Ontem, dia 30 de Outubro, tive o privilégio de assistir a uma palestra de Michel Odent, aqui no Rio de Janeiro. Foram abordadas razões de otimismo e de pessimismo para aqueles que buscam a valorização do parto natural no mundo. Será que é possível no século XXI redescobrir as necessidades básicas da mulher em trabalho de parto?
Partindo da constatação de que em todas as sociedades, por motivos diversos, o trabalho de parto recebe intervenções fisiologicamente desnecessárias, o Dr. Michel Odent avaliou os condicionantes culturais que produzem tais intervenções. Um deles é a crença, muito presente no século XX, de que o bebê necessita ser higienizado, examinado e protegido por outras pessoas que não a mãe, logo após o nascimento. Apesar de tal idéia ter ganho força com as teorias higienistas da medicina, o professor Odent nos convoca a confiar na ciência moderna e a usá-la para convencer as pessoas de que o bebê recém-nascido precisa mesmo é de sua mãe, e de que essa precisa mesmo é de usar seu "cérebro arcaico primitivo" na hora do trabalho de parto. Isso quer dizer que devemos acreditar na memória coletiva de nosso corpo, que está fisiologicamente programado para parir, cuidar e alimentar nossa cria assim que nasce.
A medicina baseada em evidências é a grande aliada dos defensores do parto natural, porque, segundo Odent, a melhor estratégia para se superar os condicionamentos culturais das intervenções desnecessárias no nascimento é unir instinto e conhecimento científico. A ciência é portanto, a grande legitimadora dessa prática e desse movimento social.
A noção de que há um movimento social em torno do parto natural eu não tirei da palestra. Isso é algo que penso, a partir da observação dos grupos, dos discursos e dos embates sobre o tema., desde que engravidei. O professor falou de "escolas", que mesmo bem intencionadas acabam reproduzindo doutrinas que tornam o parto natural mais difícil. Eu identifico nessas escolas a disputa do campo científico, teorizada por Pierre Bourdieu. Diz esse sociólogo:
Quer dizer que há todo um campo científico que se ocupa do parto e do nascimento, que hoje é dominado pela crença de que as mulheres não são capazes de darem à luz sozinhas, de que é necessário controlar, interferir nesse processo. De onde surgem as práticas mais contraditórias, como o uso de ocitosina para acelerar o trabalho de parto, mesmo em condições de saúde normal.
"O universo 'puro' da mais 'pura' ciência é um campo social como outro qualquer, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros, mas onde todas essas invariantes revestem formas específicas" (Bourdieu, 1983).
Quer dizer que há todo um campo científico que se ocupa do parto e do nascimento, que hoje é dominado pela crença de que as mulheres não são capazes de darem à luz sozinhas, de que é necessário controlar, interferir nesse processo. De onde surgem as práticas mais contraditórias, como o uso de ocitosina para acelerar o trabalho de parto, mesmo em condições de saúde normal.
Mas, há também nesse campo disputas com outras teorias e descobertas científicas, nas quais o Dr. Odent tem enorme influência. A saber: as que partem da convicção de que a natureza da mulher é programada para parir sem necessidade de intervenções. Elas se baseiam em decobertas sobre a fisiologia do parto, afirmando a existência de todo um sistema hormonal competente. E, também pontuam que para os hormônios funcionarem corretamente, o ambiente deve ser favorável, ou sejam deve permitir que a mulher atue sob seu efeito e não use a parte mais racional de seu cérebro - que impediria o fluir desse sistema. Portanto, para parir a mulher precisa de tranquilidade, pouca luz, não se sentir observada, não ser interrompida, etc. O que significa dizer praticamente o contrário do que diz a hegemonia atual do campo científico e social em torno do nascimento.
As escolas do parto natural, para se impor nessa disputa, organizam-se cientificamente, politicamente e economicamente. Há toda uma lógica própria de funcionamento dos grupos de pesquisa, das intituições de formação de profissionais em prol do parto natural, e da relação cliente x profissional. Há uma força que se propaga a partir da união dessas pessoas, e ela influencia a democratização das informações ou a formação de verdadeiros "guetos". Esta aí uma razão para pessimismo... Odent reconhece que certas doutrinas criadas por essas escolas reproduzem outros condicionantes culturais que dificultam o parto.
Eu teria duas questões para o professor Odent, mesmo concordando com a maioria das coisas que ele disse ontem. Uma delas, até fiz, mas não obtive uma resposta satisfatória. Veja bem, mesmo assinalando que as doutrinas podem dificultar a democratização do parto natural, o professor não parece analisar criticamente a disputa mercadológica que se faz entre as escolas e as instituições. É assim que eu, na minha mais simples curiosidade, queria saber qual é o papel do setor público para a mudança cultural que, nós defensoras do parto natural, tanto esperamos. E o professor me respondeu colocando este setor em pé de igualdade com qualquer outro, ou seja, sem reconhecer que ele é fundamental para a democratização desse conhecimento e dessa prática. É na esfera pública que se legitima de forma mais eficiente e justa as práticas e saberes a serem reproduzidos em toda sociedade, em todas as classes sociais. Se não há envolvimento do Estado, das políticas públicas, corre-se o risco de criarem-se guetos "exclusivistas".
E gostaria de entender também porque ao invés de se lutar contra os condicionantes culturais, não se passa a considerá-los como fatores fundamentais no ato de parir. Dar à luz não é somente fisiológico e histórico, é contextual. Dizer às mães de hoje que filmar o momento do parto é anti-natural e por isso deveria ser uma prática evitada, é desconsiderar o contexto cultural, a forma contemporânea de transmissão de conhecimentos mais poderosa, a maneira mais vívida de guardar um momento tão especial na história da família... Da mesma forma, fico com uma estranha sensação sobre as críticas que Odent fez à defesa pela presença do pai no momento do parto.
Quero dizer que, a palestra de Michel Odent, e tudo mais que ele publica, tem sido importantíssimo para o esclarecimento de muitas mulheres acerca do potencial de seus corpos para parir. Mas, com relação a mudança no campo científico e na cultura ocidental, o grande movimento em prol do parto natural (com todas as suas lutas, escolas e instituições), ainda tem nos deixado com poucas respostas...
Quem acompanha este blog, sabe que eu sou uma convicta defensora do parto natural, mas também sabe que sou inquieta com minhas questões e que meu principal objetivo é promover debates e pensamento independente.
E você, se arrisca a levantar mais questões e a apontar respostas?
* Sugestão de leitura:
"O campo científico" In: Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo, Ática, 1983.
"A cientificação do amor", Michel Odent. Florianópolis, Santi German, 2002.
"O mercado do parto humanizado no Brasil", Carolina Pombo. Blog What Mommy Needs, 2009.





