Neste texto falo um pouco sobre minha experiência como mãe da Laura e como psicóloga interessada nas questões do desenvolvimento humano. Mas, falo como leiga, como alguém que acumula o conhecimento do dia-dia, das leituras em sites e revistas e alguns livros especializados. Espero ajudar a quem está a procura de boa informação sobre como criar uma criança tranquila!
*Imagem: foto de Laura, durante o segundo mês de vida
O que é uma criança tranquila?
Antes de tudo, é preciso pensar nos nossos parâmetros, no que esperamos de uma criança. Não podemos esperar que um bebê, por exemplo, não chore! Li, no livro A vida do bebê, que um recém-nascido passa mais tempo chorando do que fazendo qualquer outra coisa! É normal e é saudável que os bebês se comuniquem com o choro e aos poucos aprendam a pedir com um gesto, uma palavrinha, um grito. Os mais velhos também são crianças, e portanto, são agitados, super curiosos e ativos! E isso faz parte do desenvolvimento! Por outro lado, não é bom que uma criança pequena seja muito quieta, quase não chore e brinque o tempo todo sozinha sem solicitar os pais ou outra companhia. A melancolia é um estado emocional que pode começar na infância, e pode ser confundida com um comportamento "tranquilo", pois ela se expressa também com timidez e medo social excessivos, que podem parecer apenas um traço de personalidade.
Mas, aqui, falarei de uma criança (sem graves problemas de saúde) que é tranquila porque dorme bem, se alimenta sem grandes resistências e aprende gradualmente novas formas de conseguir o que quer, sem apelar o tempo todo para o choro.
Desde o nascimento...
... o ambiente é fundamental para o desenvolvimento humano. Antigamente, havia estudiosos que encaravam as faculdades mentais como inatas, ou seja, como previamente programadas pelo cérebro, sem considerar que a interação com o ambiente afeta a expressão dessas faculdades. Mas, hoje, tanto a psicologia quanto as ciências cognitivas, e até a neurologia, já sabem que os estímulos ambientais provocam emoções e alterações fisiológicas que tem tudo à ver com o resto do desenvolvimento. Por isso, um nascimento natural, bem assistido, mas respeitando o tempo e lugar da mãe e da criança é muito importante. Uma separação brusca entre mãe e bebê ao nascimento pode provocar ansiedade e tristeza na mãe, e também dificultar o estabelecimento de um vínculo afetivo saudável entre ela e seu filho(a).
Mas, os bebês humanos também são adaptáveis! Eles conseguem superar experiências ruins, se tiverem um ambiente estável e acolhedor nos seus primeiros meses de vida.
Os primeiros meses
Os três primeiros meses são determinantes para o comportamento de um bebê! Nesse período, ele está aprendendo a reconhecer o ambiente e seu próprio organismo, por isso é fundamental que seja bem alimentado (com leite materno, de preferência), e receba carinho e proteção. Estabilidade é a palavra-chave! É muito importante que não haja uma alta rotatividade de pessoas no cuidado com esse ser tão novinho, pois ele precisa introjetar a existência do tempo e do espaço no qual vive, e fará isso, principalmente, através do contato diário com as pessoas que o cuidam. Eu e Marcelo optamos por não ter ninguém para ajudar a cuidar da Laura nos primeiros meses, e sinceramente, eu acho que todo o esforço valeu muito a pena! Essa dedicação exclusiva a ela nos ajudou a adquirir confiança em nossa própria capacidade como pais e trouxe harmonia para a casa, porque nós dois conseguimos combinar bem como as coisas seriam feitas. Assim, a rotina da Laura foi estabelecida sem traumas, sem muita gente para dar opinião, e sem brigas. Desde que chegou em casa, ela dormiu em seu berço, no seu quarto. Nós a acompanhávamos pela babá-eletrônica, e dividíamos as tarefas durante a madrugada.
Respeitar o tempo e o espaço do bebê é uma das maneiras de garantir estabilidade e evitar ansiedade e irritação desnecessários. As visitas à Laura, por exemplo, só foram aceitas depois dos primeiros quinze dias, e sempre em horário em que ela estava acordada. Eventualmente, quando estava dormindo, pedíamos às visitas que falassem baixo e não entrassem no quarto dela. Às vezes, tivemos que aguentar as caras de decepção e as reclamações dos parentes, que queriam vê-la sempre acordada! Colo e brincadeiras também eram comedidos. Nos primeiros meses, eu sempre respeitava as reações dela ao ir para o colo de alguém: quando chorava, voltava rapidinho pro meu colo ou para o pai. Não forçamos a barra para ela gostar das vovós ou das titias de imediato! Apesar da ansiedade de todos, preferíamos deixar a Laura se acostumar gradualmente aos "colos novos". Fazer isso não é fácil! Muitas vezes as pessoas não vão entender essa decisão, porque lidam com o bebê como se ele fosse apenas um lindo bonequinho, se esquecendo que ele é uma pessoa com suas emoções e afetos em formação. Forçar a barra, deixando o bebê com outras pessoas, mesmo inquieto e chorando, só o deixa irritado e estressado, atrapalha o sono e gera um círculo vicioso!
O momento das mamadas também deve ser tranquilo! Não é bom amamentar conversando, em lugares com muita gente e muitas distrações. O bebê, ao colo, sente a tensão da mãe, recebe os diversos estímulos do ambiente e pára de mamar antes de saciado. Assim, vai acabar dormindo mal e chorar em momentos que, a princípio não seriam "hora de mamar", e até os pais entenderem o motivo do choro, ele já terá se estressado demais.
Mas, também não podemos ser super protetores! Aos poucos, a criança deve ser acostumada aos passeios, as diferentes luzes, barulhos e cheiros. Por isso, os passeios matinais devem ser introduzidos na rotina diária, assim que houver liberação do pediatra (que pode ser até antes do primeiro mês).
Quando a personalidade já começa a aparecer
Foi com erros e acertos que aprendemos a conhecer a Laura, o que a incomodava e o que a alegrava. Alguns incômodos são inevitáveis, e tivemos que ser firmes para que o choro e as reclamações não impedissem nossa função de dar limites e orientações. Mas, outros são perfeitamente evitáveis, e uma boa dose de sensibilidade é suficiente para prevenir irritações desnecessárias. Não devemos entrar em "quebras-de-braço" com os filhos para satisfazer uma necessidade de auto-afirmação, ou seja: não é porque queremos ser respeitados como autoridade que devemos sempre ter a palavra final, independente da vontade da criança. As crianças começam a respeitar a partir dos exemplos que têm, portanto, se forem respeitadas e nos tiverem como referências de amor e cuidado, certamente entenderão nossa autoridade. Além disso, não é porque uma criança desafia nossa ordem que não nos respeita! Desafiar a realidade é um elemento típico do desenvolvimento, até à adolescência. Mas, limites sem lógica não convencem a criança e podem parecer até mesmo falha de caráter dos pais. Por exemplo, com cerca de cinco meses, percebi que a Laura não gostava mesmo de ser amamentada ao seio enquanto eu conversava, ainda que baixinho, com outra pessoa. Eu imaginava que ela já não se afetaria por isso nessa idade, mas me enganei. Ela parava de mamar e resmungava, olhando para a pessoa que estava comigo. Nós riámos, porque era um sinal de sua personalidade, de seu jeitinho de resolver as coisas, e isso era muito fofo! Mas, respeitei esse incômodo e parei de colocá-la nessa situação. Os banhos ao chuveiro também foram um pouco modificados, porque percebemos que ela não gostava de ser colocada diretamente debaixo d'água, então, coloco-a de frente para o chuveiro, avisando que vou abri-lo, e ela mesma coloca os bracinhos e a cabeça quando se sente pronta.
E, os incômodos que não podem e não devem ser evitados? Como fazer para a criança aceitá-los sem ficar muito irritada? Bem, uma dessas situações, no caso da Laura, é o momento de dormir. Quando ela fica com sono, dificilmente cede logo, fica reclamando e lutando contra ele! Mas, sabendo que o estabelecimento de uma rotina é fundamental para a tranquilidade dela e da casa, não deixamos que ela conduza sozinha essa luta. A partir das 19hs é hora de ir pra cama! Esse horário foi definido com base nos primeiros sinais de sono dela, desde recém-nascida, e assim, definimos todos os demais horários: almoço, jantar, mamadeira, etc. Até os três meses, normalmente, ela dormia mamando ao seio e era simples colocá-la na cama. Mas, quando as descobertas do dia-dia tornaram-se mais excitantes, depois de dormir em meus braços, ela não ficava na cama de jeito nenhum! Chorava até que eu a colocasse no colo novamente, a embalasse com uma canção e a devolvesse ao berço.... aí, ela acordava de novo, chorava, e aí eu voltava, colocava ao colo e... nossa era exaustivo! Até que descobrimos um bom método de ajudá-la a dormir sozinha, sem colo! Ufa! Foi um custo acostumá-la a isso, mas deu certo! Laura dorme praticamente 10 horas seguidas durante a noite, desde essa idade.
A chupeta também tem sido uma aliada, apesar de várias recomendações contrárias. Nos primeiros meses, nem eu nem a Laura gostávamos da chupeta. Minha mãe tentou dar a ela algumas vezes, mas ela reclamava! Eu decidi não insistir e deixei o tempo passar. Com cerca de quatro meses, eu dava a chupeta para ela brincar, e às vezes colocava-a em sua boca. Ela achava engraçado (aliás, Laura é uma criança muito risonha! Seu primeiro sorriso foi antes de completar 2 meses de idade!), e aprendeu rapidinho a colocar a chupeta sozinha na boca. Hoje em dia, quando ela chora um pouquinho de madrugada, colocamos a chupeta e ela volta a dormir imediatamente.
Como encarar o NÃO
"Não pode!": essa tem sido uma das frases mais ditas por mim ultimamente! Laura está naquela fase de querer experimentar tudo, de subir em tudo o que der, engatinhar todos os espaços da casa, enfim... É uma delícia! Mas, também é hora de encarar o NÃO. Ela já sabe o que significa, e quando está prestes a fazer algo que eu desaprovo, olha pra mim, como quem espera o limite para iniciar o desafio. Às vezes, um Não é suficiente, mas muitas vezes não é não! Tenho que, pacientemente, repetir a palavra, olhando bem em seus olhinhos, e explicando (dentro do possível) os porquês. É muito importante que a comunicação com a criança seja feita, e o contato visual faz parte. Isso é muito mais eficiente do que a estratégia de bater nas mãos. Eu, particularmente sou contra a correção física, com o recurso à violência, principalmente com uma criança pequena. A palmada pode ser mais um elemento estressante na rotina da criança, e ela vai aprender a tolerá-la ao mesmo tempo em que vai usá-la para expressar o que quer. A dor física produz uma série de reações fisiológicas que geram ansiedade e tensão muscular, além de medo. Muitas vezes a criança fica ainda mais agitada, por causa das reações fisiológicas decorrentes de uma palmada ou uma bronca violenta. Respeito não precisa ser obtido através do medo! Acho que uma disciplina baseada nisso impede que pais e filhos desenvolvam uma verdadeira intimidade.
A hora da alimentação é um desafio para muitas mães e pais. Já testemunhei situações em que a criança resiste a comer e é punida fisicamente por isso. Os gritos irritados e as palmadas não ajudam em nada! Tensão na hora da alimentação só dificulta ainda mais a digestão e o apetite. Por isso, a introdução dos alimentos deve ser feita num momento tranquilo, sem tv ligada, sem muita falação, numa troca entre a pessoa que oferece e a criança que recebe. Deixe-a tocar e se aproximar do prato. Ofereça-lhe uma colher para segurar enquanto você a alimenta. Não insista demais quando as colheradas não são recebidas. Ofereça um suco, uma água, e depois volte a tentar. Converse, com calma, com carinho, e até coma na frente dela. Uma das coisas que ajudou muito no início, com a Laura, foi usar uma boneca fantoche, a qual nomeamos e brincávamos de dar comida durante seu almoço. Ela ria e acabava "imitando" a amiguinha! Hoje, Laura come praticamente de tudo! Só tem dificuldade em comer banana e geléia de mocotó. Seu apreço pelos alimentos diferentes foi um dos incentivos para largar espontaneamente o seio, aos 8 meses.
Método para ajudar a criança a dormir
Quando Laura entrou na fase mais difícil para dormir, pesquisei em todos os lugares que podia um método para ajudá-la. Porque o sono interrompido demais a deixava cansada e irritada o resto do dia, e ficávamos todos muito estressados! Aprendi então que estava fazendo muita coisa errada! Li que não devemos fazer o bebê dormir ao colo, porque ele pode estranhar a diferença do balanço e do aconchego quando deitado no berço. Também não devemos ficar "em cima", fazendo cafuné, cantando demais, porque pode deixá-lo ainda mais excitado. Começamos então a testar uma nova maneira, que não foi fácil de ela aceitar, mas que em uma semana resolveu nosso dilema! Quando se aproxima a hora e ela já está nitidamente cansada, falamos: "é hora de dormir", carregando-a até o quarto, com as luzes apagadas, ou só com um abajour bem fraquinho. No início, assim que era deitada, ela reclamava (e às vezes, ainda reclama!), mas eu aprendi a manter a palavra ! "Hora de dormir", falo, dou um beijinho, às vezes canto uma musiquinha, enquanto ela vai se remexendo, fechando os olhos e virando de lado. Saio do quarto quando ela ainda está acordada, e espero. Se a reclamação se transforma em choro intenso, volto, pego-a no colo um pouquinho, e continuo dizendo que é hora de dormir. Depois de acalmá-la, deito-a novamente. Se o choro persistir por cinco minutos, numa intensidade moderada, volto e ofereço uma água ou um suco. Geralmente, ela aceita e depois de tomá-lo vira de lado e dorme. Se o choro for diminuindo a intensidade, oba! é sinal de que logo dormirá. Às vezes, esse ritual todo nem é necessário! É capaz de ela dormir depois de uns minutinhos de reclamação... É normal, pois está passando de um estado de excitação para o relaxamento. Não adianta nada ficar brigando com o bebê nessa hora! Não adianta gritar! Não adianta bater! Dormir é um momento de relaxar. É melhor deixar chorando um pouquinho do que entrar numa briga com a criança nessa hora.
E fim!
Bom, eu espero ter contribuído a alguém com esse longo texto sobre como ajudar a tranquilizar uma criança! O que mais desejo é que as pessoas que o lerem entendam que bebês e crianças são seres humanos em desenvolvimento, que têm sua individualidade, mas também são dependentes demais do ambiente e das pessoas que os cuidam. Uma criança estressada, irritada, chorona, desobediente, geralmente, é fruto de um ambiente tenso e da falta de uma boa rotina. Eu recomendo a todas as mães e pais que pratiquem a comunicação e a sensibilidade com seus filhos!
