Conheça melhor este blog de mãe, assistindo ao novo vídeo de boas vindas aqui!

domingo, 31 de outubro de 2010

Questões para Michel Odent

Ontem, dia 30 de Outubro, tive o privilégio de assistir a uma palestra de Michel Odent, aqui no Rio de Janeiro. Foram abordadas razões de otimismo e de pessimismo para aqueles que buscam a valorização do parto natural no mundo. Será que é possível no século XXI redescobrir as necessidades básicas da mulher em trabalho de parto?

Partindo da constatação de que em todas as sociedades, por motivos diversos, o trabalho de parto recebe intervenções fisiologicamente desnecessárias, o Dr. Michel Odent avaliou os condicionantes culturais que produzem tais intervenções. Um deles é a crença, muito presente no século XX, de que o bebê necessita ser higienizado, examinado e protegido por outras pessoas que não a mãe, logo após o nascimento. Apesar de tal idéia ter ganho força com as teorias higienistas da medicina, o professor Odent nos convoca a confiar na ciência moderna e a usá-la para convencer as pessoas de que o bebê recém-nascido precisa mesmo é de sua mãe, e de que essa precisa mesmo é de usar seu "cérebro arcaico primitivo" na hora do trabalho de parto. Isso quer dizer que devemos acreditar na memória coletiva de nosso corpo, que está fisiologicamente programado para parir, cuidar e alimentar nossa cria assim que nasce.


A medicina baseada em evidências é a grande aliada dos defensores do parto natural, porque, segundo Odent, a melhor estratégia para se superar os condicionamentos culturais das intervenções desnecessárias no nascimento é unir instinto e conhecimento científico. A ciência é portanto, a grande legitimadora dessa prática e desse movimento social.

A noção de que há um movimento social em torno do parto natural eu não tirei da palestra. Isso é algo que penso, a partir da observação dos grupos, dos discursos e dos embates sobre o tema., desde que engravidei. O professor falou de "escolas", que mesmo bem intencionadas acabam reproduzindo doutrinas que tornam o parto natural mais difícil. Eu identifico nessas escolas a disputa do campo científico, teorizada por Pierre Bourdieu. Diz esse sociólogo:  

"O universo 'puro' da mais 'pura' ciência é um campo social como outro qualquer, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros, mas onde todas essas invariantes revestem formas específicas" (Bourdieu, 1983). 

Quer dizer que há todo um campo científico que se ocupa do parto e do nascimento, que hoje é dominado pela crença de que as mulheres não são capazes de darem à luz sozinhas, de que é necessário controlar, interferir nesse processo. De onde surgem as práticas mais contraditórias, como o uso de ocitosina para acelerar o trabalho de parto, mesmo em condições de saúde normal.

Mas, há também nesse campo disputas com outras teorias e descobertas científicas, nas quais o Dr. Odent tem enorme influência. A saber: as que partem da convicção de que a natureza da mulher é programada para parir sem necessidade de intervenções. Elas se baseiam em decobertas sobre a fisiologia do parto, afirmando a existência de todo um sistema hormonal competente. E, também pontuam que para os hormônios funcionarem corretamente, o ambiente deve ser favorável, ou sejam deve permitir que a mulher atue sob seu efeito e não use a parte mais racional de seu cérebro - que impediria o fluir desse sistema. Portanto, para parir a mulher precisa de tranquilidade, pouca luz, não se sentir observada, não ser interrompida, etc. O que significa dizer praticamente o contrário do que diz a hegemonia atual do campo científico e social em torno do nascimento.

As escolas do parto natural, para se impor nessa disputa, organizam-se cientificamente, politicamente e economicamente. Há toda uma lógica própria de funcionamento dos grupos de pesquisa, das intituições de formação de profissionais em prol do parto natural, e da relação cliente x profissional. Há uma força que se propaga a partir da união dessas pessoas, e ela influencia a democratização das informações ou a formação de verdadeiros "guetos". Esta aí uma razão para pessimismo... Odent reconhece que certas doutrinas criadas por essas escolas reproduzem outros condicionantes culturais que dificultam o parto.

Eu teria duas questões para o professor Odent, mesmo concordando com a maioria das coisas que ele disse ontem. Uma delas, até fiz, mas não obtive uma resposta satisfatória. Veja bem, mesmo assinalando que as doutrinas podem dificultar a democratização do parto natural, o professor não parece analisar criticamente a disputa mercadológica que se faz entre as escolas e as instituições. É assim que eu, na minha mais simples curiosidade, queria saber qual é o papel do setor público para a mudança cultural que, nós defensoras do parto natural, tanto esperamos. E o professor me respondeu colocando este setor em pé de igualdade com qualquer outro, ou seja, sem reconhecer que ele é fundamental para a democratização desse conhecimento e dessa prática. É na esfera pública que se legitima de forma mais eficiente  e justa as práticas e saberes a serem reproduzidos em toda sociedade, em todas as classes sociais. Se não há envolvimento do Estado, das políticas públicas, corre-se o risco de criarem-se guetos "exclusivistas".

E gostaria de entender também porque ao invés de se lutar contra os condicionantes culturais, não se passa a considerá-los como fatores fundamentais no ato de parir. Dar à luz não é somente fisiológico e histórico, é contextual. Dizer às mães de hoje que filmar o momento do parto é anti-natural e por isso deveria ser uma prática evitada, é desconsiderar o contexto cultural, a forma contemporânea de transmissão de conhecimentos mais poderosa, a maneira mais vívida de guardar um momento tão especial na história da família... Da mesma forma, fico com uma estranha sensação sobre as críticas que Odent fez à defesa pela presença do pai no momento do parto.

Quero dizer que, a palestra de Michel Odent, e tudo mais que ele publica, tem sido importantíssimo para o esclarecimento de muitas mulheres acerca do potencial de seus corpos para parir. Mas, com relação a mudança no campo científico e na cultura ocidental, o grande movimento em prol do parto natural (com todas as suas lutas, escolas e instituições), ainda tem nos deixado com poucas respostas...

Quem acompanha este blog, sabe que eu sou uma convicta defensora do parto natural, mas também sabe que sou inquieta com minhas questões e que meu principal objetivo é promover debates e pensamento independente.

E você, se arrisca a levantar mais questões e a apontar respostas?

* Sugestão de leitura: 
"O campo científico" In: Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo, Ática, 1983.
"A cientificação do amor", Michel Odent. Florianópolis, Santi German, 2002.
"O mercado do parto humanizado no Brasil", Carolina Pombo. Blog What Mommy Needs, 2009.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ATENÇÃO: cesarianas elevam a taxa de baixo peso ao nascer

Este informe é da Revista de Saúde Pública do mês passado, e mostra conclusões paradoxais: estudos recentes mostram que a taxa de baixo peso ao nascer entre regiões mais desenvolvidas é maior do que nas regiões menos desenvolvidas. Duas explicações complementares para essa inversão epidemiológica: aumento das intervenções que evitam a morte ao nascimento e aumento das intervenções desnecessárias (principalmente cesarianas, que têm associação direta com a taxa de prematuridade e de baixo peso).

O baixo peso sempre foi utilizado como indicador da saúde materno-infantil, e especialmente para avaliar as desigualdades sociais em saúde (historicamente, mulheres pobres tinham maior risco de dar à luz crianças com baixo peso). Além disso, essa taxa ainda é associada a doenças motoras, cognitivas e respiratórias nos bebês.

Apesar do informe sugerir que devemos passar a ver o baixo peso como indicador de melhor acesso aos serviços de saúde, é de se questionar enfaticamente tal sugestão! Como podemos aceitar que a taxa elevadíssima de cesarianas, associada claramente ao baixo peso, seja considerada como representação da ampliação do acesso à saúde? Isso é um absurdo! O próprio informe nos dá subsídios para questionar a prática abusiva dos médicos que intervêm desnecessariamente no nascimento, mas acaba ingnorando o fato na conclusão.

Sabemos que há interesses e poderes em disputa no que concerne à gestação e ao nascimento, mas, acima de tudo, esses dados são de nosso interesse: mulheres que são donas de seus corpos e responsáveis pela saúde de seus filhos.

Por isso, ATENÇÃO! Optar por uma cesariana significa submeter seu filho ao risco de nascimento pré-termo (anterior a 37 semanas) e ao baixo peso, que são riscos de doenças respiratórias e dificuldades gerais de desenvolvimento motor e cognitivo. Mas, há médicos que vão minimizar esses riscos, receitando antialérgicos, antibióticos e complementação alimentar desde os primeiros meses. ESSA MEDICALIZAÇÃO EXCESSIVA TEM QUE PARAR! Somos as donas de nossos corpos! Somos as reprodutoras da vida, por excelência!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Luta de classes... quer dizer, de gerações

Ela não gosta de shopping, definitivamente. Carregando a filha pequena, num carrinho "alugado" então, pior ainda... Mas, enquanto tenta acalmar a menina, que não se acostuma ao desconforto momentâneo, e tenta escolher as toalhas, se apega à esperança de que, com a chegada da avó, a pequena vá se entreter e a escolha vá ficar mais fácil (devido aos devaneios próprios de passeios no shopping, ela já esquecera das inúmeras vezes em que se arrependeu de ter convocado a avó para essa tarefa).

Quando a avó chega, a menina vibra, e a mãe também. "Ufa..." Mas, logo está lá correndo atrás de uma bebê fujona e precoce, que acabara de se apaixonar pelo último lançamento de lap tops da Barbie. A essa altura a avó está também entretida com uma queijeira de vidro. A criança não pára. A mãe resolve dar-lhe uma bronca: "se você não ficar aqui juntinho eu vou ter que colocá-la no carrinho de novo, hein!". Pronto, a avó recobra a atenção, esquece a queijeira, e logo diz: "Mas, eu vou ficar com ela!". A menina percebe que seu choro atrái plateia - e das mais fervorosas, e então para completar o show, se joga no chão e grita.

Mas, a mãe não é boba. Já tinha entendido a estratégia de dominação e fixado a idéia de que o jogo do eu-me-jogo-e-ganho-tudo não iria funcionar com ela! Imediatamente, abaixa, olha diretamente nos olhos da pequena escandalosa e diz, bem baixinho: "você vai voltar para o carrinho agora, porque eu já disse que não quero esse tipo de comportamento. Se jogar no chão não!". E, assim age. "A ação é tão importante quanto a ideologia" - pensa.

A avó é da terceira idade, mas não é surda. Aliás, quando está interessada em aplicar sua pedagogia pessoal infalível, escuta até de bem longe. E então, como já devia se esperar (mas não se espera por causa das ilusões provocadas pelo cansaço), ela se intromete descaradamente: "não é assim! Você tem que falar..." 

O sangue esquenta, a revolta toma conta. E, antes que sua progenitora possa completar a frase e exprimir a condenação, a mãe solta uma lista de respostas mal-criadas, finalizadas por: "era melhor você nem ter vindo!"

A avó se vai magoada... até a porta da loja. Pelo celular fazem as pazes, que nem chegaram a ser desfeitas direito. A mãe explica que a criança está agitada porque está com sono, já que não dormiu de tarde.  A avó entende, e volta feliz. Situação banal essa. Já estão até acostumadas...

Na fila para pagar, a mãe se esforça para não reclamar que a avó tirara a chupeta da criança, e esta do carrinho, dizendo que ela não estava com sono nada! Pensa que não adianta lutar. Estava em desvantagem, e era obrigada a relevar a expropriação de seu lucro, a alienação de seu trabalho, e a falta de consciência dos companheiros...

Pra terminar, a avó diz retumbante: "você tem que entender que eu não sou babá, eu sou avó!" Mas, antes de tudo não seria mãe, poxa!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

I dont wanna talk about the Wheelers anymore: o aborto que doeu em mim

Então eu vi esse filme lindíssimo aos seis meses de gravidez, saí do cinema impactada e imendei numa conversa acalorada com meu marido - com quem acabara de dividir o teto. Posso dizer que saí atordoada, e que meu desejo era ver nele toda intensidade que eu senti. Ele foi sacudido com algumas das cenas, mas não chegou a compreender totalmente minha reação. Eu me contive porque não queria pertubar a Laura, mas prometi a mim mesma que veria o filme novamente, em outro momento - nem que fosse sozinha.

E hoje, eu vi Revolutionary Road (ou Foi apenas um sonho) pela segunda vez. O impacto foi ainda maior, as lágrimas foram mais sentidas. (O marido dormiu boa parte do tempo, mas sobreviveu pelo menos para afirmar: "é realmente impressionante!"). Em termos de cinematografia, o filme não é nada demais, o roteiro segue a fórmula roliudiana. Em termos de Di Caprio, é maravilhoso! O ator está tão presente, que até parece representar a si mesmo! A Kate Winslet também está muito bem, para sermos justos. No making of fico sabendo que ela foi a mais empenhada para promover a adaptação do livro às telas, porque ficou muito impressionada com a história, durante sua gravidez. E é exatamente isso que faz toda a diferença em Revolutionary Road: a capacidade de estampar os conflitos mais comuns e mais difíceis de serem encarados, a respeito de casamento e família.


O filme desnuda a maternidade, naquele ar tão artificial dos anos 50 - em que a família tradicional era um modelo super idealizado nos EUA. E ao fazer isso, desnuda também pai e mãe, vizinhança, sociedade americana, famílias que se esforçam muito para se encaixar no padrão e não deixar que suas verdades sejam ditas. O personagem mais sábio, ou pelo menos, mais honesto da trama é um doutor em Matemática considerado louco, saído de um hospital psiquiátrico. É ele quem tem coragem de colocar o dedo na ferida alheia, e dizer uma das mais belas frases do filme: "Plenty of people are on to the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness..." E, em meio ao sofrimento por ter que sufocar seus mais puros sonhos, cansada da desesperança naquela realidade morta, a personagem de Kate, April, pergunta ao marido numa discussão calorosa: "What is reality?". O que é real? Abandonar seus desejos pessoais porque tornou-se mãe? Aceitar as "regras" sociais que lhe submetem a um padrão previsível, porque você deve sustentar uma família? Culpar-se porque ter filhos não é suficiente para que se sinta feliz? Esconder seu medo de falhar na vida atrás da maternidade? Ou pior, sendo um homem fraco para admitir o próprio medo, esconder-se na gravidez da mulher?


O aborto de April Wheeler, de sua saída, vira sua condenação. Depois de dois filhos e de uma vida a dois desgastada numa cidade cinza, ela finalmente encontra uma alternativa: ir para a Europa, começar do zero, usar o dinheiro acumulado para dar tempo ao marido descobrir sua verdadeira vocação, e assim, depois poder exercer sua profissão abandonada - ser atriz, em Paris. Mas, uma terceira gravidez se coloca no meio do caminho, e serve de esconderijo para o homem inseguro. Ela tenta tratar o assunto com simplicidade, sugerindo o aborto como solução plausível até a 12ª semana de gestação, mas ele, confuso, lhe sufoca com julgamentos, suspeitando inclusive de seu amor maternal. É assim que a alternativa some, e April decide sozinha, silenciosamente, passadas as 12 semanas, fazer o aborto em casa, sob alto risco de vida. Depois de odiar o marido, decide abortar, mas nada leva a crer que bancaria sozinha a mudança definitiva de vida. O fato é que ser mãe não era suficiente para estancar o desejo de vida daquela mulher, e ver o marido se conformar com um padrão que ele mesmo odiava lhe tirara qualquer admiração por ele. O aborto coloca fim à sua morte cotidiana.


As cenas finais do filme são dedicadas aos vizinhos e amigos dos Wheelers. É difícil falar de uma família que escancara os dramas, que busca uma saída à toda aquela realidade repressora, mas não consegue de fato superá-la. Eles são amados e odiados. Desejados, e julgados. São como a Geni da música de Chico Buarque. É por isso que o amigo do casal apaixonado por April, ao fim, diz à própria esposa: "I dont wanna talk about the Wheelers anymore".

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Uma triste coincidência

Hoje me aconteceu uma daquelas situações bizarras que pedem para ser passadas adiante, uma coincidência que poderia ser banal, mas que me fez mover um mundo de idéias! Não pude evitar em compartilhá-la com vocês, afinal, no que concerne à saúde, nós, mulheres e mães, estamos preocupadas sempre. É um fato que os homens procuram menos os serviços de saúde - talvez até por isso tenham uma perspectiva de vida um pouco menor do que a nossa. Então, a situação descrita pode ser considerada bastante comum:

Estávamos num pequeno restaurante/café aqui perto de casa: eu, a funcionária, uma idosa e uma mulher jovem - cada uma na sua - enquanto a jovem reclamava com sua mãe sobre o tempo de espera no consultório de um médico. Ela dizia que a consulta estava marcada para as 9hs, já eram 10hs, e o médico nem tinha chegado ainda, enquanto outros pacientes (marcados em intervalos de 15 minutos continuavam chegando). Até aí nenhuma coincidência extraordinária, porque vemos essa cena se repetindo cada vez mais nos consultórios particulares.

Mas, naquele momento, eu tentava me concentrar para continuar a leitura do capítulo "A mercantilização da saúde" do livro "Que controle social?" de Maria Valéria Costa Correia. Toda aquela conversa paralela invadiu meu pensamento e se ligou com o que eu estava lendo: "(...) concluiu-se que os diferentes modelos de privatização (da saúde) têm, como denominador comum, a transformação de um direito do cidadão em mercadoria" (p. 41). E, agora, a funcionária do café, se dirigia cautelosamente à reclamante, depois de ela desligar o celular:

- Esses atrasos dos médicos são um saco, né? - Ao que a jovem respondeu com as desculpas que a recepcionista do médico dara para justificar o atraso. E acrescentou que havia um jovem super revoltado na sala de espera. Resolvi então complementar a conversa, lembrando que o tal do controle social discutido pelo livro começa assim, na troca entre os cidadãos, no reconhecimento de direitos e problemas comuns:

- Ah eu acho que tem que reclamar com o médico! A gente tem que mostrar pra eles que isso é uma falta de respeito! - Minha exclamação era provocativa, porque eu queria ver até onde iria a insatisfação e a capacidade de reação das duas. Mas, foi a senhora idosa na mesa ao lado que respondeu:

- Pois é. Eu também estou aqui fazendo hora para o médico que marquei 9hs e que está super atrasado! - E ela começou a relatar um evento passado, quando esperou cerca de 6hs pelo atendimento de um cardiologista, em seu consultório particular, a ponto de ter um grave aumento de pressão, ter que tomar remédio e ficar em observação. O mesmo cardiologista fazia parte da direção do Hospital do Andaraí, que é público, e que também reproduz filas longas de espera pelo atendimento ambulatorial. Seria ótimo concluirmos que esse problema é resultado da má gestão deste médico, mas a gente sabe que a super lotação dos serviços particulares de saúde está ficando comum. Aquela senhora diz ter argumentado com o médico que, se o plano de saúde lhe pagava mal, ela não tinha culpa, pois ela pagava muito caro. E num simples comentário ela fez todos os nexos que eu analisava em meu texto: a saúde pública (universal na lei, mas excludente na prática) sofre de cortes drásticos de investimentos em detrimento da expansão do mercado da saúde (dito complementar e suplementar, mas que acaba ocupando a centralidade dos serviços para muito gente); assim, livre da regulação do Estado e da concorrência com os serviços públicos, os prestadores privados praticamente definem a situação de saúde da população, pela lógica do lucro.


Enquanto ouvia o relato da senhora, a recepcionista da pediatra de Laura ligou para confirmar a consulta no dia seguinte. Aproveitei para marcar horário para mim, porque ela é também homeopata. Foi marcado as 17hs, ou seja, uma hora depois da consulta de Laura. Assim, estava garantido um bom tempo de atendimento às duas e ao mesmo tempo, um período de ajuste, caso houvesse um imprevisto. Depois de desligar o telefone, voltei-me para as mulheres que alí estavam e reafirmei a importância de nossa atitude diante da falta de respeito desses médicos que, sob a justificativa de serem mal pagos pelos planos e de receberem alta demanda, têm que atrasar com frequência. Se há médicos igualmente conveniados que não se pautam apenas pelo lucro, é porque é possível haver mais respeito e solidariedade nos serviços de saúde. Nós temos que saber escolher o profissional, saber exercer nosso poder, de cidadãos e consumidores (já que a lógica aí instaurada é a do mercado). 

Se você já se sentiu desrespeitada/o como essas mulheres, não se intimide. Você pode reclamar com a central de atendimento do seu plano de saúde, com a ouvidoria do SUS, com a Anvisa, e procurar se inteirar dos seus direitos, participando mais ativamente da luta pela saúde gratuita e universal expressa em nossa Constituição.

*Imagem daqui

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Mulheres competentes e batalhadoras nessa rede afora

Encontrei finalmente um site que reúne informação e mobilização feminista, e que articula pessoas e insituições em torno dos direitos das mulheres e assuntos de seus interesses: o Portal Feminismo. Além de tudo, o portal promove a Universidade Livre Feminista, com uma biblioteca democrática (na qual acabei de disponibilizar um texto), debates super relevantes (como a legalização do aborto), e cursos (como o Trilhas Feministas na Gestão Pública). Há muita coisa boa para ler, ver e ouvir no portal! Visitem e contem o que acharam!

Outro site relevante é o Parto no Brasil (que já está em minha lista de blogs). As pesquisadoras que editam o blog estão sempre divulgando informações importantes sobre parto natural, além de promoverem enquetes e eventos na área. Agora, elas estão começando a vender camisetas com um desenho lindo, para financiar um pouco seus trabalhos. Vale a pena conferir!

Aproveito ainda para recomendar aos acadêmicos que andam por aqui o blog de uma querida amiga, o Profissão Bolsista. O nome do blog é uma ironia com a condição precária que nós, aspirantes a um emprego na área da pesquisa acadêmica, temos que suportar durante os longos e sofridos anos de mestrado e doutorado. Mas o objetivo do site é, na verdade, divulgar cursos, concursos, eventos, bolsas, publicações de vários campos do conhecimento (especialmente saúde e educação). É uma fonte super confiável para quem vive se perdendo nas buscas do google e dos sites das instituições de ensino e pesquisa, em busca de uma oportunidade.

Quem se aventura pela edição de blogs, para promover causas políticas ou valores de cidadania, sabe o quanto é difícil conciliar a dedicação ao site com a vida profissional e todas as atividades diárias não remuneradas (as mães de plantão me entendem...). Infelizmente, ainda é muito difícil sustentar um projeto, como o do Portal Femismo, do Parto no Brasil, e do Profissão Bolsista (além deste no qual vos falo), promovendo informação e debates de enorme relevância, com um retorno financeiro! Por isso, a melhor maneira de apoiarmos essa gente esforçada e competente é divulgando seus trabalhos e consumindo, de forma consciente, os produtos e as informações que nos oferecem.

Espero que vocês aproveitem as dicas e enviem outras mais! Mulheres em rede são mais solidárias e poderosas, não?

domingo, 17 de outubro de 2010

Avaliação geral da saúde materno-infantil no Brasil

Estou lendo o relatório final da Comissão Nacional Sobre Determinantes Sociais da Saúde. Li em especial a parte sobre saúde materno-infantil, e quero dividir com vocês meus incômodos e questionamentos. De maneira geral, a mortalidade infantil vem caindo drasticamente nos últimos 15 anos, e mais ainda na região Nordeste - onde ela é, tradicionalmente, altíssima. Ou seja, a queda na taxa de natalidade e a melhora em alguns indicadores de saúde das crianças e das mães contribuíram para esse resultado positivo. Porém, o relatório deixa claro que as desigualdades regionais permanecem, e dependendo da variável utilizada até parecem aumentar. A desigualdade na taxa de mortalidade infantil entre estratos de escolaridade diferentes tem diminuído, mas entre estratos de renda não há, de maneira geral, diminuição significativa. Portanto, mesmo com a melhora geral no acesso a educação e renda, a desigualdade entre mães e crianças pobres e mães e crianças ricas, em termos de saúde, permanece alta.

Eu acho que alguns fatores podem explicar este fato. Um deles, a própria autora da revisão bibliográfica do relatório aponta: a falta de informação consistente para se avaliar os impactos dos programas sociais mais recentes sobre a iniquidade em saúde (porque os programas como o Bolsa-família e o Saúde da Família não foram desenhados para fomentar uma avaliação comparativa, até porque são de abrangência nacional e não podem excluir um grupo para servir de "controle"). Outra coisa a se pensar é o aumento do acesso das classes mais ricas às tecnologias oferecidas pelo setor privado - pelos planos ou particulares, enquanto o SUS continua sub-financiado. Assim, as mães mais ricas, com mais alto grau de escolaridade, que têm condições de pagar pelos serviços de saúde, melhoram seus indicadores, às vezes até mais do que as mulheres que usam o SUS. Os indicadores destas também estão melhorando, mas não em ritmo suficiente para diminuir significativamente a desigualdade.

Outra coisa que me faz pensar no setor privado da saúde - o chamado suplementar - é o alto índice, crescente, de cesarianas entre as mulheres mais ricas. Enquanto no Brasil todo ele era de 44% (em 2006), entre as usuárias dos planos de saúde estava em 77%. Outro índice pior entre elas é o de obesidade infantil - que ainda assim está diminuindo nos estratos mais ricos e aumentando nos mais pobres. Além disso, os índices de nascimento pré-termo (até 37 semanas) e baixo peso aumentaram entre pobres e ricos, sendo que entre estes o aumento foi maior. Teria isso relação com o alto número de cesarianas e/ou quantidade de intervenções médicas no pré-natal? Ou ainda, pode ter relação com a qualidade de vida das mães, ao estresse e acúmulo de doenças crônicas relacionadas a ele?

Um ponto que achei deficiente no relatório foi a ausência de comentários sobre a qualidade de vida das mães - que só apareceu indiretamente na descrição de uma pesquisa grande feita recentemente. Se o aumento da renda e da escolaridade não são suficientes para diminuir a desigualdade, há de se estudar outros indicadores.

Mas, de maneira geral, nossos índices melhoraram quanto à mortalidade, a subnutrição, a amamentação, a relação entre peso e altura com a idade dos bebês, vacinação, enfim, mostrando que estamos num bom caminho - mas que o passo precisa ser acelerado e as prioridades acertadas.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Fala mãe! - Uma roda em movimento

Atenção queridas leitoras! Estou abrindo seis vagas para um grupo terapêutico de mulheres, com o foco na construção da identidade feminina com os conflitos e mudanças advindas da maternidade. O grupo funcionará num consultório no bairro do Humaitá, no Rio de Janeiro, com previsão de início em Novembro de 2010. O público-alvo é de mulheres, em qualquer idade, que tenham filhos pequenos (de até 6 anos).

Em meio às transformações culturais e econômicas que ampliam o espaço de vida das mulheres (do meio doméstico para o público) e das constantes demandas pela maternidade mais plena e consciente, a identidade feminina, na contemporaneidade, abre-se para novas possibilidades. Cada uma vivencia seus conflitos e medos de forma singular, superando estigmas ou sucumbindo à culpa e ao estresse, entre o que  se deseja, e o que os outros esperam. Sabe-se que nós, mulheres, sofremos mais que os homens de doenças crônicas - inclusive mentais, como a depressão, e que o mundo ainda reproduz desigualdades de gênero importantes. Assim, nossa estratégia de grupo terapêutico baseia-se na idéia da clínica política, que pretende alargar a compreensão sobre o sofrimento assim como ampliar o espaço de ação e as redes de relacionamentos dos participantes. O objetivo é que sentidos sejam criados e não revelados, pois a transformação é vista como forma de conhecer a si mesmo.

Portanto, me coloco à disposição para pôr essa roda em movimento, à base de falas, relatos, emoções, trocas!

Meu conselho profissional me impede de divulgar valores, mas posso dizer, de antemão, que o investimento individual é compatível com o valor mínimo da tabela de honorários do CRP. Há vagas reservadas também para clínica social, ou seja, com custo bem reduzido para quem não pode pagar.

Para quem se interessar, envie e-mail para: cfpbarros@gmail.com ou ligue para: 21-78462503

Mais uma promessa a cobrar

Opa! Mais uma promessa para cobrar depois! Dilma anunciou hoje, em seu programa eleitoral, a criação de 6.000 creches e pré-escolas. Procurei a informação em seu plano de governo, mas ele está em fase de mudança e não está disponível no momento. O que encontrei foi uma notícia, em seu site de campanha, com o discurso que a candidata fez no dia 12, reforçando a idéia da necessidade de educação para crianças de até 6 anos de idade. Leia aqui. Claro que 6.000 é um número pequeno diante dos mais de 5.500 municípios brasileiros, mas... ainda assim, vamos nos manter atentos ao cumprimento desta meta caso ela seja eleita.

Outra informação curiosa é sobre um programa anunciado pela propaganda eleitoral de Serra, o Mãe Brasileira. As mulheres ganham cada vez mais destaque nos discursos do candidato, mas este programa, que pretende prover saúde para as gestantes, para o parto e pós-parto, me parece um tanto confuso e desafinado com as orientações da OMS, dos movimentos sociais em prol do parto humanizado e da própria legislação brasileira, porque não prioriza em nenhum de seus argumentos o parto natural, a garantia de acompanhante ao parto e o acesso a informação sobre amamentação natural. Dar gratuidade para o transporte para fazer o pré-natal é interessante, mas isso não garante que o atendimento a gestante será humanizado (no sentido político da palavra). Não podemos esquecer que Serra foi alvos de muitas críticas e contra-manifestos ao defender que que todas as mulheres possam "marcar com antecedência" o dia do parto. Veja o manifesto da Parto do Princípio aqui.

Enfim, mães brasileiras, (ao menos nessa campanha eleitoral) estamos com o poder!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Educação, creche, mulher e maternidade no debate Dilma x Serra

Finalmente um debate de qualidade! Independente de sua posição política, há de reconhecer que nossa primeira ministra da Casa Civil mostrou a força e o potencial que as mulheres podem oferecer ao governo do Brasil. Melhor do que isso, a polêmica do aborto contribuiu para a esperada entrada do tema da maternidade e do atendimentos às necessidades de saúde e educação das mães e crianças pequenas no debate público. Parabéns aos candidatos por não terem permitido que a retórica religiosa e moralista aparecesse neste evento tão importante!

Assista as palavras finais de cada um!


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mochilão e bebê combinam?

Ontem meu marido comentou que todos em seu trabalho estão estarrecidos com o fato de termos carregado a Laura conosco, sem uma babá, uma avó ou qualquer outra pessoa, na viagem à França. Não é preciso nem dizer que ficamos num hotel barato ou num albergue para provocar as exclamações! Além disso, não alugamos carro, não demos dramin para ela dormir no avião, e não ficamos restritos a rotina que ela tinha em casa - só chegávamos no quarto para dormir, já de noite.
 
Por isso, posso chamar nossa viagem de um "mochilão". Nele carregávamos água, chupetas (que foram sendo compradas para substituir as que iam se perdendo), mamadeira, lanchinho (basicamente, bananas, bolos e biscoitos insdustrializados, e papinhas prontas), mudas de roupas, kit troca de fraldas, muitas fraldas, e apetrechos de frio (gorro, cachecol, luvas). Não deu para manter aquela disciplina sonhada com o uso da chupeta, nem com uma alimentação mais natural - alguma coisa teve que ser sacrificada para conseguirmos ficar muito tempo na rua. Eu tentei dar para a Laura uma saladinha de fruta em conserva, que vende nos mercados, mas ela não gostou mesmo! E, como não dá para lavar as frutas e colocá-las devidamente de molho, na rua ou no quarto do hotel, a banana foi a única fruta consumida diariamente (quase todas as banquinhas de frutas e legumes vendem). No almoço, também foi difícil manter o cardápio que Laura estava acostumada. Ela acabou comendo coisas bem variadas, e provou pizza pela primeira vez! Meu medo com toda essa mudança era de que, na volta para casa ela rejeitasse as frutas e legumes que já come desde sempre. Mas isso não aconteceu.

Em Lyon comemos num Bouchon tradicional, onde vende-se pratos típicos da cidade. Uma gracinha o lugar! Eu comi muito bem, um prato com carne de pato. Mas, como o Marcelo tem um paladar super restrito, resolvemos pedir para ele um prato que tivesse ovo (algo que ele nunca rejeita). O problema é que o ovo era praticamente crú e o acompanhamento era um molho com uma frutinha desconhecida... Imaginem que,  apesar de nos assutarmos com o aspecto, a Laura comeu e aprovou (pelo menos a frutinha)! Assim, passei a me despreocupar e oferecer para ela quase tudo o que nós dois comíamos. Não houve, em qualquer dia, reações do corpinho a dela à mudança na alimentação. Claro que também mantivemos o bom-senso, e continuamos a barrar os doces exagerados, o chocolate, refrigerantes, etc.

Para a locomoção, usamos mais, teimosamente, o metrô. Em Paris, metrô e bebês não combinam! O acesso a carrinhos é quase inexistente. Não há elevadores ou escadas rolantes em quase todas  as estações, e os vagões enchem bastante - o que deixava a Laura muito agitada. Depois de passear livremente nos parques e nas ruas largas de Paris, era difícil fazê-la consentir em ficar tranquila no metrô. Mas, as linhas são vastas e nos levam a qualquer lugar, bem rapidinho. Então, a angústia era passageira... Uma boa estratégia era levar o sling e usá-lo para os trajetos. A foto aí é de uma das escadarias da estação de Liège.

Fazer os passeios de ônibus é uma boa opção! Eles são todos adaptados, e têm janelas enormes, que nos permitem um visual maravilhoso. Laura aprovou! Mas, infelizmente, são poucas linhas e elas não levam a todos os lugares legais de se visitar. Dá para ter uma boa noção antes de viajar, pesquisando no mapa interativo da RATP. A gente acabou deixando para fazer isso lá, o que nos fez perder tempo e ficar estressados discutindo qual era o melhor jeito de ir pra lá e pra cá. Uma das lições que tiramos foi a - óbvia, diga-se de passagem - de se planejar os roteiros de passeios e trajetos, bem antes!


Mas, ainda assim, aproveitamos muito e visitamos quase tudo que queríamos. Laura só se incomodou por duas razões: o vento frio da Torre Eiffel (sem contar a falta de educação dos visitantes que furam filas, e atrapalham muito a vida de quem está carregando um bebê - depois conto da situação patética que passamos com uma grupo enorme de mais de vinte japoneses caras-de-pau); e os longos percursos de TGV (gente, se você é contra o uso de calmantes para bebês, não vale a pena se arriscar a viajar duas horas de trem bala com uma deles!), digo isso porque Laura é uma das crianças mais calmas e bem humoradas que conheço, e mesmo assim, a viagem para Lyon de TGV foi uma loucura!

Dos locais visitados, passamos por museus (Louvre, Museu do Exército, Museu dos Marionetes, Museu da História de Lyon) a parques ao ar livre (Parque Monceau, parquinhos de bairro), igrejas (Notre Dame, Sacre Ceur, e outras em Lyon), e a atrações para crianças (Aquário de Paris, Cidade da Ciência), além dos passeios à pé pelas lindas avenidas e pela margem do Rio Senna. As atrações para crianças foram muito bem aproveitadas por todos nós! O aquário é lindíssimo (apesar de caríssimo), e a Cidade da Ciência foi um dos melhores passeios que fizemos! Tiramos muitas fotos e até filmamos alguns experimentos interativos. Se Laura fosse mais velha aproveitaria mais, porém, mesmo novinha ela transbordava empolgação com as novidades!


Se mochilão e bebê combinam, eu não sei... depende de cade família e dos esquemas que podem armar para se preparar. Mas, sei que Laura e mochilão combinam muito bem! Ela adorou a viagem e agora, de volta a rotina, não deu qualquer trabalho para dormir e comer bem. Além disso, já voltou à escola, sem muito drama. Resumindo, valeu muito à pena! Beijo e Tchau!


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O que está sob os véus na França?

Um dos assuntos mais debatidos com meu marido durante nossa viagem à França foi a aprovação quase unânime do congresso francês à proibição do véu islâmico. Antes, é  melhor esclarecer que a proibição se dá sobre o uso de véus que cubram o rosto em lugares públicos, com a justificativa de que eles inibem a identidade da mulher e de que lhe usurpam direitos consolidados no país. Mas, há dúvidas ainda sobre a constitucionalidade da medida.

Para mim, o que importa neste post, e o que importava quando passávamos por casais claramente mulçumanos ou mulheres inteiramente cobertas pelas ruas de Paris e Lyon, é discutir qual é o simbolismo disso, para a sociedade ocidental e para cada uma dessas cidadãs que é obrigada ou constrangida a vestir-se assim. Vimos algumas vezes mulheres completamente cobertas, sentadas no chão de estações do metrô, pedindo esmolas. Nenhuma delas estava acompanhada, de criança ou homem. Certamente são exploradas por seus maridos ou pais. Os casais que vi eram formados por homens vestidos normalmente - de acordo com a temperatura ambiente - e mulheres bem maquiadas, mas de magas compridas, sobre-tudos e véus sobre as cabeças, mesmo quando estava calor.

É de se estranhar uma lei que interfere na vestimenta de cada um, mas é claro que o objetivo dessa proibição é muito mais amplo. Acredito que a preservação da cultura francesa e, de quebra, européia, está na base do apoio a esta lei. No berço do feminismo, onde metade da população não acredita em Deus, é um tanto contraditório o livre desfile de mulheres oprimidas pela burca, mesmo que seja por uma questão de fé. Sabe-se que o uso do véu longe de rituais religiosos foi intensificado pelas ditaduras no Oriente Médio, como no Irã e no Afeganistão. Muitas mulheres testemunharam uma opressão se tornar um hábito, sobre o qual pouco se questiona. Aliás, sobre esse assunto, é interessante ver um filme chamado Persépolis - uma animação francesa baseada na vida de uma iraniana que acompanhou desde seus sete anos a transformação de seu país numa ditadura religiosa.

Eu não sou atéia, e defendo a liberdade religiosa. Mas, acredito que a garantia da liberdade individual e do usufruto de direitos sociais igualitários devem vir antes de qualquer lei religiosa. Se a burca fosse apenas um instrumento de fé, usada em rituais, por livre vontade, não chamaria tanta atenção da classe política, seja ela conservadora ou liberal. Mas, sob ela está uma concepção de inferioridade e subjugo das mulheres. Ela representa o máximo de opressão que uma religião pode ter sobre a sexualidade. Ela conjuga mais explicitamente os dogmas machistas que perpassam várias religiões, inclusive o cristianismo.

Acredito que os franceses têm todo direito de se movimentar, através da lei, para preservar sua cultura, e não permitir que um ato opressivo, símbolo das ditaduras islâmicas, se torne lugar-comum em seu país. Assim como os turcos exigem que as turistas cubram seus quadris e, em certas situações, as cabeças, os franceses podem exigir que seus cidadãos não ostentem símbolos religiosos que contradigam os valores de suas leis.
E você, já pensou sobre o que está sob o uso do véu?

sábado, 2 de outubro de 2010

Porque eu amo Paris e outras reflexões da viagem

Chegamos ontem de noite, depois de uma viagem de férias em Paris e Lyon, num estilo meio mochilão em família (Laura no sling ou carrinho, mochila nas costas e pé na rua, todos os dias, sem guia turísco a não ser os mapas). Em Paris ficamos em dois hotéis razoáveis e em Lyon nos aventuramos num quarto familiar do Albergue da Juventude. O saldo da viagem é positivíssimo! Os perrengues vão virar piada - alguns ficarão no livro secreto de segredos dos Pombo-Lino (ficou feia a combinação, né? Ainda bem que não mudei meu nome depois de casada...), outros me fizeram pensar e atravessar uma nova dimensão no universo família-casamento-maternidade, que espero dividir com vocês!  Viajar nesse esquema, às vésperas de fazer 2 anos de casados, pode ser uma virada de página num casamento - depois eu conto porquê!

As fotos (mais de 400, por causa da empolgação de meu marido no Museu do Exército) ainda não foram passadas para o computador, porque estamos sem o cabo e o cartão de memória não é compatível com meu notebook. Então, este aqui será um post introdutório a tudo que pretendo contar. Espero que o próximo seja mais completo e ilustrado!

Gente, caindo no risco de ser piegas, eu amo Paris - amo muito - como uma cidade adotada, um cantinho que a gente escolhe amar assim involuntariamente, com suas belezas e feiúras, mesmo sem habitá-lo diariamente. Achei que Lyon me faria desistir dessa paixão pela cidade-luz, porque é menos caótica, além de ter aquela arquitetura francesa impressionante. Também é uma cidade mais bem preparada, em termos de transporte, o metrô tem acesso fácil e policiamento constante. Mas, mas, mas... Isso não aconteceu.

Acho que Paris me dá a dimensão da humanidade, do que é ser humano, da história que nós escrevemos juntos, das marcas que deixamos, sem exatamente termos consciência. Não só porque essa cidade é palco de eventos históricos importantíssimos, mas porque ela conserva muito bem boa parte de seus memoriais. Aqueles imensos prédios públicos, construídos há séculos atrás, estampando os nomes de seus líderes e seus lemas revolucionários, me fazem pensar "com quantos paus se fazem uma canoa"... ou melhor, com quanta gente se faz um império, uma revolução, uma guerra, uma democracia, uma idéia que sobrevive há tantas mudanças culturais: igualdade, liberdade, fraternidade.

O que acho mais interessante na sociedade francesa é a forte presença do coletivismo. A opinião dos sindicados e das associações sobre a política tal ou o projeto tal são estampados nos jornais, porque são basicamente os termômetros do apoio popular. Alguns críticos dizem que numa sociedade assim é difícil governar e promover mudanças. Pode ser... Mas, ainda assim, a França - depois de ter um governo socialista, um governo social-democrata, um Estado Social forte, elegeu um presidente liberal, de direita, mantendo nas regiões administrativas governantes de esquerda. No âmbito da família, ao mesmo tempo em que promovem políticas para subsidiar o cuidado com os filhos pequenos, dando condições de homens e mulheres participarem igualmente de sua educação, ainda convivem com uma grande desigualdade na divisão das tarefas domésticas. É, portanto, uma sociedade que muda gradualmente, porque tudo que afeta o bem-estar das pessoas vira assunto de interesse público. Debate-se muito, negocia-se muito, e não podemos dizer que o avanço é pequeno.

Quero dizer que, num país onde a divisão das tarefas domésticas é assunto para a coletividade debater, abre-se menos espaço para as iniciativas privadas de soluções individuais s/a, como a contratação e regulamentação de empregas domésticas, que a princípio seriam  soluções mais efetivas a curto prazo, e cria-se uma base mais sólida para soluções de longo prazo, como políticas familiares, com os principais objetivos de incentivar a volta das mães ao mercado de trabalho e a presença dos pais em casa. Há alguns exemplos interessantes, como a licença opcional que permite aos pais de crianças menores de três anos terem um dia a mais de folga semanal, e a possibilidade de uma ajuda governamental parcial para mães que querem trabalhar meio período ao invés de abrirem mão totalmente do emprego para ficarem em casa.

Essa marca do solidarismo/coletivismo francês é o que me atrái tanto a buscar uma vaga de doutorado lá. Aproveitei a viagem para isso, e tive uma surpresa maravilhosa. Os dois professores com quem conversei (um psicólogo social de Lyon e um sociólogo de Paris) foram super receptivos! Com cada um conversei cerca de uma hora e meia. Os dois me atenderam pontualmente, fizeram um super esforço para entender meu francês básico misturado a um inglês melhorado, e me deram esperanças reais de conseguir uma bolsa para estudar lá. A princípio, meu objeto de pesquisa é a solidariedade e o bem-estar das mães que participam de creches parentais, e discutir assim políticas sociais de gênero e família lá e aqui.

Para fazer um resumo de tudo: nossa estadia em Paris e Lyon foi ótima para plantarmos algumas sementes para o próximo ano, para redefinir algumas coisas em nosso casamento, e para mantermos uma idéia muito positiva do povo  francês (aliás, até os garçons nos foram muito solícitos!).