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Aqui, a voz é quase sempre de Carolina Pombo - mãe, escritora, psicóloga e empreendedora "verde". Alguém que adora perguntas, ama debates, e abre o coração sem medo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mariana Sá na Série Mães que Contam: mestrado com filhos?

Mariana é uma blogueira super ativa e excelente escritora, que conheci recentemente entre as comentadoras mais presentes deste blog. Seu cantinho virtual é lindo e tem um título que em si já gera polêmicas: Viciados em Colo. Além de acrescentar muito aos nossos debates e escrever textos inspirados, surpreendi-me ao saber que Mariana está cursando mestrado, com uma linda preocupação de melhorar a comunicação entre comunidade e governo.  Você pode acompanhar melhor sua trajetória no Vou e Volto Voando. Aqui, ela nos conta, em mais um capítulo da Série Mães que Contam, como tem sido conciliar a decisão de fazer o mestrado com todas as demandas de uma vida em família, depois de uma segunda gravidez não planejada. Conheça e aprenda mais um pouco com a experiência dessa querida mãe e amiga virtual!

" Quando surgiu a oportunidade de participar da seleção do mestrado, minha filha mais velha já tinha três anos. Eu já nadava absorvida por um trabalho exigente, coordenando a parte administrativa e financeira da minha secretaria, e ela não apresentava nenhum sinal de estar precisando de mais atenção. Minha rede de proteção sempre foi muito eficiente. Meu marido sempre foi bastante participativo e a divisão de tarefas relacionadas à criação dela era bem equilibrada. Eu tinha uma pessoa confiável que trabalhava na minha casa e que me cuidava dela durante as minhas aulas, além de avós, tios e amigas. Minha filha é bastante autônoma e me organizei de uma forma a impactar o mínimo possível na sua rotina. E assim foi durante o período de aquisição de créditos nas disciplinas e de estruturação do projeto.

Seis meses depois do início do mestrado, eu entreguei o cargo que exercia e fiquei trabalhando apenas como técnica: o tempo e a dedicação que o cargo exigia estavam atrapalhando minha vida pessoal (solução de problemas nos domingos e à noite) e minha trajetória acadêmica (sair da aula para resolver problemas e pouco tempo para estudar e participar de eventos). 
Neste tempo, conciliar a vida pessoal e o mestrado era bastante fácil. Minha filha dormia cedo e eu aproveitava o tempo para estudar e fazer tarefas. Como o mestrado é profissional, a temática é aderente a minha rotina no trabalho, então era também um espaço de discussões e estabelecimento de redes. Os eventos eram complementares.

Isso mudou com a gravidez iniciada no segundo período do mestrado, o de pesquisa. A gravidez foi uma não-decisão. Algo que aconteceu num momento único de vacilo e que atrapalhou muito a sequência dos acontecimentos. Só um exemplo: minha pesquisa é num município do semiárido, distante 250 km de onde moro e 150 km de uma cidade média, separados por 50 km de estrada de chão; então meu orientador não me liberou para eu ir a campo grávida. Ele me dizia que eu não estava pronta academicamente para entrevistar as pessoas, mas depois me disse que na verdade temia que algo acontecesse ao bebê e eu ficasse desassistida. Foi uma decisão sábia, se eu tivesse ido provavelmente relacionaria o problema que o bebê teve à viagem.

Por um lado, meu chefe passou a pegar leve e o trabalho não era um problema. Por outro, decidimos nos mudar e ficamos alguns meses envolvidos em achar um novo apartamento, vender o nosso, fazer a reforma e a mudança, além de providenciar o enxoval do bebê.

Fiquei paralisada no mestrado durante um ano. Justamente no ano em que eu devia, estruturar o projeto, submetê-lo ao conselho de ética, iniciar a pesquisa de campo, estudar e finalizar a dissertação. Disso tudo, consegui estruturar o projeto final antes do nascimento do bebê.

Quando o bebê nasceu, ele ficou oito dias na UTI Neonatal. Quando saiu, tivemos que fazer uma série de exames e acompanhamentos para evitar que tivesse alguma sequela e preferi ficar muito grudada nele para tentar “compensar”.  Foram os meses finais deste ciclo de paralização. Eu tinha a ilusão que conseguiria estudar durante a licença maternidade, mas nunca (NUNCA!) abri um livro relacionado ao mestrado. Escrevi muito durante a licença, mas não escrevi nenhuma linha da dissertação. Eu estava absorvida pela maternidade. Descobri este mundo dos blogs maternos e todos os cochilos do bebê eram oportunidades para conhecer novos blogs e escrever sobre a minha experiência. Além disso, eu precisava transformar o novo apartamento num lar e dar conta da filha mais velha (duas coisas que ficaram mal feitas).

Há seis meses me comprometi a entregar a dissertação no início da prorrogação do meu prazo (que terminou em setembro). Tudo o que eu precisaria fazer em um ano, tentei fazer em cinco meses e é claro que não consegui. Fiz a pesquisa de campo, progredi muito na escrita e agora tenho mais dois meses para terminar e um texto muito bem encaminhado.

Temos que abrir mão de alguma coisa, mas é perfeitamente possível conciliar as tarefas de mãe de criança (maior de dois anos) com as tarefas do mestrado, a depender do tipo de trabalho que desempenhe, se a mulher tiver um bom pai ao lado (mesmo que separados) e uma rede de proteção razoável. Porém considero que conciliar as obrigações de um mestrado e com a trabalheira de cuidar de um bebê uma opção penosa, principalmente se for o primeiro filho (particularmente, eu fiquei muito mais louca com a primeira filha, mesmo ela sendo muito mais saudável). Alguma coisa ficará mal feita. Um fator bastante importante na maternidade são as noites mal dormidas: o raciocínio não é mesmo e neste primeiro ano, a probabilidade de ter um bebê dorminhoco são pequenas. Então, concatenar ideias, teorias e escrever sobre isso é um desafio.

A estratégia que considero mais importante para conciliar estes papéis é aceitar que alguma coisa ficará mal feita. É deixar de acreditar que é possível ser aquela mãe da propaganda. Se para a mulher, seu projeto de pesquisa for absorvente e desafiador, ela deve ter em mente que perderá momentos importantes do crescimento do bebê e esta pode ser uma decisão perfeitamente legítima se ela tiver outras pessoas que deem a atenção que o bebê precisa. Eu jamais faria esta opção. Mesmo agora que tenho prazos apertados, não sacrifico meu tempo com meu bebê, o máximo que fiz foi passar dois dias e uma noite fora de casa, quando fui a campo. Já a maior sofre um pouco mais: neste ponto ter uma relação de parceria com o pai é fundamental, meu marido supre as necessidades dela de atenção, brincadeiras e cuidados nos momentos em que me tranco para escrever. O perfeccionismo é o pai da frustração. A expectativa alta demais é a mãe.

Outra coisa importante no meu caso foi dar uma pausa no trabalho. Como sou servidora pública, guardei minha licença-prêmio para este momento. Se eu tivesse que ainda trabalhar, com certeza, eu teria surtado e não teria chegado no ponto em que estou.

É necessário dizer que tenho outros problemas, outras questões a resolver, além destas listadas, coisas que só se resolveram com o tempo. Os problemas se acumulam. No ponto em estou só quero que termine logo o que tenho governabilidade para terminar: o mestrado. Durmo e acordo com esta pendência piscando em alerta na minha cabeça e isso está, sim, atrapalhando o meu bem estar, minha relação com o que/quem amo. Amamento pensando na hora que o bebê vai dormir e que eu vou poder escrever. Deito “escrevendo” parágrafos mentais. Sonho com a defesa. Não tenho comparecido a eventos em família e tenho dito nãos para meu pai e minha mãe. Aliás, outra estratégia: saber dizer não, quando não dá.

Digo sempre que estes dois anos foram uma loucura. Aconselho a quem tem um filho pequeno (menos de um ano) que espere mais um ano para iniciar um processo de estudo como este. E a quem está já está no processo, que espere acabar para engravidar. São projetos divergentes e os dois exigem atenção, disciplina e organização. Se a pessoa trabalhar, então, nem pensar. Fazer as duas coisas ao mesmo tempo é garantia de dois anos sem vida. Fazer um mestrado tendo um bebê é dizer não ao bebê, ou dizer não ao mestrado. Coisas importantes não serão feitas. No meu caso, diversas discussões importantes ficarão de fora do texto, porque não pude dizer não ao meu bebê, então digo não ao “aprovado com louvou” (coisa que nem existe mais).

Aliás: penso hoje que a maternidade e o mestrado são coisas que a pessoa só deve se envolver se realmente for impossível não fazê-lo. Assim como fazer um mestrado “meia-boca”, deixar um bebê sendo cuidado por babás e avós é possível e é comum, mas não tem sentido algum. São decisões que tomamos que tomam a nossa vida e nos transformam sobremaneira, não são coisas que devemos fazer “por obrigação”. Acreditar que a vida não vai mudar depois da maternidade ou de um mestrado torna a decisão uma coisa desprovida de sentido. Qual o sentido de ter um bebê se você prefere a balada, ou uma vida profissional intensa que não possa ser freada nem no primeiro ano do bebê?  Qual o sentido de fazer um mestrado, se assistir House ou a novela das oito é mais urgente do que aquele texto que precisa ser lido e discutido?

Uma imagem que acabou de me ocorrer sobre fazer essas duas coisas ao mesmo tempo: a pororoca! Um mestrado é como um rio, uma tromba d´água, que vai inundando toda as margens da nossa vida, a maternidade é como um mar que invade este rio. Nos dois casos, não conseguimos pensar ou falar em outra coisa. Queremos viver a pesquisa, queremos viver o “ser mãe”. Uma tromba d’água é algo belo e violento, é assustador. O mar que invade o rio é algo sutil e natural , é poderoso. É algo que transforma o rio (quando se vê, nossas águas não são mais tão doces). Quando estes dois eventos acontecem ao mesmo tempo, nada mais sobra: apenas as ondas, a correnteza e o caos."
*Você pode participar da Série Mães que Contam, enviando seu relato ou respondendo a uma entrevista. Entre em contato!

7 comentários:

Anne disse...

Oi Carol, sou nova aqui vim pelo blog da Mari!
Mari, que loucura né? eu nem imagino!
Já sambo na lama com bb+trabaljo+casa+todo o resto que uma mãe faz... imagina mestrado?
Parabéns!
Bjos e boa sorte

Patrícia Boudakian disse...

Ótimo texto, Mari. Ótima iniciativa, Carol! Adoro seu blog.
beijo as duas.

Milka disse...

Muito bom Mari,parabéns!
bjus

Coisa de Mãe disse...

Carol, parabéns pela iniciativa! Já era sua seguidora e passarei mais vezes por aqui!

Mari, vc é muito querida e seus textos como sempre maravilhosos.

Confesso que tenho planos de fazer mestrado, mas ainda não tive coragem pra enfrentar esse turbilhão com três filhos pequenos. Quando tinha apenas Carol e Alice cheguei a pensar no assunto, até comecei a estudar. Mas quando enravidei de João, deixei o ideal de lado para ter mais tempo de me dedicar aos três. E por enquanto está bom assim, pois o trabalho já me suga muito, embora permita que eu fique perto dos pequenos, quando consigo trabalhar em casa. Tem valido muito a pena.

Enfim, tudo no seu tempo!

Parabéns pela coragem, pelo desafio. Você já é uma vitoriosa!

Um beijo grande!
Ivana

Carolina Pombo disse...

Ah que bom que gostaram da inciativa!!! Eu também adorei o texto da Mari!!! Obrigada pelas vistas.

Beijos

Paloma, a mãe disse...

Muito bom texto, principalmente esta frase: "São decisões que tomamos que tomam a nossa vida e nos transformam sobremaneira, não são coisas que devemos fazer 'por obrigação'”.
Beijos

Edna Corsi disse...

Olá boa tarde!

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