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sábado, 30 de janeiro de 2010

Como criar uma criança tranquila?

Neste texto falo um pouco sobre minha experiência como mãe da Laura e como psicóloga interessada nas questões do desenvolvimento humano. Mas, falo como leiga, como alguém que acumula o conhecimento do dia-dia, das leituras em sites e revistas e alguns livros especializados. Espero ajudar a quem está a procura de boa informação sobre como criar uma criança tranquila!

*Imagem: foto de Laura, durante o segundo mês de vida

O que é uma criança tranquila?

Antes de tudo, é preciso pensar nos nossos parâmetros, no que esperamos de uma criança. Não podemos esperar que um bebê, por exemplo, não chore! Li, no livro A vida do bebê, que um recém-nascido passa mais tempo chorando do que fazendo qualquer outra coisa! É normal e é saudável que os bebês se comuniquem com o choro e aos poucos aprendam a pedir com um gesto, uma palavrinha, um grito. Os mais velhos também são crianças, e portanto, são agitados, super curiosos e ativos! E isso faz parte do desenvolvimento! Por outro lado, não é bom que uma criança pequena seja muito quieta, quase não chore e brinque o tempo todo sozinha sem solicitar os pais ou outra companhia. A melancolia é um estado emocional que pode começar na infância, e pode ser confundida com um comportamento "tranquilo", pois ela se expressa também com timidez e medo social excessivos, que podem parecer apenas um traço de personalidade.

Mas, aqui, falarei de uma criança (sem graves problemas de saúde) que é tranquila porque dorme bem, se alimenta sem grandes resistências e aprende gradualmente novas formas de conseguir o que quer, sem apelar o tempo todo para o choro.

Desde o nascimento...

... o ambiente é fundamental para o desenvolvimento humano. Antigamente, havia estudiosos que encaravam as faculdades mentais como inatas, ou seja, como previamente programadas pelo cérebro, sem considerar que a interação com o ambiente afeta a expressão dessas faculdades. Mas, hoje, tanto a psicologia quanto as ciências cognitivas, e até a neurologia, já sabem que os estímulos ambientais provocam emoções e alterações fisiológicas que tem tudo à ver com o resto do desenvolvimento. Por isso, um nascimento natural, bem assistido, mas respeitando o tempo e lugar da mãe e da criança é muito importante. Uma separação brusca entre mãe e bebê ao nascimento pode provocar ansiedade e tristeza na mãe, e também dificultar o estabelecimento de um vínculo afetivo saudável entre ela e seu filho(a).

Mas, os bebês humanos também são adaptáveis! Eles conseguem superar experiências ruins, se tiverem um ambiente estável e acolhedor nos seus primeiros meses de vida.

Os primeiros meses

Os três primeiros meses são determinantes para o comportamento de um bebê! Nesse período, ele está aprendendo a reconhecer o ambiente e seu próprio organismo, por isso é fundamental que seja bem alimentado (com leite materno, de preferência), e receba carinho e proteção. Estabilidade é a palavra-chave! É muito importante que não haja uma alta rotatividade de pessoas no cuidado com esse ser tão novinho, pois ele precisa introjetar a existência do tempo e do espaço no qual vive, e fará isso, principalmente, através do contato diário com as pessoas que o cuidam. Eu e Marcelo optamos por não ter ninguém para ajudar a cuidar da Laura nos primeiros meses, e sinceramente, eu acho que todo o esforço valeu muito a pena! Essa dedicação exclusiva a ela nos ajudou a adquirir confiança em nossa própria capacidade como pais e trouxe harmonia para a casa, porque nós dois conseguimos combinar bem como as coisas seriam feitas. Assim, a rotina da Laura foi estabelecida sem traumas, sem muita gente para dar opinião, e sem brigas. Desde que chegou em casa, ela dormiu em seu berço, no seu quarto. Nós a acompanhávamos pela babá-eletrônica, e dividíamos as tarefas durante a madrugada.

Respeitar o tempo e o espaço do bebê é uma das maneiras de garantir estabilidade e evitar ansiedade e irritação desnecessários. As visitas à Laura, por exemplo, só foram aceitas depois dos primeiros quinze dias, e sempre em horário em que ela estava acordada. Eventualmente, quando estava dormindo, pedíamos às visitas que falassem baixo e não entrassem no quarto dela. Às vezes, tivemos que aguentar as caras de decepção e as reclamações dos parentes, que queriam vê-la sempre acordada! Colo e brincadeiras também eram comedidos. Nos primeiros meses, eu sempre respeitava as reações dela ao ir para o colo de alguém: quando chorava, voltava rapidinho pro meu colo ou para o pai. Não forçamos a barra para ela gostar das vovós ou das titias de imediato! Apesar da ansiedade de todos, preferíamos deixar a Laura se acostumar gradualmente aos "colos novos". Fazer isso não é fácil! Muitas vezes as pessoas não vão entender essa decisão, porque lidam com o bebê como se ele fosse apenas um lindo bonequinho, se esquecendo que ele é uma pessoa com suas emoções e afetos em formação. Forçar a barra, deixando o bebê com outras pessoas, mesmo inquieto e chorando, só o deixa irritado e estressado, atrapalha o sono e gera um círculo vicioso!

O momento das mamadas também deve ser tranquilo! Não é bom amamentar conversando, em lugares com muita gente e muitas distrações. O bebê, ao colo, sente a tensão da mãe, recebe os diversos estímulos do ambiente e pára de mamar antes de saciado. Assim, vai acabar dormindo mal e chorar em momentos que, a princípio não seriam "hora de mamar", e até os pais entenderem o motivo do choro, ele já terá se estressado demais.

Mas, também não podemos ser super protetores! Aos poucos, a criança deve ser acostumada aos passeios, as diferentes luzes, barulhos e cheiros. Por isso, os passeios matinais devem ser introduzidos na rotina diária, assim que houver liberação do pediatra (que pode ser até antes do primeiro mês).

Quando a personalidade já começa a aparecer

Foi com erros e acertos que aprendemos a conhecer a Laura, o que a incomodava e o que a alegrava. Alguns incômodos são inevitáveis, e tivemos que ser firmes para que o choro e as reclamações não impedissem  nossa função de dar limites e orientações. Mas, outros são perfeitamente evitáveis, e uma boa dose de sensibilidade é suficiente para prevenir irritações desnecessárias. Não devemos entrar em "quebras-de-braço" com os filhos para satisfazer uma necessidade de auto-afirmação, ou seja: não é porque queremos ser respeitados como autoridade que devemos sempre ter a palavra final, independente da vontade da criança. As crianças começam a respeitar a partir dos exemplos que têm, portanto, se forem respeitadas e nos tiverem como referências de amor e cuidado, certamente entenderão nossa autoridade. Além disso, não é porque uma criança desafia nossa ordem que não nos respeita! Desafiar a realidade é um elemento típico do desenvolvimento, até à adolescência. Mas, limites sem lógica não convencem a criança e podem parecer até mesmo falha de caráter dos pais. Por exemplo, com cerca de cinco meses, percebi que a Laura não gostava mesmo de ser amamentada ao seio enquanto eu conversava, ainda que baixinho, com outra pessoa. Eu imaginava que ela já não se afetaria por isso nessa idade, mas me enganei. Ela parava de mamar e resmungava, olhando para a pessoa que estava comigo. Nós riámos, porque era um sinal de sua personalidade, de seu jeitinho de resolver as coisas, e isso era muito fofo! Mas, respeitei esse incômodo e parei de colocá-la nessa situação. Os banhos ao chuveiro também foram um pouco modificados, porque percebemos que ela não gostava de ser colocada diretamente debaixo d'água, então, coloco-a de frente para o chuveiro, avisando que vou abri-lo, e ela mesma coloca os bracinhos e a cabeça quando se sente pronta.

E, os incômodos que não podem e não devem ser evitados? Como fazer para a criança aceitá-los sem ficar muito irritada? Bem, uma dessas situações, no caso da Laura, é o momento de dormir. Quando ela fica com sono, dificilmente cede logo, fica reclamando e lutando contra ele! Mas, sabendo que o estabelecimento de uma rotina é fundamental para a tranquilidade dela e da casa, não deixamos que ela conduza sozinha essa luta. A partir das 19hs é hora de ir pra cama! Esse horário foi definido com base nos primeiros sinais de sono dela, desde recém-nascida, e assim, definimos todos os demais horários: almoço, jantar, mamadeira, etc. Até os três meses, normalmente, ela dormia mamando ao seio e era simples colocá-la na cama. Mas, quando as descobertas do dia-dia tornaram-se mais excitantes, depois de dormir em meus braços, ela não ficava na cama de jeito nenhum! Chorava até que eu a colocasse no colo novamente, a embalasse com uma canção e a devolvesse ao berço.... aí, ela acordava de novo, chorava, e aí eu voltava, colocava ao colo e... nossa era exaustivo! Até que descobrimos  um bom método de ajudá-la a dormir sozinha, sem colo! Ufa! Foi um custo acostumá-la a isso, mas deu certo! Laura dorme praticamente 10 horas seguidas durante a noite, desde essa idade.

A chupeta também tem sido uma aliada, apesar de várias recomendações contrárias. Nos primeiros meses, nem eu nem a Laura gostávamos da chupeta. Minha mãe tentou dar a ela algumas vezes, mas ela reclamava! Eu decidi não insistir e deixei o tempo passar. Com cerca de quatro meses, eu dava a chupeta para ela brincar, e às vezes colocava-a em sua boca. Ela achava engraçado (aliás, Laura é uma criança muito risonha! Seu primeiro sorriso foi antes de completar 2 meses de idade!), e aprendeu rapidinho a colocar a chupeta sozinha na boca. Hoje em dia, quando ela chora um pouquinho de madrugada, colocamos a chupeta e ela volta a dormir imediatamente.

Como encarar o NÃO
"Não pode!": essa tem sido uma das frases mais ditas por mim ultimamente! Laura está naquela fase de querer experimentar tudo, de subir em tudo o que der, engatinhar todos os espaços da casa, enfim... É uma delícia! Mas, também é hora de encarar o NÃO. Ela já sabe o que significa, e quando está prestes a fazer algo que eu desaprovo, olha pra mim, como quem espera o limite para iniciar o desafio. Às vezes, um Não é suficiente, mas muitas vezes não é não! Tenho que, pacientemente, repetir a palavra, olhando bem em seus olhinhos, e explicando (dentro do possível) os porquês. É muito importante que a comunicação com a criança seja feita, e o contato visual faz parte. Isso é muito mais eficiente do que a estratégia de bater nas mãos. Eu, particularmente sou contra a correção física, com o recurso à violência, principalmente com uma criança pequena. A palmada pode ser mais um elemento estressante na rotina da criança, e ela vai aprender a tolerá-la ao mesmo tempo em que vai usá-la para expressar o que quer. A dor física produz uma série de reações fisiológicas que geram ansiedade e tensão muscular, além de medo. Muitas vezes a criança fica ainda mais agitada, por causa das reações fisiológicas decorrentes de uma palmada ou uma bronca violenta. Respeito não precisa ser obtido através do medo! Acho que uma disciplina baseada nisso impede que pais e filhos desenvolvam uma verdadeira intimidade.

A hora da alimentação é um desafio para muitas mães e pais. Já testemunhei situações em que a criança resiste a comer e é punida fisicamente por isso. Os gritos irritados e as palmadas não ajudam em nada! Tensão na hora da alimentação só dificulta ainda mais a digestão e o apetite. Por isso, a introdução dos alimentos deve ser feita num momento tranquilo, sem tv ligada, sem muita falação, numa troca entre a pessoa que oferece e a criança que recebe. Deixe-a tocar e se aproximar do prato. Ofereça-lhe uma colher para segurar enquanto você a alimenta. Não insista demais quando as colheradas não são recebidas. Ofereça um suco, uma água, e depois volte a tentar. Converse, com calma, com carinho, e até coma na frente dela. Uma das coisas que ajudou muito no início, com a Laura, foi usar uma boneca fantoche, a qual nomeamos e brincávamos de dar comida durante seu almoço. Ela ria e acabava "imitando" a amiguinha! Hoje, Laura come praticamente de tudo! Só tem dificuldade em comer banana e geléia de mocotó. Seu apreço pelos alimentos diferentes foi um dos incentivos para largar espontaneamente o seio, aos 8 meses.

Método para ajudar a criança a dormir

Quando Laura entrou na fase mais difícil para dormir, pesquisei em todos os lugares que podia um método para ajudá-la. Porque o sono interrompido demais a deixava cansada e irritada o resto do dia, e ficávamos todos muito estressados! Aprendi então que estava fazendo muita coisa errada! Li que não devemos fazer o bebê dormir ao colo, porque ele pode estranhar a diferença do balanço e do aconchego quando deitado no berço. Também não devemos ficar "em cima", fazendo cafuné, cantando demais, porque pode deixá-lo ainda mais excitado. Começamos então a testar uma nova maneira, que não foi fácil de ela aceitar, mas que em uma semana resolveu nosso dilema! Quando se aproxima a hora e ela já está nitidamente cansada, falamos: "é hora de dormir", carregando-a até o quarto, com as luzes apagadas, ou só com um abajour bem fraquinho. No início, assim que era deitada, ela reclamava (e às vezes, ainda reclama!), mas eu aprendi a manter a palavra ! "Hora de dormir", falo, dou um beijinho, às vezes canto uma musiquinha, enquanto ela vai se remexendo, fechando os olhos e virando de lado. Saio do quarto quando ela ainda está acordada, e espero. Se a reclamação se transforma em choro intenso, volto, pego-a no colo um pouquinho, e continuo dizendo que é hora de dormir. Depois de acalmá-la, deito-a novamente. Se o choro persistir por cinco minutos, numa intensidade moderada, volto e ofereço uma água ou um suco. Geralmente, ela aceita e depois de tomá-lo vira de lado e dorme. Se o choro for diminuindo a intensidade, oba! é sinal de que logo dormirá. Às vezes, esse ritual todo nem é necessário! É capaz de ela dormir depois de uns minutinhos de reclamação... É normal, pois está passando de um estado de excitação para o relaxamento. Não adianta nada ficar brigando com o bebê nessa hora! Não adianta gritar! Não adianta bater! Dormir é um momento de relaxar. É melhor deixar chorando um pouquinho do que entrar numa briga com a criança nessa hora.

E fim!

Bom, eu espero ter contribuído a alguém com esse longo texto sobre como ajudar a tranquilizar uma criança! O que mais desejo é que as pessoas que o lerem entendam que bebês e crianças são seres humanos em desenvolvimento, que têm sua individualidade, mas também são dependentes demais do ambiente e das pessoas que os cuidam. Uma criança estressada, irritada, chorona, desobediente, geralmente, é fruto de um ambiente tenso e da falta de uma boa rotina. Eu recomendo a todas as mães e pais que pratiquem a comunicação e a sensibilidade com seus filhos!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Onde está minha beleza? - Conto para Blogagem Coletiva da Fábrica de Letras

Acordei. Quinze minutos, cochilei por quinze minutos! O livro sobre a barriga e o lápis caído no chão, enquanto me ajeitava na rede. É muito estranho quando isso acontece! Dificilmente durmo em outro período que não a noite, deitada em minha cama. Mas algumas vezes, quando tenho uma tarefa ou uma meta em mente, que não se deixa alcançar com facilidade, caio no sono ao invés de realizá-la. Em sonho, até posso cumpri-la, e vivo o prazer e o alívio por alguns minutos. Mas, a sonolência acaba consumindo a motivação.

Foi o que aconteceu esta tarde. Tinha uma terrível tarefa em mente: descobrir novamente - ou re-criar - a minha beleza. Depois do estica-e-puxa da gravidez, da flacidez pós-parto, das olheiras e rugas do cansaço da maternidade em sua mais exigente fase, decidi que era hora de me refazer, tomar as rédeas de meu novo corpo e voltar ao pário. Foi depois de um olhar de espanto e piedade, emitido pelo porteiro de meu prédio, que recobrei a vergonha de andar 24 horas por dia em formato super-mãe-cansada-sem-sexo.

Imagine, logo Seu Francisco, que até durante a gravidez, tentava mas não conseguia disfarçar a contemplação por meu quadril recheado e meus seios empinados. Eu me orgulhava de ser uma grávida de primeira viagem que se cuidava. Passava os cremes e óleos recomendados, fazia hidroginástica e natação. Minha alimentação era acompanhada por uma nutricionista, e engordei apenas 10 quilos depois das 40 semanas. Mas, fui cair no mito da beleza natural, e me arrasei no pós-parto e na amamentação. Resumindo: as estrias surgiram repentinamente, o peso ganho não foi embora, e ainda ganhei as marcas faciais do cansaço - não há porteiro que resista!

O livro sobre a barriga era um compêndio sobre alimentação e exercícios caseiros, o lápis era para grifar bem aquelas frases de efeito que têm como objetivo nos fazer desejar com todas as forças voltar à boa forma e caber de novo na "fôrma". "Lembre-se que para cada dia de esforço, você ganhará meses de admiração". Eu lembrava de meu marido. Ele ainda existe, afinal! Ainda está aí, mesmo sem mostrar muito interesse. Na verdade, ele evitava me pressionar, e esperava pacientemente que eu tivesse a iniciativa para o sexo. Mas, eu me sentia cansada demais - e agora, feia também. Não há mulher que sinta tesão sem se sentir bonita!

Acho que mulher é assim, primeiro ela tem que sentir atração por si mesma, pra depois permitir ao outro que a deseje e toque. Porque entrar numa relação encanada com a própria beleza - ou a ausência dela - impede que ela relaxe e goze. Literalmente. Desculpe o português xulo, mas olhar e pensar em meu corpo não me dá inspirações mais elevadas. Essa Bárbara que se vê tão acabada no espelho, mas encara brutalmente as noites mal dormidas e as longas, muito longas, mamadas, está mais para uma linguagem nua, crua e sem sal.

Onde está, afinal, minha beleza? Perguntei-me depois de ler na introdução do compêndio a seguinte frase: "Para entrar em forma, você precisa se lembrar de que a beleza está dentro de você". Ok, mais uma chamada para minha motivação. Porque ninguém vai querer fazer exercícios físicos e dieta se não acreditar que vai ficar belo. Mas, não era só isso. Eu era bonita sim! Eu era, juro!

Acordei aos quinze minutos de cochilo pós-leitura, com o volume gradativo do choro de Felipe. Um chorinho que foi se tornando uma tempestade. Quando acordei completamente, e o volume já estava no máximo, levantei e corri para o quarto. Peguei-o no colo e estranhei aqueles olhinhos encantados, que me observavam com um semblante apaixonado. Fiquei trinta segundos parada, naquela cena, como se fosse um terceiro espectador. Alguém me achava linda! Depois de amamentá-lo, voltei ao monólogo diante do espelho, revirei meu corpo de cima a baixo, e pensei: "Até que não estou tão mal! Amanhã começo a dieta!".

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Série Mães que Contam - Relato de parto domiciliar de Bianca


 Bianca é mãe de Ícaro, sete anos e, agora, Rudá, (uma semana de vida quando escreveu este relato). Ela também é Cientista Social, Educadora e editora do Blog Parto no Brasil. Ela me ofereceu o relato de seu parto domiciliar após uma cesária desnecessária, da primeira gestação. Nos conta, com emoção, seu enorme desejo de parir naturalmente, superando as críticas e previsões pessimistas de pessoas mal informadas sobre o procedimento de se ter um parto vaginal depois de ter passado por uma cirurgia cesariana (VBAC). Agradeço muito por nos convidar para entrar em sua intimidade, revelando os detalhes de seu longo trabalho de parto, e da recepção calorosa da família ao novo membro! Parabéns Bianca!
" Há uma semana atrás tinha em meus braços o rebento que tanto aguardei chegar, depois de um processo de 32 horas, aproximadamente, de esforço e resgate que começou na noite de sexta-feira, dia 21 de agosto, às 20h30min quando entrei em trabalho de parto, fase latente, com contrações regulares e dolorosas de aproximadamente 10 em 10 minutos; no início da semana meu tampão mucoso já tinha saído e estava com um dedo de dilatação, o que indicava que meu colo uterino estava amadurecendo, se afinando, para conceber Rudá nesse mundão!

As últimas semanas foram de muita ansiedade, barrigão grande e pesado; a cada mudança de lua pensava que estava chegando nossa “boa hora”, pois nunca deixei de acreditar e confiar que tudo daria certo e que depois de uma cesária desnecessária de minha primeira gestação, há sete anos atrás, quando Ícaro nasceu, nosso tão desejado e clamado parto domiciliar seria vitorioso, já que minha gravidez era de baixo risco. Mesmo assim, fortalecer o pensamento já era o início desse parir, pois muitas pessoas estavam me desestimulando e me chamando de “louca” por ter feito essa escolha.

Nessas 39 semanas, me empoderei de muitas informações sobre o parto natural e humanizado em livros de referência ao assunto e nas listas e sites de discussão que circulam na internet, caminhos de descoberta, de lágrimas a cada relato lido, de medos e de um coração que pedia às forças da Mãe Terra. Estas nos provêm e nutrem de que Rudá seria recebido com amor e respeito, sem intervenções e medicalização, e como nada nessa vida é por acaso, encontrei nesse trilhar, através do Blog Bebedubem, Flavia Penido que me apresentou (virtualmente) Kátia Z. Assumpção Pedroso, um ser que teve as asas tiradas quando desceu a Terra, mas que não deixou de exercer sua vocação com aquelas lindas mãos pequeninas que amparou meu filhote na madrugada de domingo, dia 23 - a ela nossa eterna gratidão, querida parteira!

Como narrava acima, depois de ter passado a noite toda de sexta-feira com contrações dolorosas, recebemos Kátia na manhã de sábado, já que estávamos cerca de 400 quilômetros de distância, pois moramos em Cananéia, no Vale do Ribeira, uma remota ilha no extremo litoral sul paulista e Kátia no Vale do Paraíba, em São José dos Campos, mas como imaginava que esse trabalho de parto poderia ser demorado confiamos em esperar a parteira chegar.

Assim que ela chegou me examinou: pressão arterial ok, batimentos fetais também, com dois dedos de dilatação, em seguida me pediu para caminhar, imagina, com tantas dores, mas apesar de ser teimosa fui com meu companheiro Juliano até à padaria, uns quatro quarteirões de casa, o que levou uns 30 minutos daquela manhã chuvosa.

Quando retornamos iniciamos os “hots”: chazinhos de camomila, bola de Pilates, banhos quentes, massagens, posições verticalizadas e em pouco tempo evoluí para cinco dedos de colo dilatado, Kátia disse a Juliano e Silmara, minha comadre que acompanhou meu parto e que mesmo não sendo doula soube me encorajar e acalentar, que até o início da noite Rudá nasceria!

Oras e a noite passou...

Lembro-me que até os sete dedos as dores eram suportáveis, apesar de intensas e que os banhos quentes eram maravilhosos, dado o relaxamento que me permitiam, mas depois disso confesso que era preciso garra para suportá-las, e o tempo, que já não existia para mim, não passava!

A madrugada já tinha iniciado e o cansaço tomava conta de todos, mesmo assim essa equipe não tardava em ajudar - nesse aspecto não dá para deixar de comentar quanto é importante ter ao lado da parturiente pessoas especiais nesse momento, que tenham calma, que saibam doar; sempre comentava que imaginava que Juliano fosse ficar nervoso, mesmo porque quando vim com a idéia de ter nosso filho em casa ele logo disse: “Não me venha com essa idéia de antropóloga hein!”, porém sua devoção me espantou, tanto cuidado e zelo que foram primordiais para que eu também me mantesse confiante!

Fortes dores, cansaço de duas noites sem dormir praticamente, contrações bem próximas uma da outra, como ondas que vinham, atingiam seu zênite e iam embora, permitindo que eu respirasse, quase não conseguia gritar nesse estágio, alguns gemidos e pensamento firme, mentalizando que o útero estava se abrindo, permitindo passagem para Rudá que no seu tempo se despediria do local que lhe abrigou todos esses meses.

No entanto, essas últimas quinze horas de trabalho de parto ativo já estavam me esgotando, pensava comigo: “Porque ele não nasce?” e minha bolsa de águas nem tinha rompido ainda, o que era ótimo, pois o bebê estava protegido, mas caso isso ocorresse o processo também aceleraria.

Mas, tudo tem mesmo seu tempo!

A bolsa rompeu! Ufa! E as contrações se intensificaram progressivamente.

Já estava com o colo todo dilatado, 10 dedos, só tínhamos que esperar, foi quando resolvi tomar mais uma chuveirada, pois estava difícil suportar a intensidade da dor. De qualquer maneira penso que vivenciar, sentir essas dores foram um resgate em minha vida, resgate como filha, mãe e mulher, apesar dessa reta final já estar em outro estágio de consciência; me contavam piadas, me perguntavam se eu já havia visto algum animal parir (sim, minha gata!), como meu companheiro e eu tínhamos nos conhecido, como era nossa história, mas já não era eu que estava lá!

Depois desse último banho voltei para o colchão que estava no chão de nosso quarto e me pus de quatro, pois era como me sentia melhor, deitada era impossível! Senti uma dor muito forte, fiz uma força instintiva junto com a contração e quando pensei que Rudá estava para nascer Kátia me disse que eu havia feito coco, o que me aliviou muito, pois tive muito incômodo no reto, dado que essas fezes deviam estar atrapalhando. Em pouco tempo outras contrações, muito líquido amniótico saindo, como um rio caudaloso e escutava: “Rudá está vindo! Olha a cabecinha dele!”, nessa hora os gritos eram guturais, primitivos, vinham de dentro dessa mamífera que como um animal estava para parir, naturalmente, sem drogas alopáticas ou anestésicos.

Rudá coroou! Círculo de fogo, nossa... como queimava!

Depois de sair sua cabecinha o corpo veio rapidamente, pura ocitocina! E nossa cria nasceu! Não dá para descrever esse momento... mágico, divino, abençoado! Kátia o passou pelo meio de minhas pernas, mas eu tremia, assim Juliano o pegou e o deu em meus braços, ahhhhhhhhhhhhhhh, coisa linda! Aquela energia que circulava naquele lugar era cósmica, celestial!

Em seguida, ainda com o cordão umbilical pulsando o coloquei em meu seio, depois de uns 20 minutos o pai cortou o cordão e ficamos juntinhos, corpo a corpo, olhos abertos para descobrir a aventura de viver! Minha placenta não saiu, só pela manhã que consegui expulsá-la no banho, ainda tinha dores como cólicas, Kátia informou que um coágulo poderia ter se formado, por isso que ela não saia, quando finalmente senti a última contração e pude expelir de dentro de mim aquela que protegeu meu filhote, frondosa como uma árvore que surtiu seu fruto!

Ah! Parir, partejar, dividir, e ficar na sua cama, com sua família, no seu lar, nem dá para comparar com ter um filho num ambiente hospitalar... inóspito, frio, impessoal. Faria tudo novamente! E naquela Lua Nova um novo trilhar se iniciou em nossos caminhos, um novo ciclo!

Nesse feriado de sete de setembro plantaremos a placenta em nosso quintal, com a vinda dos avós de Rudá e comemoraremos mais um dia essa sementinha que brotou, devolvendo a terra e a Natureza o que o fortaleceu em meu ventre!"


domingo, 17 de janeiro de 2010

A Partida

*Imagem: Foto tirada por mim, do Farol da Barra, Salvador, 2007

A Partida é um filme emocionante sobre a morte. Pra mim, que nunca tive a experiência de perder alguém muito próximo, foi um exercício de sensibilidade! Aprendi, com o filme, que é possível conhecer uma pessoa apenas em seu leito de morte. Quer dizer, é possível que, durante a vida a gente não tenha prestado a devida atenção e reconhecimento àquela pessoa que se foi, e aí, diante de seu corpo inerte, vestido e maquiado com suas roupas e apetrechos de costume, é possível lembrar de suas palavras, seus gestos, e seu pedido de atenção. Também há os casos de pessoas que simplesmente se vão antes de morrer, mesmo estando alí do nosso lado. São pessoas que se escondem em máscaras e não permitem ser conhecidas nem por aqueles que as amam, ou são pessoas que, sob o peso da culpa e de uma decisão mal tomada, desistem de ser amadas e fogem, sendo reencontradas apenas no fim. E isso acontece até mesmo entre pais e filhos.

Uma cena que me impressionou muito neste filme é a do velório de um filho transexual que tinha cometido suicídio. Depois de toda comoção e da troca de culpas entre os pais durante a cerimônia, um deles reconhece que enfim aquele era seu filho, seu menino sobre o qual guardava um monte de lembranças. Aquele era o mesmo que ele amava, que amou quando nasceu e ajudou a se desenvolver. E, também era o mesmo que ele tinha renegado diante da transformação.

Sou mãe apenas de uma pequenina, e estamos na fase da lua de mel! Amamos profundamente TUDO sobre a Laura. Mesmo as coisas mais chatas, como os choros nas horas erradas, as insistências em mexer nos lugares proibidos, a agitação na hora de trocar a fralda, são coisas que reconhecemos como parte do crescimento da nossa filha. As coisas são mais ou menos previsíveis e as comemoramos com toda emoção. Mas, e quando Laura se mostrar diferente daquilo que esperamos? E quando ela romper com os ensinamentos que passamos? Quando ela se transformar no que quiser, e esperar nosso apoio, será que saberemos reconhecê-la e apoiá-la?

Sabe, eu não quero perder a minha filha de vista. Eu não quero me afastar dela ao ponto de esquecer quem ela é e quem nós somos. O bom desses filmes sobre a morte é justamente nos fazer pensar sobre a vida!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Um sonho e o meu parto

Hoje eu tive um sonho, um daqueles que ficam para sempre na memória. Foi tão intenso que tive que "furar" o plano de escrever só aos domingos para expor aqui nesse espacinho tão pessoal e coletivo as lembranças que o sonho me fez reviver!

Sonhei que estava em pleno trabalho de parto, do segundo filho. Laura já existia e estava por perto. O pai, nervoso, me apoiava com todo o amor que já tinha demonstrado no primeiro parto. Estávamos na casa de uma tia, uma casa grande (imaginária), onde se espalhavam pelos cômodos alguns de meus parentes: irmãs, primas e primos. Todos da mesma geração, pois, por algum motivo, a geração de avós não se encontrava.

As dores das contrações foram tão vívidas! E eu conseguia manter uma sincronia quase perfeita com a vinda do meu novo filho, numa suíte, com uma banheira, olhando a lua cheia pela janela, com as dores mais intensas e felizes da minha vida. A sincronia era quase perfeita, porque além de meu marido, meu companheiro, que alí já não tinha como argumentar contra um parto domiciliar (como fez tanto durante a gravidez de Laura), haviam dois homens desconhecidos opinando sobre meu parto. Então estávamos assim, em cinco: três homens, meu filho no útero, e eu, a mulher, querendo parir, me esforçando para me concentrar apesar da pressão dos homens nervosos, ansiosos, querendo controlar o parto. Um dizia que eu deveria parir logo, que não ia dar pra ir para a banheira (semelhante ao que aconteceu no parto de Laura, quando apesar de meu pedido ao obstetra e apesar de estar numa sala de parto "humanizada", não pude fazê-lo na água, porque o médico disse que não ia dar tempo de esquentá-la). O outro, ficava tenso porque seria um parto fora do hospital, e cogitava o que poderia dar errado. Eu, tentando deixar fluir as contrações, dizia mentalmente ao bebê que poderia vir quando estivesse pronto. Mas, de repente, fui interrompida. A tensão que se acumulava ao redor interrompeu minha concentração e as contrações deixaram de ser vívidas e harmoniosas, para serem dores agudas, como as de cólicas menstruais. As sensações que davam as boas vindas ao novo ser foram reduzidas a dores eventuais, tão banais e comuns como as que sinto mensalmente. O bebê, que parecia se aproximar, se recolheu, e o colo do útero, que já estava dilatado se contraiu e quase fechou.

Acordei quando, em posição fetal, contraía quase todos os meus músculos, suando e sentindo um frio tão repentino e estranho! Abracei meu marido e me cobri, mas não podendo ainda ser aquecida, pedi que ele diminuísse o frio do ar condicionado. Ele estranhou, mas o fez, apesar da noite altamente quente.

Fiquei alguns minutos meditando sobre o sonho, e lembrando do processo de nascimento de Laura. Foi incrível! Pois lembrei detalhadamente das dores das contrações. Voltando no tempo, acho que re-signifiquei tudo aquilo que tínhamos vivido.

Eu nunca relatei detalhadamente meu parto. Eu tive dificuldades para assistir o vídeo, mesmo depois de 4 meses. Eu não conseguia expressar o que tinha sentido quando vi a Laura pela primeira vez. Eu já a amava, e me sentia realmente feliz. Mas, a sensação exata eu não saberia descrever, porque, de uma certa forma, me sentia um pouco adormecida... anestesiada... apesar de não ter tomado nenhum tipo de anestesia e não ter sofrido nem indução nem episiotomia.

O choro forte veio mesmo horas depois no quarto, quando Laura ficou ausente por 1 hora, porque as enfermeiras a haviam levado para fazer "exames de rotina". Depois que ela foi levada, dormi uns 15 minutos e acordei com uma sensação muito forte: uma necessidade de sua presença. Fiquei esperando, ansiosa, alguns minutos, e telefonei para a enfermaria. Disseram-me que ela estava fazendo os exames e logo subiria para o quarto. Esperei mais algum tempo, e nada. Comecei a chorar. Vesti-me com o que tinha próximo e desci. Vi vários bebês na enfermaria, a maioria chorando, e um parecia muito com Laura, mas era um menininho. Eu não conseguia lembrar exatamente como era seu rosto! Uma enfermeira veio falar comigo fora daquela estufa à prova de intromissão de mães. Disfarcei o nervosismo, me achando uma novata idiota. E ela me disse, mais uma vez, que Laura já subiria. Quando enfim isso ocorreu, me explicaram que o exame da audição teve de ser repetido porque ela chorava muito! Não era à toa que eu chorava também...

Nesta madrugada, lembrei de tudo isso! Lembrei do quanto me senti estranha, invadida, e até meio roubada nesse período em que levaram a Laura. Lembrei do quanto me esforcei para controlar os gritos durante as contrações quando tive que ser carregada na maca, deitada, semi-nua, praticamente sozinha, no elevador da maternidade, por um funcionário qualquer do sexo masculino. Eu queria ter ido andando, com ajuda de meu marido, ou, no máximo numa cadeira de rodas, mas não deixaram. Lembrei que, antes de decidirmos pela maternidade, e de ter ouvido o obstetra não recomendar parto domiciliar para mim, porque era meu primeiro parto e porque eu tinha uma escoliose acentuada na coluna (o que, segundo ele, poderia dificultar a saída da Laura, por causa da rotação em meu quadril), eu tinha cogitado seriamente ter meu parto em casa. Mas, tantos preconceitos, e a resistência de meu marido, me impediram de seguir minha intuição. Não tive um parto ruim, desumano, como tantas mulheres têm e nem chegam a saber. Mas, meu sonho me fez pensar novamente sobre as contradições que vivi.

Meu trabalho de parto durou pouco. Foram apenas 4 horas, desde as primeiras contrações regulares da madrugada do dia 23 para 24 de Abril de 2009. Acordamos as 4hs, e as contrações se regularizaram em intervalos de 5 minutos as 5hs. Ligamos para o obstetra as 6hs, conforme sua recomendação. Houve um momento em que quase desmaiei por causa da hiperventilação. Respirava o tempo tempo todo, profundamente, e orava, pedindo a Deus que a Laura viesse por um parto tranquilo. Estava insegura com o médico, porque tivemos um mal entendido dias antes.

Tive que colocar uma roupa para ir para a maternidade, e eu já pensava em quanto queria continuar em casa, com aquela camisola mesmo, e tomar um banho quente, com meu marido do lado. Como não queria ter que sair, entrar num carro, sentir as trepidações, ver o nervosismo de todos que me acompanhavam (minhas irmãs e meu marido). Mas, ter encontrado minha mãe na maternidade foi um alívio! Ela conseguiu me transmitir serenidade, e por um tempo foi meu ponto de equilíbrio.

O médico chegou no hospital as 8hs. Eu já tinha dito que não queria anestesia, mas ele ofereceu uma última vez. Eu neguei novamente. Eu sentia a Laura despontando e disse que não ia mesmo demorar! Houve momentos em que eu achava que não ia conseguir, porque parecia ser necessária muita força para ajudá-la a sair. Cheguei a pedir ao médico que a tirasse logo! Além da dor, tinha medo de que ela sofresse com a demora. Mas, ele me devolveu o pedido, dizendo que o trabalho alí era meu. Sentia-me apoiada, mas ao mesmo tempo me deixei contaminar pela ansiedade ao redor. Todos na sala de parto tentavam me incentivar, dizendo "vai! força! já dá pra ver a cabeça!". Eu me sentia entre a sintonia com Laura e as expectativas de todos. Mas, busquei me concentrar na primeira idéia. Houve um momento em que eu tive que dizer que a posição estava desconfortável (o médico tinha sugerido ficar de cócoras mas percebi que era melhor quando inclinava um pouco mais para trás, com meu marido segurando minha lombar e pressionando o quadril - como havíamos aprendido num curso para gestantes).  Houve momentos em que me senti dona do meu parto.

O momento imediato após o nascimento foi lindo! Meu marido chorando, minha irmã mais nova filmando e chorando também. E eu, sentindo muitos incômodos ainda, tentava conciliar a emoção de ter a Laura nos braços com as sensações experimentadas. Chorei internamente, sem lágrimas. O médico prosseguiu imediatamente com o fechamento de uma pequena laceração, com três pontinhos. A região estava muito sensível! Eu sentia dor e também sentia frio. Minhas pernas tremiam. Na minha frente, a pediatra, uma auxiliar de enfermagem, e o obstetra. Eu reclamava da dor, do frio, da sensibilidade, e ao mesmo tempo dizia à Laura o quanto ela era linda!

Apesar de tudo ter saído bem, da Laura ter nascido saudável, de não ter tido complicações no parto, hoje, percebo que houve uma dissonância importante entre o ambiente e o evento mais emocionante de minha vida. O ambiente hospitalar, ainda que teoricamente humanizado, não "casou" com minhas expectativas de entrar em sintonia com minha filha e minha família. A presença de pessoas estranhas e pouco sensíveis ao que eu experimentava foi uma barreira para uma vivência perfeita de meu parto.

Hoje, especialmente depois desse sonho, e de ler relatos tão poderosos de partos domiciliares (inclusive os de minha mãe), penso que gostaria de ter seguido minha intuição, ter tido coragem de me informar melhor, correr atrás de um profissional que me apoiasse e assumido minha decisão. Não seria nada arriscado, nem irresponsável, como dizem alguns preconceitos, e como diz a medicina machista pouco sensível aos desejos maternos. Eu moro perto de vários hospitais e maternidades, se houvesse alguma emergência. Eu tenho uma família grande e unida, que me daria o suporte necessário. Eu poderia ter vivido o momento mais importante da minha vida no conforto do meu lar, e levaria a Laura para fazer todos os exames necessários depois de curti-la e conhecê-la de verdade. Eu me sentiria o TEMPO TODO DONA DO MEU PARTO.

Eu tinha escolhido o obstetra em busca das melhores condições para um parto natural. Eu escolhi a maternidade indicada por ele. Eu quis conciliar meus desejos com a vontade de meu marido. Por isso, não insisti na idéia do parto em casa. Mas, eu já desconfiava que, ainda que com o rótulo do "humanizado", um parto hospitalar não me daria a liberdade, privacidade, autonomia e a sintonia que eu sonhava.

Por outro lado, eu tive a alegria de ser firme em minha decisão de não receber anestesia, para não correr o risco de prolongar ainda mais o trabalho de parto e interferir no tempo natural do nascimento da Laura. Também tive a satisfação de colocar em prática alguns ensinamentos do curso de preparação para o parto natural, contar com a participação ativa de meu marido, e ter tudo registrado em filme por minha irmã!

É... parir é tão intenso e complexo que só conseguimos "juntar" as sensações e construir um sentido para a experiência tempos depois, principalmente quando temos que nos dividir com tantas expectativas e imposições externas...



domingo, 10 de janeiro de 2010

Série Mães que Contam - Entrevista com Alexsandra

A amamentação prolongada, seus desafios e conquistas.
 
A primeira entrevistada da Série Mães que Contam é minha amiga Alexsandra, que foi mãe solteira aos 24 anos, e, com muita dedicação, amamenta seu filhote Pedro Paulo até hoje, com mais de 3 anos de idade. Apesar da cesariana, Alê nos conta que conseguiu amamentar logo no primeiro dia, com o auxílio de profissionais da maternidade, e que a amamentação contínua nunca dificultou a recepção de seu filho a outros alimentos .Com um diálogo sensível e honesto com Pedro, equilibra  essa relação tão íntima com o dia-dia no trabalho. Leia abaixo!

Carol: Em quanto tempo, depois de nascido, Pedro Paulo começou a mamar no seio?
Alê: No primeiro dia, na verdade, foi na primeira tentativa...ele foi logo sugando...danadinho!!!  rs...
Carol: Quais foram as dificuldades que vocês experimentaram no início? Alguém os ajudou?

Alê: Durante os dias que fiquei no hospital (foram 3, já que foi cesária), perguntava a uma enfermeira ou outra, pois ainda não estava sabendo como segurar e etc..  Quando retornei para casa, minha mãe que me ajudou, explicando e tudo fluiu bem demais.
Carol: Quando Pedro Paulo começou a se alimentar de outras coisas? A alimentação dele é diversificada ou ele tem resistência em comer?

Alê: Até os 6 meses, era só amamentação, e pequenas quantidades de chá para momentos em que ele sentia cólica ou algo assim. Depois fui introduzindo os líquidos e alimentos pouco a pouco, e até hoje ele aceita bem quase tudo, claro que como toda criança, possui suas preferências, que aliás, não são os doces. Ele sempre opta por alimentos mais salgados.

Carol: Em que vc acha que a amamentação prolongada contribuiu para a relação de vocês e o desenvolvimento do Pedro? 
Alê: Bom, posso te dizer que recebi muito mais do que ele... pois não existem palavras para explicar os momentos de intimidade que o ato de amamentar cria. O Pedro Paulo sempre foi uma criança saudável, e até hoje nunca teve uma anemia sequer, claro que isso por uma série de outros fatores, mas acredito que a amamentação ajudou muito.

Carol: Tem algum fator negativo nisso?
Alê: Quando o amamentava com mais frequência (até os dois anos), realmente me desgastava muito fisicamente, só que isso nunca me fez querer parar pois tinha consciência que era algo temporário, logo ele entraria em uma nova fase.
Carol: O que você diria para as mães que têm dificuldades em amamentar, mas desejam cumprir com essa missão?
Alê: Bom, nem sempre é fácil, mas na maioria das vezes, basta nos esforçarmos um pouquinho mais...  
Carol: O que você diria para as mães que amamentam há mais de dois anos e pretendem parar em breve? Você tem a alguma dica para o desmame? 
Alê: Difícil aconselhar, pois cada caso é um caso, mas, acho que não precisa haver radicalização. Com o Pedro Paulo, diminui progressivamente, e também conversava bastante com ele, inclusive no último ano, sempre dizia que quando ele completasse 3 anos só poderia mamar um pouquinho a noite, antes de dormir. E ele foi aceitando bem... tanto que hoje, ele só me pede mesmo no momento que vai para cama.



Série Mães que Contam

Tive uma idéia nesta semana: publicar entrevistas e relatos de mães amigas, com experiências e visões diferentes, para contribuir um pouquinho mais com nosso aprendizado diário. A série Mães que Contam, será formada por algumas amigas que gostariam de compartilhar as alegrias e dores de ser mãe. Cada relato ou entrevista terá um tema em foco, escolhido por mim ou sugerido pelas leitoras / leitores, que poderão enviar mais perguntas ou fazer comentários no blog.





Conheça no próximo post a nossa primeira Mãe Amiga convidada!
Se quiser participar, mande um e-mail para cfpbarros@gmail.com.
Se quiser divulgar a série, envie este link para suas amigas / amigos e publique o logo no seu blog!

domingo, 3 de janeiro de 2010

Avatar: uma anállise despretensiosa

Nesta semana fui assistir Avatar em 3D, com meu marido. Fui mais para acompanhá-lo, porque não gosto muito de filmes de guerra e ficção científica como ele. Mas, também fui curtir a experiência de um filme 3D, que eu nunca tinha tido. Já tinham me dito que Avatar tem um roteiro cheio de clichês, que eu não esperasse muita coisa, e que o que valia a pena mesmo eram os efeitos visuais. E de fato, os efeitos são sensacionais! O filme é lindo! O universo de Pandora, imaginado por James Cameron, é exuberante e cativante! Dá uma vontade enorme de viver no meio daquela natureza esquisita, bem peculiar apesar das semelhanças com a nossa. Os personagens do povo Navi tem uma aparência super estranha, (confesso que expressei um certo argh! quando vi o trailer a primeira vez - mas vocês sabem que não curto ficção científica, portanto não estou tão acostumada com esses seres humanóides...) mas despertaram minha empatia com sua espontaneidade e ligação profunda com seu meio habitat. É verdade que o roteiro tem seus clichês, que as cenas de guerra me parecem exageradamente longas e que fica muito pouco espaço para imaginarmos um desfecho original para a estória. Mas, a beleza do filme me fez pensar bastante...

Pensei em como nossa realidade é distante dessa idéia de pertencimento e harmonia com a totalidade do mundo. Como seria bom se amássemos a vida em todas as suas expressões, respeitando os elementos mais bonitos e mais estranhos com os quais convivemos. No filme, o dinheiro, na figura dos acionistas e mercenários de uma empresa em busca de um recurso natural bilionário, protagoniza o principal inimigo do povo Navi e de seu estilo de vida. Semelhança? É... as cenas nos mostram a degradação de nossa própria sociedade, vivendo em função de algo tão transitório e potencialmente destruidor. Mesmo aqueles que tentam escapar dessa lógica, como os personagens cientistas, estão inseridos nessa cadeia destrutiva. Quando se confrontam com os interesses de seus financiadores, precisam decidir se encaram o conflito ou permanecem nessa relação contraditória.

A única saída que eu consegui visualizar, para além da guerra, é aquela que não dá o ar de sua graça em Avatar: o exercício da política, a pressão que uma população informada pode exercer sobre as instituições que a representam. O povo da Terra não se manifesta diante da ganância da empresa que explora Pandora, talvez porque as pessoas sentem como se não tivessem nada a ver com isso, talvez porque também estejam seduzidos pelo lucro e facilidades prometidas pela riqueza do "novo petróleo" encontrado lá. Essa ausência no filme não é por acaso... Imagino que também expressa um comportamento a-político típico entre muitos de nós.

Fica então, com esta análise despretenciosa de Avatar, o desejo que, em 2010 e nos demais anos que seguem, o povo da Terra mostre seu interesse e revolta contra a destruição da ganância sobre nosso habitat!