essa situação, porque foi praticamente involuntária. Eu não queria me separar. Mas, pouco tempo depois, meu ex já estava com outra mulher, morando junto. Aqui é mais comum as pessoas morarem juntas em pouco tempo de relacionamento. Mesmo assim, conseguimos manter uma relação amigável, ou pelo menos educada. Ele me ajuda financeiramente, mas tenho que trabalhar em tempo integral e deixar meu filho na creche da empresa. Também tenho um dia de folga a mais na semana, o que ajuda muito.

Mas, tive que ter muita coragem mesmo para tomar uma decisão difícil recentemente. Logo depois de me separar, descobri que estava grávida. Nós nos preveníamos com camisinha, mas tivemos um facilo numa única vez! Eu não contava com uma segunda gravidez, de jeito nenhum! Encarar a solidão num país estrangeiro, com um filho pequeno é difícil, mas com outro recém-nascido era assustador! Não sou religiosa, mas nunca tinha parado para pensar de verdade no aborto. No Brasil essa é uma questão tabu, né? Mas, aqui, não é tanto. O aborto é legalizado até o terceiro mês de gravidez. Eles fazem todo um acompanhamento, aconselhamento, e dão condições adequadas para o procedimento, sem causar tanto sofrimento e tanto risco de saúde.
Claro que foi um sofrimento pra mim decidir abortar, principalmente porque eu já estava muito fragilizada com a separação! Nem contei da gravidez para meu ex! Eu não queria usá-la para reatar meu casamento. Até porque, realmente, a relação não tinha mais como melhorar. Então, acho que tomei a atitude mais responsável. Porque sei que tenho um filho para criar e sustentar e que não daria conta de mais um, nessas condições. Sei que a vida pode nos surpreender e um dia, talvez com uma outra relação mais estável, eu possa dar um irmãozinho para ele. Sofri mais por não ter ninguém aqui da minha família para me apoiar. Ninguém sabe do que fiz. Não quis preocupar ninguém.

Esse relato não é para buscar compreensão das pessoas. Sei que você tem uma mente aberta em relação a esse tema, e me senti confortável em lhe contar. Mas, sei que as pessoas me julgarão. Respeito a opinião de todos. Mas, quero dizer que uma mulher que decide abortar não é covarde, como já ouvi por aí, pelo contrário, é muito corajosa. Ela tem coragem para ir pelo caminho mais doloroso, porque sabe que será melhor para si e para seus outros filhos. Eu me sinto mais forte e corajosa depois do que fiz. E com certeza tenho mais força para cuidar de meu pequeno aqui. Ser mãe também é uma decisão diária.

Obrigada pela atenção! Abraços!

8 comentários:

Anônimo disse...

Puxa, que história, de muita coragem.
Acredito que cada mulher tem o direito de escolher ou não prosseguir com uma gravidez. Certamente é uma decisão extremamente difícil.
Desejo de coração, tudo de bom para a autora do texto.

Fabi

Juliana disse...

Olá Carolina...
Me chamo Juliana,tenho 29 anos,vivi a maternidade com 18 anos, de uma forma imatura, mas muito intensa.
Após 8 anos,resolvemos ter outro filho...um lindo sonho que esteve conosco apenas por oito meses.
Coragem de uma mãe que tenta reaprender a sorrir,pois tem um filho que precisa de sua alegria...

Patrícia Boudakian disse...

Eu não julgo ninguém, acho que a decisão de cada uma tem sua importância. Seria mais fácil se no Brasil as coisas fossem como fora. Causaria menos transtorno e dor na vida de algumas mulheres. Bastante corajosa, adorei o relato.

beijo!

Carolina Pombo disse...

Meninas, obrigada pelas visitas!

Juliana, espero que neste blog você encontre inspiração para continuar sua jornada na maternidade, com alegria. Você precisa mesmo de muita coragem! Vá em frente! E conte com as minhas palavras, se elas puderem ajudá-la!

Beijos

Adèle disse...

Eu não quero julgar; acredito que é direito de toda mulher não levar adiante uma gravidez, sobretudo quando suas condições financeiras não permitem mesmo, mas, nesse caso especifico, e considerando os traumas que inevitavelmente acompanham o aborto, não consigo não me perguntar certas coisas... Por exemplo: porque não colocar essa criança para adoção? Na Europa, existem diversas opções que permitem que a criança seja adotada rapidamente por pessoas que desejam muito e não conseguem ter filhos, uma situação cada vez mais comum là, pois os pais decidem ter filhos mais tarde e nem sempre conseguem. Também estão abrindo novos caminhos, com adoções abertas que permitem o contato entre pais biologicos e seus filhos adotados. Nesse caso, se é possivel colocar uma criança no mundo, dar-lhe condições de viver uma boa vida e ser amado, e ainda manter relações com ela, porquê matà-la?

Carolina Pombo disse...

Adèle, obrigada pela participação. Eu não sei se a autora do texto se manifestará, porque ela quer manter seu anonimato... mas enfim, me incomodei um pouco com suas palavras e gostaria de comentá-las. Em primeiro lugar, a autora não parece considerar ter "matado" uma criança, e igualar sua atitude a isso é sim julgá-la. VocÊ não a julgou, como condenou. Porque se matar um ser humano é crime, então, de acordo com a lógica usada por você, abortar deveria ser crime também. Mas, quando uma mulher considera o aborto como alternativa real, não está optando por matar um filho! Ela está optando por evitar que uma situação de sofrimento se prolongue por nove meses e até pelo resto da vida, dependendo da situação. Uma mulher que aborta, geralmente, não quer viver a própria gravidez, por diversos motivos que devem ser respeitados. Imagina viver o trabalho de parto numa situação como essa? Então, gerar a criança e doá-la para a adoção não resolve o problema dessa mulher nem mesmo da criança - que depois de nascida passa então a ter que encarar uma realidade muito dura, a de ser filha de uma mãe que não a deseja.

Então, colocar a adoção dessa forma é simplificar um problema complexo demais! Essa é a minha opinião. O blog está aberto para debates mesmo!

Letícia disse...

Afe, tinha escrito um texto enorme e deu tilte aqui.

Então, eu acho que este tema é bem complicado. Acredito que a decisão é da mulher e ponto final. Isto não se discute.

Porém quando penso na gravidez e na vinda de um filho eu costumo pensar no lado espiritual: porque Deus enviou este filho? Porque escolheu este momento, esta situação. Pensando nesse aspecto, acho que o aborto não é uma opçao para mim.

Acredito que quando se opta pelo aborto, considera apenas aspectos práticos: financeiro, momento, situação conjugal, etc...

Não sei o que pensa a mulher anonima sobre esta questão espiritual, mas desejo fortemente paz em seu coração!

Melissa Marsden disse...

Poxa... Eu nunca passei por isso, mas conheço (pessoalmente e profissionalmente) algumas mulheres que fizeram aborto e para nenhuma delas essa foi uma decisão fácil. Definitivamente não são covardes. Algumas inclusive a experiência foi tão marcante que mesmo anos depois é delicado tocar no assunto. Não consigo imaginar alguém passando por esse processo sozinha. Ainda mais em um país estrangeiro...
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