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sábado, 29 de maio de 2010

O parto de cócoras e a mortalidade materna no Peru

Uma informação muito interessante me chamou a atenção no periódico médico Lancet (que infelizmente não pode ser livremente acessado, a não ser em instituições públicas ou com uma assinatura particular), num artigo sobre as mudanças nos países em que a saúde passou a ser direito básico há cerca de meio século. Pesquisadores concluíram que a cultura da população tem que ser levada em conta para os investimentos em formação profissional e melhora dos serviços, e citam um exemplo chocante, no Peru, onde a mortalidade materna ainda é alarmante. Concluiu-se que, neste país, a negligência ao hábito das mulheres indígenas e camponesas de parirem de cócoras é uma das causas de fracasso dos programas governamentais.

A Anistia Internacional ainda nos ajuda a compreender que a discriminação dessas mulheres e a desigualdade econômica são os fatores sociais determinantes dessa alta taxa de mortalidade entre as parturientes. É como se o sistema de saúde não "enxergasse" essas cidadãs como realmente são, tentando impôr uma prática médica importada e inadequada as suas necessidades. Elas, por sua vez, não confiam nas equipes médicas para fazerem o pré-natal, pois sentem-se discriminadas.

Esse triste exemplo serve para refletirmos sobre a importância de se entender a cultura e os hábitos de saúde das mulheres antes de se planejar e oferecer serviços obstétricos, ginecológicos, enfim, que objetivem a saúde materna. Vale ressaltar também que distorções, como o alto número de cesárias no Brasil, precisam ser combatidas com informação, educação, e o próprio resgate de nossa história como mulheres e como brasileiras (herdeiras da cultura indígena).

*Health systems and the right to health: an assessment of 194 coutries. In The Lancet, Londres, 13 Dezembro de 2008.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O mercado do parto humanizado no Brasil

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É, já posso ouvir o ranger de dentes e os gritos inflados dos defensores radicais do parto humanizado, ao lerem o título deste post, afinal, mercado e parto humanizado na mesma frase? Não são os obstetras "açougueiros" que marcam cesarianas, por questão de conveniência pessoal, os mercenários do mundo da gestação e nascimento? Não são os obstetras (enfermeiras, doulas, parteiras) humanizados os "generosos" humanistas que lutam arduamente contra a mercantilização dos nascimentos?

Bom, antes que me julguem, me sinto em posição confortável para criticar ambos os lados, e dar uma noçãozinha do estado da arte do parto humanizado no Brasil. Como já relatei aqui, meu parto foi natural, hospitalar (e quem me dera tivesse sido domiciliar), e participei de uma lista de discussão em torno da temática por tempo suficiente para entender melhor do que se trata este mercado. Além disso, sou filha de uma ex-militante do parto natural (que teve dois hospitalares e dois domiciliares e continua apoiando essa escolha, sem radicalismos).

Ocorre que no Brasil, a precariedade da saúde pública incentiva a mercantilização da saúde: os médicos formam uma corporação poderosa, que tem muitas vantagens no serviços público e digamos, "cortam pros dois lados", servindo também aos planos de saúde. Para maximizar seus ganhos, muitos obstetras incentivam as parturientes a marcarem cesariana bem antes de entrarem em trabalho de parto, pois isso lhes permite atender mais pacientes e passar pouco tempo à disposição de uma mulher que pode ficar horas e horas em trabalho de parto. Aí, entra em ação um movimento social super importante, para denunciar os abusos cometidos por alguns desses médicos, que dão falsas justificativas para suas pacientes fazerem cesarianas. Ele não é novo e nem nasceu aqui, é herdeiro de um obstetra francês que vê na forma de nascer um evento determinante para a vida de todos os humanos. É claro que um movimento como esse é super necessário por aqui, já que 85% dos nascimentos de segurados dos planos é por cesariana.

Aí, entra em ação também os bordões, as palvras de ordem e os argumentos panfletários que desqualificam qualquer nascimento via cesária, insinuando que as mulheres que optam por isso são fracas e irresponsáveis, e que os profissionais que o fazem são manipuladores. Ok... às vezes são mesmo. Entra então em cena a equipe humanizada, que não aceita plano de saúde, e que cobra realmente caro para "garantir" que a mulher tenha um parto natural. E, pronto está formado o mercado do parto humanizado! Não se pode questionar preços, porque afinal "ter um parto natural, acompanhado por uma equipe humanizada, não tem preço!".

Eis que surge do fundo do imaginário católico brasileiro aquela ingênua idéia de que dinheiro é coisa do diabo, lucro é para os maus, e os humanizados são sempre muito bonzinhos. É por isso que algumas pessoas passam pelo constrangimento de, no final do segundo tempo, com 39 semanas de gestação, receberem uma conta caríssima, depois de muito insistirem para saberem o preço, de R$10.000, para parirem em paz. Ou pior, só vão receber a notinha depois de nascido o filho, quando não cabe mais argumento.

É de muito mal gosto falar de dinheiro quando se trata de saúde, né? Desculpem... Mas, eu acho bem pior usarem uma bandeira tão importante quanto o parto natural para forjarem um mercado como esse. De qualquer forma, como lembro de ter lido na Bíblia uma vez, se os hipócritas querem falar de Jesus, deixem que falem, porque também estarão contribuindo para espalhar sua palavra. Eu espero, sinceramente, que os humanizados de verdade contribuam para que o parto natural seja uma realidade acessível para toda mulher brasileira.

sábado, 22 de maio de 2010

Os desafios da amamentação nos primeiros meses

Quero fazer uma breve observação sobre os desafios da amamentação nos primeiros 6 meses do bebê. Fiz uma lista com as dificuldades que vivi para cumprir com essa tarefa, e espero que vocês contribuam com mais alguns itens, ou comentem os que já estão aí! Porque cada vez que encontro mais mamães pela rede e pelo mundo, vejo que amamentar não é, para muitas, simplesmente uma questão de escolha, mas também de força e equilíbrio emocional. Como eu já contei em outra ocasião aqui neste outro texto, não consegui alimentar a Laura exclusivamente com o seio depois dos 3 meses de vida, mas encontrei uma alternativa a mamadeira e consegui manter uma boa rotina de aleitamento até seus 8 meses, quando ela mesma não quis mais mamar no peito. Mas, vamos à lista:

  • As dores nos ombros e no pescoço, que são inacreditavelmente fortes nos primeiros dias, porque ainda ficamos muito tensas com o bebê no colo, e ainda não encontramos as melhores posições.
  • A completa mudança da rotina, quando temos que adaptar tudo aos horários das mamadas, até mesmo a ida ao banheiro, o banho, o sono, as refeições...
  • A aparência quase sempre desgrenhada, que temos que encarar no espelho diariamente, jurando que "quando essa fase passar, vou voltar a me cuidar".
  • A ansiedade e pressão das avós e companhia, para que o/a bebê se "desapegue" logo da gente, e portanto mame menos, para poder ficar o dia todo (e até a noite) na casa delas - eterno sonho da minha sogra!
  • A nossa própria ansiedade de querer voltar ao ritmo profissional de antes.
  • As feridas nos bicos dos seios, que precisam ser cuidadas sem prejudicar a alimentação do/a bebê.
  • O endurecimento desagradável dos seios e o risco de empedramento, quando passamos mais do que 3 horas fora de casa sem amamentar.
  • Ter que amamentar em público, em algumas ocasiões, vencendo a vergonha e o medo dos "tarados" inconvenientes.
  • A dificuldade de vestir as velhas blusas preferidas, e a escasses quase total de sutiens de amamentação bonitos e sexies.
Por todos esses motivos, amamentar requer um enorme despreendimento. É um ato que mexe com nossa identidade feminina, ajuda a construir nossa identidade materna, e no final das contas nos dá uma profunda satisfação. Eu posso dizer que,  ao final dos 6 meses, quando Laura ainda mamava 3 ou 4 vezes por dia, mesmo comendo frutas e papinhas salgadas, eu me sentia "mais mãe", mas também estava esgotada fisica e mentalmente. Foi quando decidi voltar a fazer terapia, e consegui juntar forças para continuar a amamentar, ninar, brincar, dar banho, trocar as fraldas, todo esse pacote chamado maternidade... 

Na foto: eu cansada, desgrenhada, e feliz, com a Laura super gordinha com quase 4 meses de idade (se olhar com atenção, dá pra ver o detalhe do enorme sutien feio e bege!).  



segunda-feira, 17 de maio de 2010

Mãe mamífera e mãe profissional

Este título é, na verdade, de um texto meu publicado hoje no novo blog Mãe é tudo igual, da Vanessa Anacleto (última contribuinte da Série Mães que Contam). Ela publicou a primeira parte hoje e fará o mesmo com a segunda parte amanhã. Taí um trechicho, se interessar, vá lá no blog da Vanessa e confira o resto!

(...) Mas, eu parto da premissa de que toda mãe deseja o melhor para seu filho: a "mamífera", que assume inteiramente a tarefa de parir, alimentar e proteger ou a "profissional", que prefere contratar todo tipo de serviço que a substitua, inclusive no nascimento da criança (como nas cesarianas que não têm justificativa plausível). E assim, vemos uma quantidade de mães que, mesmo amando suas crias, optam pelas soluções da era tecnológica em detrimento do que é mais natural e saudável para seu filho.

domingo, 16 de maio de 2010

Ser mãe pelo mundo


Além da série sobre o primeiro ano de maternidade, o blog está estreiando uma série sobre a maternidade ao redor do mundo. Como pesquisadora e profissional da Saúde, sempre me perguntei quantos tipos de experiência de maternidade devem existir neste mundo! A série Ser mãe pelo mundo é uma tentativa, um exercício, de abrir meu campo de visão e refletir sobre tais experiências. 

Começamos por divulgar um rankig, o 11º Mother's Index, feito pela ong americana Save the Children, que indica os melhores e piores lugares do mundo para ser mãe. O ranking é apenas um dos resultados da pesquisa e do relatório anual da ong, e é interessante por incluir as variáveis mulheres e crianças, ou seja, um bom lugar para ser mãe é aquele que oferece políticas e serviços de saúde, educação e oportunidades econômicas para os dois grupos, e não apenas que tem a taxa de mortalidade materno-infantil baixa. Ele leva em consideração a qualidade de vida das mulheres, certo de que isso é determinante na qualidade de vida dos filhos. O Brasil está em 15º entre os países em desevolvimento, porém no quisito crianças fica em 19º lugar.

Leve o banner de divulgação da série para seu blog e chame seus leitores para esse debate tão importante!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Gente, a Mari Moscou publicou um texto de minha autoria lá no blog dela, o Mulher Alternativa. O texto tá grandinho (eu ainda não aprendi a ser mais objetiva... sorry!), mas foi muito prazeroso escrevê-lo e espero que também seja lê-lo.

Taí o comecinho:

Mãe pós-moderna

Sou uma mãe pós-moderna, e não há nada de presunçoso em afirmar isso. Sou uma típica herdeira das revoluções vividas por minha mãe e ando em busca de uma identidade perdida. Este texto é uma das tentativas de encontrá-la, e foi escrito especialmente para o Mulher Alternativa.

Quando engravidei em 2008, não era casada, não tinha planos de ter filhos, e tinha acabado de me mudar para dividir um apartamento e ganhar um pouquinho mais de independência. Eu estava no segundo ano do mestrado, me planejando para tentar fazer o doutorado no exterior. Mas, estava namorando, com meu parceiro de vida, meu caso inexplicável e complicado que começou em 2002 e sobrevive até então. A gestação foi uma surpresa e uma decisão, porque chegamos a pensar em abortar – apesar dos impedimentos legais e da polêmica bem à brasileira que teríamos que enfrentar – e resolvemos assumir a novidade como uma experiência que nos mudaria definitivamente, só não sabíamos para onde!


domingo, 9 de maio de 2010

O primeiro ano de maternidade não é um carrossel!

Nas ruas de Paris (um dos poucos lugares que conheço fora o Rio de Janeiro, para minha vergonha) a gente vê muitos carrosséis daqueles antigos, que aparecem em filmes e fazem parte do imaginário sobre uma infância perfeita e feliz. Não é fácil encontrar um desses por aqui, pricipalmente ao ar livre. Eles são lindos, encantadores, mas chatos. É ou não é chato ficar rodando minutos a fio num cavalo que chacoalha pra frente e pra trás? Os pequenos até gostam, mas enjoam rápido, né? Pois, se o carrossel pudesse ser usado para ilustrar nosso estado de espírito durante o primeiro ano "encantado" de maternidade, isso significaria que ser mãe é algo tranquilo, previsível e romanticamente chato.


Não, ser mãe de um bebezinho não é um passeio no parque, nem uma volta alegre em um carrossel, é mais uma viagem ao trem fantasma ou uma rodada na maior montanha russa de todos os tempos! Se você está neste momento vivendo os três primeiros meses de seu filho/a, e sente-se aterrorizada com o volume e a persistência do choro, as sessões de cólicas, as mamadas eternas, o festival de cocô, dentre outras coisas, não se culpe! Todas nós podemos viver momentos de intensa angústia e profunda alegria nesse período. Mesmo que você tenha duas babás, uma empregada doméstica, e um companheiro super presente, além das matriarcas da família dando dicas e sugestões, é totalmente normal que sinta um esgotamento físico e mental por estar inteiramente ligada em seu bebê (no meu caso, não tive babás, mas acredito que mesmo para quem tenha pode ser assim - assunto para outro post). Não é apenas um teste de resistência física, mas uma prova para a estabilidade emocional. Em muitos casos, a mãe não se preocupa em manter aquele velho equilíbrio, e entrega-se à intensidade da situação, sofrendo como nunca havia antes, mas amando de uma maneira completamente renovada. Meus primeiros meses foram assim: entre o choro emocionado enquanto obervava Laura mamar feliz da vida em meu seio, e o choro de desespero por não saber o que fazer para melhorar as cólicas, e as noites mal dormidas (com direito a confusão mental, beirando alucinações!).


Nessa tentativa de retrospectiva de meu primeiro ano como mãe, não posso deixar de fora o evento da "confusão mental" citado acima. Mas, não se assuste, é mais um motivo pra rir! Foi um looping dos mais altos nessa montanha russa! Durante os primeiros dez dias de Laura, eu tinha muito leite e ela mamava bastante, em intervalos de 3 horas durante a noite. Marcelo a pegava no berço quando chorava e a trazia para nossa cama, para eu amamentá-la, e depois colocava-a novamente no berço. Eu estava tão cansada que pedia para ele ficar acordado porque tinha medo de dormir e deixá-la cair de meus braços. Às vezes ele não conseguia, e eu também acabava cochilando, mas sem deixá-la cair! Por três noites, acordei no meio da madrugada, desesperada, procurando pela Laura. Meu coração disparava, eu suava e percebia que estava febril. Acordava o Marcelo nervosa, perguntando "cadê a Laura?!", e ele ria e dizia que já tinha a levado para o berço há muito tempo! Num desses dias, porém, o papai estava tão exausto quanto a mamãe. Quando perguntei por ela, ele levantou nervoso, pegou na minha perna e disse ainda sonolento "está aqui!", ao que respondi "Marcelo, essa é a minha perna!". Ele correu para o quarto dela e a viu dormindo lá satisfeita e tranquila! Voltou e me disse surpreso "ela tá no berço!", ao que respondi "como ela foi parar lá?!". Voltamos a dormir sem nos dar conta da viagem mental que havíamos feito, e no dia seguinte rimos demais do fato! Aliás, até hoje, quando lembro, é impossível não rir!


Depois, conversando com minha irmã Joana, que é mãe de dois, e já participou aqui da Série Mães que Contam, percebi que esse tipo de situação é comum durante a adaptação da mãe a chegada do bebê e a amamentação. O problema é que quando nos adaptamos a uma fase, somos atropeladas por outras novidades! Sabe aquela sensação de alívio quando, depois de vários loopings, e uma descida assustadora, o carrinho pega uma reta lenta, de cabeça para cima, e somos surpreendidos com uma nova descida de cabeça para baixo? Pois é...

 

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Série Mães que Contam: relato de Vanessa Anacleto

Depois de muito tempo sem publicar nada da série Mães que Contam, hoje temos a oportunidade de aprender mais um pouquinho com a experiência de Vanessa, editora do blog Fio de Ariadne, do qual sou leitora assídua. Advogada por formação e mãe por "acidente", Vanessa nos fala das mudanças em sua vida profissional após a vinda do filho. É interessante observar como a aceitação e compromisso com uma gravidez inesperada pode nos levar a ir mais fundo em nossos antigos sonhos e a construir novos projetos! Ser mãe é também ser mais autêntica, afinal!

Fiquei grávida aos 37 anos e apenas namorava meu marido na época. Por mais que nos amássemos a gravidez me pegou de surpresa. Não, eu não queria ser mãe. Não , eu não sabia como lidar com essa história de maternidade. Estava, profissionalmente, num momento de mudança, me preparando para deixar de militar como advogada para ingressar na literatura. Entre o susto e a consciência de que a gravidez era para mim, uma benção, passaram-se 10 dias. As mudanças que a maternidade traria para minha vida no aspecto profissional custariam mais a serem implementadas.

Durante a gravidez eu continuei trabalhando ainda que em menor número de horas, depois do nascimento do meu filho, fui deixando definitivamente a profissão que, há muito não enchia meus olhos. Agora, passados quase 3 anos, venho trabalhando para voltar à ativa intelectualmente. Ainda que não precise trabalhar fora e possa me dedicar ao pequeno, sei que logo ele não será mais tão pequeno e , intelectualmente eu devo continuar produzindo.

Este tema maternidade x trabalho é tão rico que escrevi um pequeno romance sobre a mulher que tem dificuldades para voltar ao antigo emprego depois do término da licença maternidade e venho tentando publicá-lo. Ainda que eu não tenha passado exatamente pelo problema da minha personagem, ainda esbarro com a culpa que a maternidade pode trazer a quem tem a graça de vivê-la.

Atualmente venho trabalhando para publicar meus textos e fazer disso uma atividade lucrativa. Engraçado que , ao contrário do que parecia no inicio, a maternidade acabou por me ajudar e motivar uma ruptura com o que eu queria mudar em minha vida me transformando num ser humano mais feliz.


*A Série Mães que Contam é composta por entrevistas e relatos de mães amigas e conhecidas que queriam compartilhar suas experiências com a maternidade. Se você, leitora, gostaria de compartilhar uma história conosco, mande um e-mail para: cfpbarros@gmail.com.

domingo, 2 de maio de 2010

Sobre o tabu de se falar do maior dos tabus

Ao ler o título do conto publicado ontem, aqui, meu marido levou um susto e perguntou "o que é isso?", como quem já condena o texto antes de lê-lo. Eu imaginava que isso iria acontecer e aposto que essa reação não foi exclusiva do Marcelo. Falar sobre a quebra de tabus sexuais é praticamente um tabu! Ninguém gosta de reconhecer que gente como a gente é capaz de ultrapassar o mais fundamental dos limites, prejudicando crianças e famílias inteiras. A princípio nos agarramos à ideia de que quem faz uma coisa dessas é um monstro, e portanto não tem nada a ver conosco, concluindo que não precisamos tocar num assunto tão desagradável.


Mas, a iniciativa do blog da Lola me inspirou. Em fevereiro, ela publicou a carta de uma leitora que tinha sua própria história de horror, envolvendo o abuso sexual de uma prima pelo avô, a complacência da avó e do tio da menina. O post é corajoso e incentiva outras vítimas a falarem sobre o assunto. Muitas mulheres têm tido essa coragem e acabam expondo histórias dramáticas de suas infâncias, o que é muito bom para quebrar com o tabu do silêncio ao redor do assunto, mas, por outro lado, não é suficiente para que os perpetradores de tal crime sejam condenandos, pelo menos socialmente. O quero dizer é que os relatos das vítimas evitam nomear os abusadores, e podem passar a idéia de que tal atitude, apesar de impensável, é muito comum e pode ser cometida por qualquer um! Não se dá nome aos bois, mas condenar a todo gado já é demais, portanto não se condena ninguém, a não a ser a própria vítima que, psicologicamente, carrega toda culpa do evento, e publicamente expõe sua privacidade.

Mas, veja só, meu conto, com sua licença poética, também passa longe de condenar o abusador. Ele se concentra no estrago que uma relação promíscua entre pais e filhas pode causar. Foi criado com as observações que tenho feito de diferentes casos de abusos, de diferentes formas de resposta que as vítimas costumam dar ao longo da vida. Existe uma série de estudos sobre isso, alguns podem ser acessados no scielo. Não acho que seja impossível se livrar da culpa, do ressentimento, da confusão que fica na cabeça da criança, mas sei o quanto isso é difícil. Sei o quanto é difícil tocar no assunto, assumir o sofrimento e estampar para toda a família incestuosa que aquele que deveria proteger e cuidar, abusa sexualmente.

Depois de ler um texto muito interessante entitulado "Visão atual do abuso sexual na infância e adolescência", de Luci Pfeiffer e Edila Pizzato Salvagni, no Jornal Brasileiro de Pediatria, que pode ser acessado aqui, entendi que o grande problema de se nomear o abusador é provocar o sofrimento em toda a família, que muitas vezes tem uma mãe assustada e confusa sobre sua responsabilidade no que aconteceu, e que assume o papel de testemunha silenciosa. Peço licença para citar as autoras: "Como parte de uma doença familiar, para que haja a denúncia do abuso sexual, é preciso que haja uma ruptura do equilíbrio doméstico que as pessoas se impõem, em uma distorção relacional denominada família incestuosa" (Pfeiffer & Pizzato, 2005).

A família incestuosa é aquela que convive com o abuso sexual e se estrutura de maneira a lidar com ele, sem extirpa-lo. Fiz parte de uma família assim. Mas, há cerca de três anos, temos lutado para eliminar a presença do abusador de nosso convívio. Ele foi oficialmente denunciado, não somente pelos atos cometidos há muito tempo atrás, mas pelo risco de continuar cometendo-os. Por isso, não posso cair na tentação de nomeá-lo aqui. Além disso, o Estado brasileiro ainda não tem diretrizes claras para lidar com esses casos, e portanto, não pode dar a devida segurança a quem faz a denúncia. Mas, assumir o ocorrido é parte fundamental da cura de uma família incestuosa e principalmente da vítima.

Por isso, queridos(as) leitores(as), espero que, apesar do mal estar que tal assunto possa causar, este texto tenha sido útil. Obrigado por terem permanecido fimes até o fim da leitura!