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domingo, 29 de agosto de 2010

Onde fica Fernandópolis: sobre drogas e vulnerabilidade

Estou cansada, passei o dia inteiro estudando e preparando um esboço de projeto de doutorado. Estou exausta, mas preciso falar sobre o que acabei de ver na televisão. 

Comendo minha tangerina, antes de deitar, resolvi ver um pedacinho do Fantástico, na Globo, o que não faço há muito tempo! Primeiro uma reportagem sobre as mudanças no litoral brasileiro - interessante. Com aquele usual tom de alarde: cuidado porque sua casa pode ruir a qualquer momento! Mas, isso não me impressionou. O que me faz escrever agora é a reportagem sobre o consumo de drogas nas ruas de uma cidade que eu nunca ouvira falar: Fernandópolis. Parei para vê-la toda, porque, por coincidência, fui chamada para dar uma aula na próxima semana sobre dependência química e vulnerabilidade social. Imagens de menores, ou supostamente menores, com os rostos camuflados por efeitos especiais, cheirando cocaína sobre os carros, em ruas aparelhadas com câmeras escondidas. A reportagem comenta que em 2005 foi criada uma lei local para proibir o livre acesso de menores de idade nas ruas a partir das 23 horas, como medida para prevenir o problema. Mas, a tal lei não estava sendo respeitada, aparentemente. Imagens de jovens correndo em motos, gritando, conversando sobre a "pureza" da cocaína, deixam claro que, paralelamente àquela secretíssima investigação, ocorria o descaso e a ausência das autoridades - diga-se de passagem: policiais, conselheiros tutelares, pais e responsáveis por aqueles menores.

Eu não sabia que sob uma Constituição que garante o direito de ir e vir, um juíz podia determinar que à algumas pessoas, sem condenação criminal, pode ele ser usurpado. Bela solução! Se os adolescentes consomem drogas ao ar livre, a noite, prendamo-los em seus esconderijos para que não façam essa afronta diante de nós! Assim, Fernandópolis passa a ser uma espécie de laboratório social, onde se experimentam os resultados do descaso misturado a repressão ilegal. Hum... isso me lembra um passado que tentamos sempre esquecer... me desculpem, mas preciso nomeá-lo: ditadura militar.

Aqui no Brasil é corriqueiro ver os jornalistas estigmatizando consumidores de drogas como criminosos, como se assim fizessem o favor público de cobrar atitude das autoridades. Em Fernandópolis, encontraram o bode expiatório perfeito: no meio de tantos menores com as faces camufladas, eis que se estampa o rosto de um negro, aparentemente com dezenove anos, entitulado "traficante". Como todos são, aparentemente, de classe média ou alta (já que portam motos, roupas e tênis de marca), não havia uma figura que encarnasse o pobre, traficante da favela. Então, o negro sorridente e encasacado serviu. A imagem que encerra a reportagem é dele, sem camisa, algemado, entrando no camburão. Atenção cidadãos de bem: fiquem tranquilos porque o juíz e a polícia de Fernandópolis conseguiram uma façanha! Resolveram o problema do consumo de drogas em sua cidade! E viva a repressão! E viva a usurpação de nossos direitos!

Para mim, essa é uma história de vulnerabilidade generalizada: do jovem negro eu nem preciso mais comentar, dos demais, eu só consigo pensar: "ei, vocês não têm nada mais inteligente para fazer?", "ei cadê sua mãe e seu pai?". Destes eu tenho até uma certa pena - quem já conviveu com dependente de drogas na família sabe porquê. Há diversas razões para uma pessoa usar e se viciar numa substância química. Então, a gente tem tomar muito cuidado para não sair culpando os pais, de imediato. Lembrei de um trecho do texto que escrevi, em parceria, sobre esse assunto:

"Valores culturais, significados pessoais, acesso, oferta, predisposição genética, contextualização social e familiar, história de vida, políticas públicas são alguns fatores que podem influenciar a formação ou a mudança de um hábito ou comportamento, como os que configuram um vício ou compulsão. A identificação de diversas implicações sociais e individuais do abuso de drogas aponta para a caracterização deste como problema de saúde pública. Este reconhecimento demanda intervenções que ultrapassem juízos morais, exigindo um olhar aberto às múltiplas dimensões e não somente à ótica biomédica. Assim, destacamos que as intervenções sobre a questão das drogas são do campo da saúde pública porque requerem a integração, promovida por este campo, de diferentes áreas do conhecimento, como a medicina, a psicologia, a educação, a epidemiologia entre outras." (Pombo-de-Barros & Fernandez, 2008)

No caso da cidade de Fernandópolis, o consumo parece parte de um ritual de socialização, mas não dá para a gente tirar conclusões, porque a reportagem não se prestou a informar sobre o acesso desses jovens a cultura, ao convívio familiar, a educação formal, a valores de solidariedade e cidadania. Porque esclarecer essas faltas seria responsabilizar principalmente os governantes. Por outro lado, se nada disso está faltando, e mesmo assim a prática continua, poderíamos concluir que a ausência é mesmo de educação familiar. Mas, responsabilizar mães e pais de famílias de classe média - principais consumidores de Fantástico e cia - é dar um tiro no pé, né Rede Globo? Então, ela faz inclusive o favor de exibir uma mãe, brigando de levinho com a filha, ao buscá-la no Conselho Tutelar: "seu pai falou que era pra eu não vir buscar você! Já sabe, né? Escola e castigo!"

Enfim, fica o meu apelo para que se alguém aqui conhecer de perto a cidade de Fernandópolis e como é ser jovem nesse lugar assombrado, por favor, se pronuncie!  

* Leitura sugerida: POMBO-DE-BARROS, C. F. & FERNANDEZ, V. Reflexões sobre o campo da psicologia e o uso abusivo de drogas. (Este texto é parte do livro Álcool e outras drogas: atualização profissional para atenção ao uso prejudicial e dependência, que está em processo de edição pela editora Fiocruz).

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mamãe, eu quero ser dona de casa!

As crianças começam a responder a famosa pergunta sobre o querem ser quando crescer muito cedo. Outro dia ouvi o caso da menina de cinco anos que quer ser dona de casa, contrariando a mãe - que trabalha o dia inteiro numa grande empresa. Lembrei do meu marido brincando com meus brios, questionando qual seria minha atitude caso a Laura desejasse ser uma dona de casa conformada. Eu ficaria triste, certamente. Talvez tivesse com ela uma conversa séria, no tom da que minha mãe teve comigo quando decidi fazer psicologia:

- Minha filha, você tem certeza de que quer fazer psicologia? Não é melhor fazer um concurso público? (Ou seja: minha filha, psicologia não dá trabalho, não dá dinheiro, você quer mesmo sofrer desse jeito?).

Eu escolhi uma profissão tipicamente feminina, que é sim mal remunerada e que ainda é pouco valorizada no Brasil. Mas, eu fui insistente e no mestrado, para reforçar ainda mais meu padrão, fiz Saúde Pública, estudei Política Social e encasquetei com um tema espinhoso: Cidadania. Eu brinco com uma amiga que fez praticamente a mesma formação que eu, dizendo que nós escolhemos ser pobres! Mas, a verdade é que nós temos esperança de mudar alguma coisa nessa sociedade imediatista, que ainda não abraçou a idéia de que o bem estar social e subjetivo das pessoas gera benefícios para todos - vide as sociedades com Estados de Bem-estar Social européias. Ok... crises aparecem, desafios enormes se colocam e grita-se: Um outro mundo é possível! nos Fóruns Sociais. Mas, ainda não se sabe concretamente que ideal de mundo sustentar. Mesmo nas sociedades onde se preza pelo bem-estar, as políticas estão tomando rumos diferentes, as pessoas estão confusas  e elegem governantes conservadores para depois esbravejarem contra os cortes nos investimentos públicos.

Mas, isso aqui não é palanque e eu vou mudar o rumo da conversa. A questão é que a perspicácia da menina que quer ser dona de casa me surpreendeu! Ora, a mãe dela provavelmente não pára em casa, vive estressada com as demandas do trabalho, esforçando-se para não ser ausente, e passa uma imagem atribulada do que é ser uma mãe que trabalha fora. Imagino que ela tenha satisfação pessoal por ter construído uma carreira, por não ter aberto mão de seus sonhos profissionais por causa da maternidade, mas como ela não deve se sentir ao escutar a filha afirmar que quer fazer o oposto? Isso me faz pensar na terrível luta que nós, mulheres, temos que travar para conciliar vida pessoal, profissional e maternidade. E aí, eu li na entrevista citada no post sobre a Avaliação das Creches no Brasil, que estamos avançando com uma política de Educação Infantil que não coloca mais as creches como serviços "sociais" que permitem à mulher trabalhar, mas como dispositivos de Educação para as crianças - e isso é bom.
E agora eu me pergunto: será que é um avanço ignorar a função primordial das creches e de todos esses dispositivos que se direcionam à saúde dos bebês? Será que não é hipocrisia dizer que a função principal desses serviços é de promover o desenvolvimento dos filhos? Porque o fato é que as creches, as babás, os parquinhos, as brinquedotecas, os fraldários nos shoppings e restaurantes, etc. são importantíssimos para garantir o bem-estar materno! Eles fornecem a segurança e a tranquilidade necessárias para se voltar a trabalhar, se ausentar de casa e voltar a tocar os projetos pessoais, para se ter momentos de lazer sem transtornos rotineiros, para fazer do passeio matinal com o bebê um momento de prazer e não de sufoco, protegendo-o da sujeira, dos carros, do ambiente inadequado. Infelizmente, como nossas instituições são mal preparadas, a gente sofre para achar alternativas.

Então, é claro que a saúde de nossos/as filhos/as é nosso foco. Mas, até que ponto ele não é usado para impedir a visão sobre nossas próprias necessidades? Eu não quero que minha filha me veja tão estressada a ponto de querer ser meu oposto! E já estou aqui pensando: por que ela iria querer ser psicóloga e pesquisadora, ter que trabalhar e estudar uns dez anos antes de obter algum retorno justo?  E eu tenho esperança: talvez aos cinco anos ela dirá que quer ser modelo, mas aos quinze já vai poder entender que minhas escolhas profissionais contribuiram para diminuir a desigualdade e melhorar a qualidade de vida das mulheres (pelo menos espero que a vocês, minhas leitoras, eu esteja ajudando um pouquinho...). 

Pense nisso e participe da nova enquete do blog! Com ela pretendo saber  de você, mãe, qual é sua experiência subjetiva em relação a creche ou pré-escola de seu filho. Você está feliz com a escolha que fez? Ainda sente-se insegura? Vive dividida? Está satisfeita? Por favor, vote em apenas uma opção e aproveite para comentar o que pensa aqui!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Avaliação das creches brasileiras: para chorar!

É para chorar e se lamentar profundamente! Os resultados de uma pesquisa inter-institucional em seis capitais brasileiras, publicado no blog do Curso Cidadania e Educação, mostra a realidade de nossas creches e pré-escolas. A pesquisa não diz se foram visitadas creches públicas ou particulares ou ambos, mas como a oferta é majoritariamente privada, imagina-se que a amostra da pesquisa também tenha sido. De qualquer forma, a verdade é que não há muita diferença entre as instituições. Aqui no meu bairro, por exemplo, onde há muitas escolas de vários tamanhos, a semelhança entre as creches é grande. 


Mas, vamos ao motivo de meu lamento: em todos os ítens avaliados, as médias gerais das creches ficaram abaixo do "adequado", com exceção do ítem "interação". As "atividades" e a "rotina de cuidados pessoais" ficaram abaixo do "básico", ou seja, foram consideradas inadequadas. Não é por acaso que minha filha, nos últimos dois meses, durante a adaptação na creche, já pegou três infecções. Hoje tive uma conversa importante com a coordenação, que continua enchendo a turma dela e reluta em contratar mais educadores/as para dar conta das demandas. A chupeta já se perdeu algumas vezes, os colegas vivem com os narizes escorrendo, a berçarista foi "flagrada" usando a mesma colher para alimentar dois bebês... E dizem que a quantidade de viroses e infecções é causada pelo inverno! Depois inventam uma vacinação coletiva para catapora, com um laboratório particular que, gentilmente, pela pechincha de 130 reais por criança, vai aplicar as doses "in locus". Depois de eu reclamar e fazer meu papel de mãe-presente-chamada-de-chata, promessas foram feitas e ficamos combinadas de observar o rumo das coisas. Conclusão: se Laura adoecer novamente, desisto!

Para a maioria das pessoas, com quem comento minha insegurança, isso é só uma fase, porque toda criança fica doente quando começa a frequentar a escola. Mas, eu fico pensando se nós não já estamos acostumadas/os a nivelar por baixo seus serviços, sem expectativa de que nossas crianças possam ter o atendimento adequado quando estão longe de casa. Eu não, eu continuo sendo uma otimista e, confesso, exigente. Como a pesquisadora Maria Malta da PUC-SP comenta na reportagem, a política pública de Educação Infantil no Brasil ainda é recente e caminha devagar (a aprensetação em Power Point com todos os dados pode ser acessada por um link neste post).

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Bla bla bla sobre "parto caseiro"

Não é possível ficar sem se manifestar sobre o bla bla bla de uma reportagem no Olhar Virtual da UFRJ sobre o que eles chamaram de "parto caseiro"! A Bianca Lanu do Parto no Brasil fez um post sobre isso, e nos deu a oportunidade de testemunhar o absurdo que os dois obstetras da Maternidade Escola falaram. Por favor, se você está se preparando para um parto normal, não se deixe levar pelos mitos propagados pela reportagem, manifeste-se contra essa postura preconceituosa e mal embasada. Pena que não há como comentar na página da reportagem...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Eu quero uma creche parental!

Depois de ler o artigo de Daniel Kahneman e colegas, indicado pela reportagem Why parents hate parenting, afirmando que as mulheres francesas têm mais prazer em ficar com os filhos do que as americanas, passei a pesquisar sobre as creches na França. Será que lá existe algo inovador? Será que as creches lá são todas gratuitas e bem estruturadas? Será que por isso as mães podem desfrutar com mais prazer dos momentos com as crianças?

Depois de conhecer alguns sites interessantes e ler alguns artigos, comecei a levar a sério essa curiosidade. É ela que está me fazendo repensar o projeto de pesquisa para o doutorado. E mais, ela está me fazendo desnaturalizar idéias bem à la brasileira do que é uma creche. Descobri que, no universo multi-colorido da educação infantil francesa existem as creches parentais, que não são interamente gratuitas mas bem mais acessíveis e financiadas por diferentes parceiros (além do Governo). Elas surgiram na década de 1970, após a Revolução de 1968, pela iniciativa de pais e mães que não encontravam vagas nas escolas infantis da época e questionavam sua qualidade. Então, os criadores da creche parental se uniram em uma associação de pais, com os seguintes objetivos:


  • Organizar um modo de acolhimento coletivo em pequenas unidades (média de 16 crianças), nas quais os pais e mães assumissem um papel presente, junto aos filhos, com um complemento salarial permanente.
  • Favorecer uma transição tranquila e adaptada entre o meio familiar e o espaço coletivo.
  • Equilibrar melhor a divisão de papéis entre homens e mulheres no lugar de acolhimento e na família.
  • Refletir de forma regular sobre a educação e cuidados necessários ao bom desenvolvimento das crianças pequenas.
  • Promover um lugar de entrada e convívio, favorecendo a responsabilidade dos adultos junto as crianças.
  • Desempenhar um papel de cidadão ativo, propondo soluções funcionais e satisfatórias no domínio do acolhimento das crianças pequenas.

Ou seja, as creches parentais são gestadas pelos pais e mães. Eles também desempenham papel de educadores, de acordo com o regulamento acordado e aprovado por um médico especialista na saúde da criança e da mãe, e construido junto com pelo menos um profissional de educação. As creches são pequenas, e defendem o número máximo de 5 crianças (de até 3 anos) por adultos, enfatizando que o ideal é de apenas 3. Ela enfoca a participação das famílias, e por isso, os profissionais trabalham em total sintonia com suas demandas.  Apesar de ter crescido enormemente nas primeiras décadas de funcionamento, as creches parentais têm diminuído o número de ofertas de vagas, desde 2003, em função principalmente das políticas educacionais adotadas pelo governo Sarkozi. A ACEPP é a associação de todas as iniciativas parentais, e tem um site muito interessante que aborda o assunto. Vale a pena acessar, se você lê em francês.

Pensando nisso, fico irritada com a delicada relação que nós, mulheres brasileiras, temos com as escolas e creches de nossos filhos. É comum ver mães que se envergonham de perguntar, criticar ou fazer sugestões às professoras/es e diretoras/es. E não é comum ver profissionais de educação abertos para dialogar e aprender com os pais. Você sabia que a Referência Curricular Nacional para Educação Infantil recomenda que as famílias tenham acesso a todas as informações importantes sobre a estadia da criança na creche? Deveríamos conhecer os currículos dos profissionais, a carga horária de trabalho de cada um, o cardápio, as atividades diárias, enfim. Geralmente, podemos facilmente saber o cardápio do dia, mas nem ousamos perguntar quantas horas aquela professora está trabalhando, correndo atrás das crianças, subindo e descendo escadas, etc. (Uma vez perguntei e fiquei desesperada com a resposta: a professora estava trabalhando mais de 10 horas por dia! E ela também é mãe!).

Hoje, resolvi questionar quantas crianças estão matriculadas na turma de minha filha, no berçário II, porque percebi que havia duas novas. Nesses últimos dois meses a turma cresceu de 12 para 15 crianças! Isso dá uma média de 7 crianças por adulto. A diretora argumentou que, por lei, ela pode colocar 20 crianças na mesma turma, ao que respondi que se isso acontecer, Laura sairá da creche. Tenho certeza que várias mães, que trabalham integralmente, e deixam os filhos pequenos por mais de 6 horas diárias lá, não tem noção de como está a turma e também não se habilitam a perguntar e questionar essa situação. Afinal, se o que impera é a lógica do mercado, então nós, como consumidoras, não deveríamos pagar o mesmo preço para ter um serviço que vai piorando ao longo do tempo! Certo?

Eu não sei como é na prática o funcionamento das creches parentais francesas. Mas, fico pensando que seria muito legal fazer parte de uma associação de pais que tomam as rédeas da educação de seus filhos e não têm medo de encarar os modelos tradicionais. E você?

 *Leitura recomendada: 

- Daniel Kahneman e colgs. Time Use and Subjective Well-Being in France and the U.S. In Soc Indic Res (2009) 93:7–18.
- Les crèches parentalles In : http://w3.cerises.univ-tlse2.fr/dossiers/dossiers.php?id_dossier=2602&idparent=2561
-Les differents modes de accueil des enfants In: http://www.acepp.asso.fr/?Les-differents-mode-d-accueil-des
 

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Maternidade, plenitude e feminismo - hein?


Este texto foi escrito especialmente para o concurso de blogueirAs do blog Escreva Lola Escreva. A proposta da Lola é que a gente pense sobre a origem de nosso feminismo, escreva sobre isso e mande o texto para o concurso, para trocarmos nossas histórias e povoarmos a blogosfera feminina - que tem muita  coisa de qualidade, por sinal! Eu pensei bastante até me lembrar de que só fui assumir mesmo meu feminismo depois de me tornar mãe. Sabe aquele mito, muito propagado, de que a mulher só se sente plena depois de ter um filho? Contrariando minhas próprias expectativas, foi mais ou menos isso que aconteceu comigo, e vou explicar já - antes que minhas colegas feministas desistam deste texto!

Acontece que, aos vinte e cinco anos, vivendo há um ano financeiramente independente de meu pai, depois de fazer minha primeira viagem ao exterior bancada inteiramente por mim, depois me ver abandonada por uma orientadora no mestrado e correr em busca de outra, depois de me sentir emocionalmente livre para escolher o homem com quem eu queria namorar, transar, e compartilhar meus sonhos, com toda a liberdade e autonomia que eu vinha conquistando, me vi grávida!

 *Imagem: Escapism, Julia Pombo, 2009

A idéia de ser mãe me colocou diante de um dilema inédito: 1) assumir a responsabilidade pela vida de outra pessoa e assim continuar nesse incrível processo de amadurecimento em que já estava, 2) abortar e continuar a traçar meu caminho como se nada tivesse acontecido (gastando uma enorme energia para superar o trauma), 3) ou paralisar e deixar que a maternidade se apossasse de mim, sorrateiramente, sob as expectativas alheias.

Eu escolhi a opção número um. E quando descobri que esperava por uma menina, meu feminismo passou a orientar boa parte de minhas escolhas. Pra começar, tive que revirar uma história pessoal e familiar de opressão, machismo e violência silenciosa. Um trauma que eu havia soterrado sob as demandas do dia-dia de mulher independente, mas que nunca havia de fato sumido de minha memória. Tive que encarar os abusos de meu pai, que não haviam ficado só no passado, mas se perpetuavam numa relação ambivalente e autoritária que ele sustentava como a um troféu. Pensar que minha filha poderia sofrer o que eu sofri, me deu forças para abraçar meu feminismo e ir à luta contra meu opressor. Foi difícil desmascará-lo, especialmente para mim, que precisava tanto de uma referência de pai para doá-la a minha filha. Mas, o companheiro que eu escolhi se mostrou a cada dia um pai amoroso e verdadeiro - a referência que nós precisávamos.

Foi ele quem mais me desafiou a assumir de vez meu feminismo, apesar de nunca ter tido essa intenção. Em nossos debates acalorados, sobre a criação de filhos, a sociedade capitalista, a depressão, a vida, eu era volta e meia acusada de "parcialidade" por sair em defesa das mulheres. A nossa sociedade é escandalosamente mais difícil para uma mulher se desenvolver e ser feliz - e isso foi ficando cada vez mais evidente enquanto eu tentava lidar com meu trauma e me preparar para ser mãe de uma menina. Ele estava certo - eu estava sim sendo parcial, muitas vezes, em que tentava compensar as injustiças com que tantas mulheres se acostumam.

E aí, volto para a história da plenitude. Não foi exatamente a identidade materna que me fez sentir plena, foi a tarefa de assumir essa responsabilidade. Eu poderia simplesmente ter seguido o curso da vida, deixado a Laura nascer, engolindo as intervenções médicas desnecessárias, me submetendo aos desejos das avós, vestindo sem perceber uma couraça de mãe sem senso crítico, altamente consumidora das últimas novidades da maternidade profissional e tecnológica. Provavelmente, teria sido uma mãe expectadora e não protagonista de minha história.

Mas, eu encarei a violência de gênero, eu questionei a desigualdade nas tarefas domésticas, eu lutei contra o sistema de cesarianas em série e o mercado do parto humanizado. Eu fui protagonista do meu parto, do meu processo de amamentação, da pausa e do retorno à carreira profissional. Eu conheci outras mulheres lutadoras, que defendem a maternidade consciente sem ignorar a saúde da mãe. E o maior lucro que tirei de tudo isso foi, na verdade, o desconto do peso incalculável da mão violenta de meu pai, me tornando mais mulher do que nunca e mais poderosa do que eu poderia imaginar! Assumir o meu feminismo me fez plena, sem exigir que Laura seja a fonte de minha plenitude, deixando-a livre, portanto, para ser uma mulher mais feliz.

domingo, 15 de agosto de 2010

Série Mães que Contam - Conversa sobre casa de parto

Eu estava com saudade das entrevistas da Série Mães que Contam! Gostei muito desta, realizada com a Elly Chagas, mãe de Caetano e editora do blog Casa do Parto de Sapopemba. Foi exatamente sobre isso nossa conversa virtual: sobre sua experiência como parturiente nessa casa de parto. Poucas mulheres sabem da existência desse tipo de serviço, que é público e que torna muito mais acessível o parto natural. Aqui no Rio são pouquíssimas opções, infelizmente, mas é direito e dever das mulheres que defendem a humanização do parto lutar pelo investimento e multiplicação dessas "casas". Esta entrevista foi feita com a itenção de contribuir para que as pessoas se informem sobre essa possibilidade. Aproveitem e visitem o blog da Elly para ficarem ainda mais espertas/os!

Carol: Como você chegou à decisão de parir numa casa de parto?
Elly: Muito antes de engravidar tomei conhecimento desta opção pela imprensa. Um ano antes de engravidar, duas amigas passaram pela experiência de parir na CP Sapopemba, daí, quando me vi grávida, a decisão já estava tomada.

Carol: Como foi o seu pré-natal?
Elly: Meu pré-natal não foi na CP e por isso foi chatinho no que diz respeito às condutas dos Ginecologistas Obstetras. Frases como: `você não precisa sentir dor, deixa tudo comigo!` e outras prepotências médicas. Mas, a partir da 37a. semana, com o acompanhamento na CP, tudo ficou ótimo. Apenas a primeira consulta lá valeu por todas as tantas com os GOs. E, a cada consulta minha segurança de parir na companhia daquelas mulheres parteiras crescia e nem foi abalada por um Ultra Sonografia que dizia que Caetano pesava 4.500k

Carol: Você teve acompanhante durante o trabalho de parto e o parto?
Elly: Meu marido esteve comigo o tempo todo na CP. Só saiu um instante para tomar um lanche, mas acompanhou todo o processo de nascimento de Caetano.

Carol: Como foi seu parto? Teve necessidade de alguma intervenção?
Elly: Minha bolsa rompeu ainda em casa, mas Caetano permaneceu bem alto, e era bem grande. De início já não foi recomendada minha entrada na banheira, que tanto quis, pois ficar de pé favoreceria ele descer durante o TP. Não entrei em TP naturalmente e recebi ocitocina. Após 8h de TP, grande parte delas debaixo do chuveiro e na bola de pilates, Caetano permanecia bem alto. Para mim, dava para esperar, mas a parteira achou que deveria aplicar Kristeller (manobra que empurra o bb), mas não teve nenhuma postura agressiva, foi algo feito com respeito. Outra intervenção que esta sim considero totalmente desnecessária foi a episio. Não senti nada ali e a parteira q me acompanhou no plantão seguinte tb achou desnecessária, mas respirou aliviada qdo viu a proporção do corte. Disse que não foi grande o corte. Até hoje eu nem imagino a proporção, pois não senti nada relacionado à episio no pós parto, só sei q foi feita, pois a parteira me pediu para fazer durante o expulsivo. Caetano nasceu com 4270kg e 56cm, uma bossa na cabeça e muito cansado (assim como eu). Não abocanhou o peito ao nascer, mas mamou na primeira hora, já no quarto.

Carol: Como foi o contato com o bebê logo depois?
Elly: Foi lindo. Meu marido veio com ele logo após o primeiro banho. E as parteiras me auxiliaram a amamentar na primeira hora. Foi mágico!

Carol: Você indicaria uma casa de parto para outra mulher? Por quê?
Elly: Indico sim, pois ainda que a localização das casas de parto pareça um empecilho, num trabalho de parto saudável isto não é impecilho real. Fui de ônibus parra a CP Sapopemba, saindo de Santo André, com bolsa rôta. Em TP, claro que optaria por um táxi ou carro, mas raríssimos TPs duram menos que 2 horas e, se a mulher se preparar com uma doula, melhor ainda. Senti falta de uma. Indico e criei um blog para que esta indicação possa alcançar mais e mais mulheres. 

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Luana Piovani e o inimigo

 Vocês devem ter lido sobre a condenação de Dado Dollabela a dois anos e meio de prisão, em regime aberto, por agredir Luana Piovani quando eram namorados. O agressor não se desculpou, não reconheceu o erro publicamente, pelo contrário, preferiu afirmar que sua maior sentença foi ter namorado Luana. Provavelmente, muita gente concorda com ele e acha exagerada a condenação, porque estamos acostumados a lidar com a violência entre casais como problema pessoal - afinal, "em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher".

Luana Piovani usou um outro ditado popular para comentar a sentença: "(...) para os inimigos a lei". A reposta de Dado e de seu advogado é de que, para ele, isso é página virada, e que ele não tem ódio da ex. Ele tenta mostrar superior. Mas, apesar de muitas vezes as celebridades se esquivarem dos efeitos da lei, neste caso, ele não conseguiu, e como disse o advogado de Luana, o caso se tornou um bom exemplo de aplicação da Lei Maria da Penha. Você pode ler sobre a história aqui.

Eu trouxe este caso para o blog porque é necessário lembrar que a violência de gênero é absurdamente comum no Brasil e no mundo. Geralmente ela começa assim, no convívio do casal, com brigas e ameaças até chegar a uma violência física. Muitas mulheres aguentam a situação em silêncio, esperando que o parceiro mude, acreditando que ele ainda a ama. E, mesmo depois de muitos anos de violência, elas não conseguem romper o ciclo porque não encontram meios de protegerem a si mesmas e aos filhos. Os sentimentos se misturam e geram sofrimento mental e físico. Vergonha e medo chegam às emergências hospitalares em forma de ataques de pânico, depressão, ansiedade.

Há alguns anos atrás eu tive a oportunidade de atender um grupo de mulheres que viviam em uma comunidade pobre no Rio, e dentre elas as histórias de violência física e sexual não eram poucas. Uma das estratégias terapeuticas que usamos foi a de incentivar o vínculo entre elas e a busca pelo respaudo das instituições públicas e da lei para interromper os ciclos de agressão. Nós testemunhamos o ganho de liberdade de uma dessas mulheres, e de seu filho pequeno, quando ela começou a movimentar-se em busca da justiça, com a Delegacia de Mulheres e com a Defensoria Pública. Dessa experiência impactante saiu um artigo publicado no livro do Grupo Tortura Nunca Mais, que pode ser acessado aqui.

Uma agressão cometida pelo parceiro não pode simplesmente ser esquecida - depois de virada a página. Ela trái tudo o que esperamos de uma relação de amor e cumplicidade, inclusive para a criação de uma família, com seus filhos. É fácil para o agressor se dizer livre de ressentimentos, quando quem sofreu ainda tenta se recuperar da vergonha e da humilhação que passou. A aplicação da Lei Maria da Penha não pode ser interpretada como um capricho de mulher mal-amada - esse tipo de argumento é mais um nessa vasta literatura popular que desvaloriza os direitos das mulheres e a tranca numa prisão domiciliar culturamente imposta.

Indicação de leitura:  Mourão, J. C. (org.) Clínica e Política 2: subjetividade, direitos humanos e invenção de práticas clinicas, Rio de Janeiro: Grupo Tortura Nunca Mais / Abaquar.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Culpa de desmamar

O desmame é um assunto delicado. Tem mulheres que não gostam de ser interrogadas sobre a previsão do desmame, e isso é compreensível. Amamentar requer uma profunda adaptação às necessidades do bebê e a novidade de sua presença na família, por isso, depois que esse processo já está bem encaminhado e a mulher está sentindo-se finalmente segura da decisão que tomou - em persistir apesar das dificuldades - é difícil ter que responder a essa questão: "você vai amamentar até quando?".

Mal acabamos de resolver um conflito e temos que partir para outro! As campanhas governamentais dizem claramente quanto tempo a criança deve ser alimentada com leite materno - no mínimo. Elas não dizem quando parar, nem como. Se isso é bom, por um lado, porque incentiva as mulheres a amamentarem bastante, também é complicado por não dar o devido apoio a decisão de desmamar - porque um dia ela terá que ser tomada! E existem vários fatores que influenciam nessa decisão.

Uma pesquisa realizada com uma família (três gerações de mulheres, totalizando sete mães), apontou o sofrimento que algumas delas carregam devido a um desmame difícil, cheio de dúvidas e culpa. As autoras do estudo enfatizam o papel das campanhas governamentais na decisão de amamentar, e ao mesmo tempo, colocam a falta de apoio público durante o desmame. Elas identificaram que a influência das campanhas foi maior do que a das relações intra-familiares, o que é um dado importante que nos leva a pensar na relação entre as mães e os profissionais de saúde que as acompanham. Porque uma campanha pró-amamentação nada mais é do que a promoção das recomendações das organizações de saúde (OMS, Ministério da Saúde, etc.), referências em pesquisas confiáveis. 

Por outro lado, uma campanha nunca dará conta da especificidade de cada mulher, das diferenças e complexidade do contexto de vida de cada uma. Por isso, essas referências devem ser usadas, mas não podem substituir o apoio real das pessoas preparadas para cuidar de nossa saúde. Elas precisam estar embuídas dessa cultura pró-amamentação, mas também com ouvidos atentos às histórias e necessidades de cada mulher. As enfermeiras que fizeram o estudo, chegaram a uma boa conclusão, afirmando o seguinte:

"A análise deste tema permitiu-nos perceber que são variados os motivos que levaram as mulheres-mães a optarem pelo desmame de seus filhos. Conhecer tais motivos nos forneceu subsídios para que possamos auxiliar/apoiar as mulheres, durante o ciclo gravídico-puerperal no enfrentamento de situações que possam vivenciar durante o processo de aleitamento materno." (Sonego, J. e colgs, 2004)

Portanto, você, mulher, que está às voltas com o conflito do desmame, cansada, precisando de mais tempo só para você, sem vontade de amamentar - apesar de amar muito seu bebê, ou sentindo dores nos seios, com alguma enfermidade associada, e isso está lhe tirando a paz, porque sente-se culpada, procure conversar sobre o assunto com pessoas preparadas. Tente conversar com mães mais experientes e procure entender se o sofrimento que a amamentação está lhe causando não pode ser resolvido com outro tipo de intervenção que não seja o desmame. Tente conversar com quem pode lhe fazer as perguntas certas, e que pode lhe auxiliar a entender de onde vem seus conflitos com a amamentação. E pense sobre o tempo da criança - talvez ela mesma já esteja dando seus sinais. Mas, não fique sozinha com sua culpa. Não minimize sua dor, se ela estiver realmente aí latejando, esperando uma oportunidade para explodir. E, depois disso tudo, junte-se às mães que lutam por uma sociedade mais preparada para promover uma maternidade consciente e feliz.


Indicação de leitura: Sonego, J. e colgs. Experiência do desmame entre mulheres de uma mesma família. Revista da Escola de Enfermagem USP, 2004; 38(1):341-9.

sábado, 7 de agosto de 2010

Recomendação de leitura para você que está prestes a parir

Hoje passei aqui só para recomendar fortemente a leitura do relato de parto de Paloma do blog Peripécias de Cecília e Fofices de Clarice. A garra e a naturalidade dessa mãe brasileira nos motiva a desmistificar tantos preconceitos sobre o parto! A experiência dela é rara e deve ser compartilhada. Se você tem uma gravidez pós-cesária, tem medo de entrar em trabalho de parto e está cheia das opiniões e intervenções alheias, leia este relato. Melhor do que qualquer "manual" é conhecer a experiência de mulheres fortes e bem preparadas para encarar o parto como deve ser.

Parabéns Paloma e bem vinda Clarice!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Why parents hate parenting - Uma explicação possível

O título deste artigo é emprestado da reportagem da revista New York. A reportagem é ótima! Vale a pena ler todinha! Se você ficar pela metade, vai chegar a uma idéia mais negativa da vida com filhos.  Se não os tiver ainda, é capaz até de repensar o plano de um dia vir a ter...  Mas, as últimas páginas reconsideram o conceito de felicidade empregado ao longo do texto, então vale a pena ir até o final.  Aqui, por enquanto, me deterei em algumas informações da primeira parte, por falta de tempo e também por uma questão de argumento - para manter a objetividade.  A questão aqui é: por que os pais (e mães - injustamente omitidas no coletivo português) odeiam "parentalizar" (neologismo pessoal para esclarecer que parenting não significa exatamente ser pai/mãe, mas a atividade ligada ao estado de ser mãe e pai)? Bom, depois dessa estranha exposição de conceitos, vamos ao âmago da questão.

A jornalista Jennifer Senior faz uma discussão sobre estudos americanos acerca do bem-estar e felicidade de mães e pais. Na verdade, algumas das pesquisas que ela cita não são exatamente sobre famílias, mas de alguma forma, se aproximam do tema. A maior parte das pesquisas chega a conclusão de que casais sem filhos são mais felizes do que casais com filhos, isso porque elas avaliam a experiência que as pessoas têm no dia-dia, a quantidade e qualidade das atividades de lazer. Ela cita, por exemplo, o ganhador de prêmio Nobel Daniel Kahneman, que desenvolveu um método para avaliar como as pessoas experimentam as atividades de seu dia-dia, e o aplicou entre mulheres dos Estados Unidos e da França. Olhando por esse ângulo, Kahneman e seus colegas concluiram que nos EUA, as mulheres sem filhos são mais felizes, porque dedicam mais tempo em atividades que consideram prazerosas - incluindo sexo. Mas, no mesmo estudo, as mulheres francesas mostram uma lógica inversa e dão uma dica para respondermos a essa questão preocupante. Os pesquisadores atribuem essa diferença ao fato das francesas viverem num lugar onde há um sistema de proteção social bem estruturado, que dá conta de boa parte das necessidades de mães, pais e crianças, e assim elas podem "parentalizar" com mais prazer. 

É bom lembrar que a reportagem diz respeito a famílias de classe média / média alta. Então, nos EUA, mesmo entre casais que têm condições de pagar por bons serviços, creches, babás, e comprar toda a parafernalha tecnológica disponível para o entretenimento e "controle" dos filhos, as brigas - entre si e com as crianças, os excessos de atividades delas (para muito além da escola e dos deveres de casa), e a auto-cobrança para serem pais perfeitos são alguns dos motivos que os tornam mais infelizes. Ou seja, não é exatamente por terem uma ajuda para o cuidado diário das crianças que essas mulheres são mais ou menos felizes, é o fato dessa ajuda não ser ao mesmo tempo um negócio de compra-e-venda. É pelo fato dessa ajuda ser fornecida por um poder público conectado às demandas das associações de pais e profissonais de educação. Como bem observado pela autora Judith Warner, “We’ve put all this energy into being perfect parents (...) instead of political change that would make family life better.” 

Pois é! Há países em que os pais se associam em verdadeiros grupos de apoio e ação social, lutando por melhores condições para criarem seus filhos. Não, isso não é papo panfletário... O que eu quero dizer é que serviços públicos (que não são sempre 100% gratuitos, mas livres do livre mercado) produzem um verdadeiro impacto na vida de gente comum. E tem uma contrapartida: pessoas que se unem em prol desse ideal têm certamente valores bem diferentes de educação e família, não estão muito preocupadas em preparar seus pequenos cidadãos para uma corrida competição pelos melhores postos de trabalho e formas mais rápidas de se ganhar dinheiro.

Então, prezadas/os leitoras/es, tem gente mais comum do que mãe e pai?! Será que estamos assim tão cercados de pessoas estressadas (eu não diria infelizes, porque não quero dar a conotação daquela satisfação transcendental e recompensadora que geralmente chamamos de felicidade)? 

Se você parar para refletir no que diz a reportagem e tentar trazê-la um pouco para nossa realidade, dá uma sensação muito incômoda de recalque e empatia, não é não? Recalque porque, poxa, quem é você Jennifer Senior pra vir me dizer que a minha escolha de ser mãe pode me tornar menos feliz?! E, empatia porque é praticamente impossível não se reconhecer nos relatos que ela traz. Como observado e anunciado pelo psicólogo Daniel Gilbert, sobre a reação dos participantes de suas pesquisas: “I’ve never met anyone who didn’t argue with me about this (...) Even people who believe the data say they feel sorry for those for whom it’s true”. Portanto, nós somos capazes de reconhecer que nossa vida se torna mais estressante, mais cansativa e com bem menos tempo de lazer, após a chegada dos filhos, mas ainda assim gostamos de afirmar que somos felizes. Talvez porque exista aí uma discordância sobre o que é felicidade - que a própria jornalista vai abordar na parte final de seu texto.

E eu sou feliz como mãe sim. Mas, também percebo que há uma certa necessidade de ostentarmos uma satisfação incondicional com nossa condição de vida, e isso nos atrapalha de enchergar o quanto poderia ser melhor. E você, o que você acha que um bom sistema de "guarda" (palavra traduzia ao pé da letra do sistema francês) traria de impacto ao seu bem-estar? Existem outras coisas da esfera pública que poderiam facilitar a sua vida de mãe/pai? O que? Conte aí sua experiência!

Agradecimento: Blog Escreva Lola Escreva
Leitura indicada: Daniel Kahneman e colgs. A Survey Method for Characterizing Daily Life Experience: The Day Reconstruction Method. Downloaded from www.sciencemag.org on August 2, 2010.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

All joy and no fun - Ser mãe é mesmo padecer?

Este post inaugura a mudança no blog! Não é mais Enquanto Esperamos, agora é What Mommy Needs. Por que? Bom, basta dizer que da espera resultou este novo projeto: debater sobre as necessidades das mulheres que se tornam mães, não só para cumprirem satisfatoriamente a função, mas para serem felizes! 

A proposta é trazer artigos baseados em pesquisas, notícias e reflexões pessoais sobre maternidade, mais precisamente, sobre o que contribui ou dificulta muito a vida da gente, em diferentes partes do mundo. Pretendo usar fontes de línguas diferentes (dentro do inglês, francês e espanhol - arranhado!). Por isso o nome do blog é  em inglês, para dar essa dimensão. Se aqui no Brasil não sabemos nem de longe o que é contar com um sistema público de creches qualificado, por exemplo, há países em que ele é uma prioridade. Por outro lado, há mulheres na América Latina que têm menos recursos ainda, e continuam se virando para dar conta dessa tarefa tão fundamental para a sociedade. Mas, a que custo?  Será que devemos nos conformar com a pouca ajuda social que temos? Ou, será que são necessárias tantas coisas assim para sermos mães felizes? Será que é possível ter uma vida simples e mesmo assim desempenhar bem a função? Será que maternidade tem alguma coisa a ver com cidadania? Ou é apenas uma escolha individual, com consequências para si mesma e para a pequena família que nos cerca?

Há muito tempo eu venho alimentando a idéia de ir mais fundo nessas questões (e quem sabe até transformá-las em objeto de pesquisa para o doutorado - se assim for, seja bem vinda/o ao meu diário de campo!). E esta semana li um texto que me deu ainda mais gás para colocar a idéia em prática. Este aqui indicado pelo blog da Lola: Why Parents Hate Parenting?, que tem frases instigantes como
“They’re a huge source of joy, but they turn every other source of joy to shit.”

Então, convido a você, seja antigo/a leitor/a do Enquanto Esperamos ou novo/a por aqui, a conviver comigo nesse mundo de perguntas e intuições, com esperança de obter algumas respostas! Em breve, voltarei com um texto mais elaborado sobre o artigo do New York - News & Features, indicado acima, para a gente debater!