Hoje eu quero falar sobre minha experiência com a amamentação de Laura, que está com um ano e três meses e mamou ao seio até os oito meses. Este relato tem a principal intenção de chamar a atenção para uma série de elementos que contribuem ou atrapalham a amamentação natural e tranquila. Ele deve servir principalmente para mulheres grávidas ou que planejam engravidar, para que se preparem e tomem suas decisões previamente de forma consciente. Eu não consegui fazer isso como gostaria e vou lhes contar porquê.
Quando engravidei não era casada e estava no meio do mestrado. Foi um tremendo susto engravidar sob o efeito da pílula de emergência (depois de ter dado uma pausa de duas semanas no anticoncepcional)! Mas, depois de tomadas as devidas decisões, casei e prossegui com o mestrado, trabalhando em casa até praticamente o nascimento de Laura. Nesse período fui atrás de informação sobre o parto natural e me preparei bem para ele. Laura nasceu em apenas 4 horas de trabalho de parto e veio para o seio logo depois, ainda com o cordão umbilical. Eu tinha muito leite, e ela muita vontade de mamar! Inicialmente, parecia um reloginho, mamando de duas em duas horas, durante aproximadamente 40 minutos.
Não tínhamos dinheiro para babá ou empregada, apenas uma diarista que nos ajudava com a casa e a comida. Tínhamos decidido não contar com a ajuda de nossas mães ou irmãs em nossa casa nos primeiros dias, porque queríamos construir com autonomia nossa própria rotina e uma relação mais autêntica com a Laura. Eu tinha presenciado o primeiro mês de vida de minha sobrinha, que teve muitas dificuldades para mamar, mesmo em meio a ajuda da avó e das tias. Eu tinha a intuição de que as avós me atrapalhariam com sua ansiedade, e preferi ficar mais sozinha, com o telefone do lado para eventuais necessidades. Taí a primeira decisão delicada que precisa ser pesada e bem consciente. As duas coisas podem acontecer: as "dicas" das avós podem se tornar pressões, deixá-la estressada e antecipar o desmame, ou a presença delas pode contribuir para que você esteja mais descansada e possa amamentar tranquilamente. Sobre isso você não vai ter total controle, mas tente refletir sobre os prós e os contras e se planeje para lidar com seu contexto. Minha mãe, por exemplo, queria dar chupeta para Laura desde os dois meses de vida, porque me via muito cansada e temia pela minha estafa. Ela trabalhava e não podia me ajudar presencialmente, no dia dia, mas dar essa sugestão foi uma forma de me preservar - do seu ponto de vista. Eu fiquei um pouco confusa, porque realmente estava cansada, às vesperas de defender o mestrado (o que ocorreu quando Laura tinha 2 meses e meio de vida). Laura não quis a chupeta e eu não deixei minha mãe insistir.
Minha sogra estava muito emplogada com a vinda da primeira neta e queria estar presente o máximo possível e fazer tudo que fosse possível para ajudar. Mas, sua ansiedade também não contribuiu muito. Ela não entendeu minha decisão de ficar mais sozinha com a Laura nos primeiros dias e se entristeceu com isso. Eu ficava me sentindo incompreendida e resistia cada vez mais à sua ajuda. Até que um dia fiquei doente, com dores horríveis no intestino, decorrentes de uma síndrome que eu nem conhecia. Tive que ir ao hospital e deixei Laura com ela, em minha casa, com as devidas instruções. Deixei claro que ela não deveria tomar banho antes que eu chegasse, porque isso ia incentivá-la a mamar (eu já conhecia muito bem minha pequena), e mesmo tendo deixado uma mamadeira com meu leite, ela só deveria usá-la em último caso. Minha angústia foi enorme ao ligar para casa 40 minutos depois e saber que minha sogra estava dando banho na Laura! Fiquei tão chateada que, mesmo cheia de dor e sem ter sido atendida, voltei para casa, antes que Laura quisesse mamar. É claro que minha sogra não fez por mal. Ela queria curtir a neta o máximo possível. Ela queria me ajudar. E talvez eu não tenha conseguido esclarecer meus motivos para evitar a mamadeira e preservar a rotina da gente.
Depois desse episódio, segui tentando dar conta de tudo praticamente sozinha, com o apoio fundamental de meu marido - que inclusive acordava todas as madrugadas para trocar a fralda e trazer a Laura para mamar. Mas, no terceiro mês, entrei numa estafa física que me deixou com o pescoço imobilizado. Tive um tremendo torcicolo que só veio piorar a situação de minha coluna (que já tem três curvas de escoliose e é praticamente um fenômeno ortopédico!). Minha irmã mais nova me ajudava quando podia e minha mãe também, mas as duas trabalhavam bastante. Foi quando a pediatra me recomendou introduzir uma fruta diária, diante de meu relato desesperado e de minha vontade de fugir daquele contexto e voltar a trabalhar. Mas, eu estava muito dividida: queria continuar amamentando, eu amava ter tanta intimidade com minha filha e poder dar a ela o melhor alimento, mas sentia que não estava aguentando e temia por chegar a um limite sem volta. Laura crescia muito, mais do que a média, e continuava mamando bastante. Introduzi meia fruta, substituindo uma mamada diária, e isso foi suficiente para que eu recuperasse um pouco a energia e continuasse a amamentar. Ela adorava as frutas e adorava o seio! Às vezes até mamava um pouquinho depois de comer a frutinha. Taí outra decisão importante: saiba que você não é a mulher-maravilha e que pode não dar conta de fazer tudo de acordo com a "cartilha". O ideal é que você encontre suas alternativas, com consciência. Eu não me arrependo de ter tomado essa decisão, e não acho que isso tenha influenciado o desmame precoce de Laura. Vou contar a vocês o que realmente motivou seu desmame espontâneo.
Aos sete meses dela, resolvi fazer um concurso para Santa Catarina (eu moro no Rio). Eu ainda não tinha me acostumado com a falta de trabalho, eu me sentia angustiada de não ganhar meu próprio dinheiro e de ter dado uma pausa na minha carreira profissional. Mas, eu também estava convicta que deixar a Laura 8 horas ou mais por dia longe de mim não era uma boa opção. O concurso me deu uma perspectiva de ter um emprego sólido e com horário flexivel dentro dos próximos anos. Eu tive que ficar dois dias fora, e como não tínhamos dinheiro para bancar a ida de um acompanhante, Laura ficou com o pai e a avó paterna. Ela mamou mei leite na mamadeira, com uma certa dificuldade e comeu fruta e papinha de legume (que já tinha sido introduzida ao final dos cinco meses). Esta decisão foi realmente delicada. Esse evento certamente influenciou no desmame. Quando voltei, ela mamou normalmente por alguns dias, mas ao completar oito meses, quando começou a engatinhar, passou a não querer mais o leite da mamãe. Eu ofereci algumas vezes, e ela ria, apertava o bico e se mexia para sair do colo. Meu marido e minha sogra comemoraram a forma espontânea e sem traumas com que o desmame se deu. A pediatra também fez coro e sugeriu a introdução do leite de vaca. Eu fiquei triste, mas não queria impor minha vontade à Laura e achei que todos ao redor estavam certos, e que minha insegurança era apego de mãe. Eu tinha muito, muito leite, mas desisti de oferecê-lo e não sabia que existia a possibilidade de re-lactação. Hoje, eu acredito que, se tivesse continuado a oferecer, inclusive após as refeições, ela teria voltado a mamar. Por isso, se ausentar por um longo período, durante o primeiro ano da criança é uma decisão muito delicada! Se puder, evite.
A partir de então começou a saga do leite substituto! A pediatra não soube me orientar adequadamente. A alergista condenou o leite que eu tinha escolhido. A terceira opção era caríssima e tinha conservantes. O pai de Laura desenvolveu um desequilíbrio imunológico sério devido ao alto consumo de conservantes e corantes, eu temi muito pela saúde de Laura. Eu sempre tive uma alimentação mais natural e como eu quis nesse período poder voltar a amamentá-la com o meu leite! Mas, já haviam se passado seis meses, e depois de toda a saga, com a mudança de pediatra, optei por um outro leite de soja, com menos aditivos e mais barato.
Estamos assim agora. Eu não passei no concurso, nem voltei a trabalhar integralmente. Descobri o mundo da maternidade consciente e tenho percebido que a sociedade contemporânea oferece muitas facilidades que, na verdade, atrapalham a relação saudável e íntima entre mãe e bebê. Estudiosa e amante de Winnicott (um excêntrico psicanalista do desenvolvimento), fui impactada recentemente por uma de suas frases:
"O que a mãe necessita é a chance de ser natural e de encontrar o seu caminho junto com o bebê, da mesma forma que outras mães encontraram seus próprios caminhos desde o alvorecer da história humana (...)" (Winnicott, 1990/1988, p. 125)
Portanto, prepare-se para enfrentar as adversidades, os desafios para a sua espontaneidade e naturalidade. Deixe bem claro para seus familiares as suas escolhas, preserve sua intimidade, mas também não tente ser uma super-mulher que dá conta de tudo. Priorize seu momento com o bebê, e deixe que o resto vá se adaptando ao primordial. Talvez as pessoas não consigam facilitar a sua experiência, mas não se culpe por isso. Há muitos elementos que influenciam uma experiência frustrada, e um deles é a falta de apoio, seja ele pessoal, familiar ou público. Porque não basta só uma campanha pró-amamentação! Políticas públicas de apoio e valorização da maternidade consciente, em prol da saúde da mulher no puerpério fazem muita falta! E, se você, como eu, tentou mas acabou seguindo caminhos confusos, não se culpe. Continue a lutar para que outras mulheres tenham experiências melhores. Amamentar não é uma obrigação, é uma escolha, que deve ser respeitada.
Manifestamos pelo direito de amamentar a cria, sem ser pressionada por profissionais da saúde mal formados ou parentes bem intencionados, a substituir por mamadeira, o alimento que só o seu peito pode dar.
Assine nosso Manifesto: http://www.grupocria.com.br/
"O que a mãe necessita é a chance de ser natural e de encontrar o seu caminho junto com o bebê, da mesma forma que outras mães encontraram seus próprios caminhos desde o alvorecer da história humana (...)" (Winnicott, 1990/1988, p. 125)
Portanto, prepare-se para enfrentar as adversidades, os desafios para a sua espontaneidade e naturalidade. Deixe bem claro para seus familiares as suas escolhas, preserve sua intimidade, mas também não tente ser uma super-mulher que dá conta de tudo. Priorize seu momento com o bebê, e deixe que o resto vá se adaptando ao primordial. Talvez as pessoas não consigam facilitar a sua experiência, mas não se culpe por isso. Há muitos elementos que influenciam uma experiência frustrada, e um deles é a falta de apoio, seja ele pessoal, familiar ou público. Porque não basta só uma campanha pró-amamentação! Políticas públicas de apoio e valorização da maternidade consciente, em prol da saúde da mulher no puerpério fazem muita falta! E, se você, como eu, tentou mas acabou seguindo caminhos confusos, não se culpe. Continue a lutar para que outras mulheres tenham experiências melhores. Amamentar não é uma obrigação, é uma escolha, que deve ser respeitada.
Indicações de leitura:
Eu Amamentei! da Ceila Santos do Blog Desabafo de Mãe
Amamentar não é um ato de amor; de Taís Vinhas do Blog Ombudsmãe
Donnald Winnicott; Natureza Humana, Ed. Imago, 1990
Mãenifesto pela amamentação:
Manifestamos pelo direito de amamentar a cria, sem ser pressionada por profissionais da saúde mal formados ou parentes bem intencionados, a substituir por mamadeira, o alimento que só o seu peito pode dar.
Assine nosso Manifesto: http://www.grupocria.com.br/



