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É, já posso ouvir o ranger de dentes e os gritos inflados dos defensores radicais do parto humanizado, ao lerem o título deste post, afinal,
mercado e parto humanizado na mesma frase? Não são os obstetras "açougueiros" que marcam cesarianas, por questão de conveniência pessoal, os
mercenários do mundo da gestação e nascimento? Não são os obstetras (enfermeiras, doulas, parteiras) humanizados os "generosos" humanistas que lutam arduamente contra a mercantilização dos nascimentos?
Bom, antes que me julguem, me sinto em posição confortável para criticar ambos os lados, e dar uma
noçãozinha do
estado da arte do parto humanizado no Brasil. Como já relatei aqui,
meu parto foi natural, hospitalar (e quem me dera tivesse sido domiciliar), e participei de uma lista de discussão em torno da temática por tempo suficiente para entender melhor do que se trata este
mercado. Além disso, sou filha de uma ex-militante do parto natural (que teve dois hospitalares e dois domiciliares e continua apoiando essa escolha, sem radicalismos).
Ocorre que no Brasil, a precariedade da saúde pública incentiva a mercantilização da saúde: os médicos formam uma corporação poderosa, que tem muitas vantagens no serviços público e digamos, "cortam pros dois lados", servindo também aos planos de saúde. Para maximizar seus ganhos, muitos obstetras incentivam as parturientes a marcarem cesariana bem antes de entrarem em trabalho de parto, pois isso lhes permite atender mais pacientes e passar pouco tempo à disposição de uma mulher que pode ficar horas e horas em trabalho de parto. Aí, entra em ação um movimento social super importante, para denunciar os abusos cometidos por alguns desses médicos, que dão falsas justificativas para suas pacientes fazerem cesarianas. Ele não é novo e nem nasceu aqui, é herdeiro de um obstetra francês que vê na forma de nascer um evento determinante para a vida de todos os humanos. É claro que um movimento como esse é super necessário por aqui, já que 85% dos nascimentos de segurados dos planos é por cesariana.
Aí, entra em ação também os bordões, as palvras de ordem e os argumentos panfletários que desqualificam qualquer nascimento via cesária, insinuando que as mulheres que optam por isso são fracas e irresponsáveis, e que os profissionais que o fazem são manipuladores. Ok... às vezes são mesmo. Entra então em cena a equipe humanizada, que não aceita plano de saúde, e que cobra realmente caro para "garantir" que a mulher tenha um parto natural. E, pronto está formado o mercado do parto humanizado! Não se pode questionar preços, porque afinal "ter um parto natural, acompanhado por uma equipe humanizada, não tem preço!".
Eis que surge do fundo do imaginário católico brasileiro aquela ingênua idéia de que dinheiro é coisa do diabo, lucro é para os maus, e os humanizados são sempre muito bonzinhos. É por isso que algumas pessoas passam pelo constrangimento de, no final do segundo tempo, com 39 semanas de gestação, receberem uma conta caríssima, depois de muito insistirem para saberem o preço, de R$10.000, para parirem em paz. Ou pior, só vão receber a notinha depois de nascido o filho, quando não cabe mais argumento.
É de muito mal gosto falar de dinheiro quando se trata de saúde, né? Desculpem... Mas, eu acho bem pior usarem uma bandeira tão importante quanto o parto natural para forjarem um mercado como esse. De qualquer forma, como lembro de ter lido na Bíblia uma vez, se os hipócritas querem falar de Jesus, deixem que falem, porque também estarão contribuindo para espalhar sua palavra. Eu espero, sinceramente, que os humanizados de verdade contribuam para que o parto natural seja uma realidade acessível para toda mulher brasileira.