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sábado, 29 de janeiro de 2011

A exposição dos bebês nos blogs e uma nova "vida pública"

Ultimamente o termo "baby brother" tem sido usado para se fazer certo sensacionalismo sobre os blogs maternos. A matéria da Folha, entitulada "Mães colocam crianças em "Baby Brother" na internet; especialistas criticam" de Luisa Alcantara e Silva, já foi debatida por algumas dessas mães (como eu!), inclusive num encontro virtual num Diálogo em Rede da Escola Virtual para Pais, no qual cerca de quinze participantes (dentre mães e não-mães) falaram e escutaram experiências positivas e negativas com a exposição na rede.

O medo de expor demais nossa vida privada é relevante. A ameaça de que um desafeto possa usar as informações postadas contra nós está à espreita. E tem também a possibilidade da criança não gostar de ter sua intimidade divulgada, numa idade maior. Claro que, como toda desbravadora, as mães que usam o blog como diário, espaço de trocas e relatos de experiências com a maternidade podem ter aquele friozinho na barriga misturado à empolgação de estar explorando um mundo novo! Porque a própria Internet é recente!

Nesse ínterim, os "especialistas" são os primeiros a ditarem a condenação e ordenarem a interrupção da aventura (pelo menos, foi o que fizeram os "especialistas" consultados pela reportagem) - você já reparou como alguns jornalistas precisam enfatizar que a opinião expressa no texto vem da boca de um estudioso, doutor, cheio de credenciais? Mas, não podemos esquecer que ainda assim continua sendo uma opinião. O texto é pobre e pouco fala das opiniões das mães blogueiras! E ainda enfatiza o fato de uma das entrevistadas estar de licença médica - como se ela estivesse ociosa e por isso se dedicasse a essa atividade inútil de blogar. Mas a matéria não comenta algo crucial para se compreender esse "fenômeno".

Acontece que esse fenômeno das redes virtuais em torno da maternidade não é simplesmente um Big Brother infantil, que explora inescrupulosamente a imagem dos filhos pelas mães, é algo muito diferente. Essas redes refletem a construção de uma nova esfera pública - um espaço onde valores e ideais sobre maternidade são comunicados, contribuindo para o fortalecimento de movimentos muito ricos, como a maternidade consciente, o parto humanizado, as momperuners (ou mães empreenderoras). Milton Santos já sinalizava, com muito otimismo, que nosso tempo é rico para a construção de uma nova esfera pública, um novo jeito de se fazer política (na verdade, uma retomada da política em seu sentido original). Como ele, Hanna Arendt já pontuara que essa esfera ultrapassa e antecede leis e instituições legais, ela é formada por um mundo coletivo, onde cada membro tem direito de se manifestar, dar sua palavra e participar de decisões que afetam todo o grupo. E é mais ou menos isso que tem acontecido no mundo dos blogs e redes sociais virtuais: somos iguais, somos companheiras, interlocutoras - que discordam e concordam, mas que se escutam. Fazemos amizades, cultivamos os momentos e sentimentos mais preciosos da maternidade, e compartilhamos com muito orgulho as conquistas de nossos filhos.

Assim, penso que o medo da exposição é normal e não deve ser subestimado - precisamos aprender a lidar com ele, inclusive tomando alguns cuidados com o blog - mas ele não deve ser usado para desqualificar o nosso "mundo coletivo". Saiba que a sua experiência relatada rede afora tem ajudado outras pessoas - como eu! Saiba que o Manifesto pela Valorização da Maternidade nasceu da vivência de três mães blogueiras que já dividiram conosco suas mais intensas experiências, e que outro manifesto está a caminho... dessa vez escrito por mais mãos de mães engajadas!

Não sei se tenho pensado nisso tudo porque estou focada na preparação da palestra "A transmissão de valores de cidadania para as novas gerações", do dia 03 de fevereiro na Escola Virtual para Pais (para a qual vocês estão mais do que convidadas/os). Mas, acho que esse fenômeno dos blogs maternos tem tudo à ver com cidadania. Se queremos dividir nossas vidas privadas é porque começamos a reconhecer nos outros as mesmas questões e necessidades, e passamos a transformar problemas individuais em demandas coletivas. Explorar a imagem da criança é o que a mídia, a tv, as grandes marcas fazem. Nós queremos um outro mundo, e estamos buscando-o, no dia dia de mulheres altamente atarefadas! 

5 comentários:

Mariana - viciados em colo disse...

Olha, Carol, tenho mesmo pensado muito sobre isso.

Tenho considerado a possibilidade de fechar o blog, ou pelos menos os posts de registro e memória (aqueles com maior exposição da intimidade). Mas permaneço no dilema, porque até meus posts mais teóricos expõem o meu pensamento, as minhas decisões, as bases com que foram tomadas. Quer maior exposição do que esta?

Nunca tive nenhuma consequência negativa com o blog. Muito pelo contrário, a partir da interação com outras realidades, só aprendi, evoluiu e melhorei como mãe, como mulher e como cidadã. Percebo que assim como fui ajudada, tenho ajudado muita gente. Por isso fico neste dilema...

Seu ponto de vista sobre a esfera pública que temos a oportunidade de formar e consolidar é o que me move. Estou convencida que a internet é uma senhora ferramenta para o controle do Estado e para a ampliação dos direitos e das nossas liberdades.

Estou louca para terminar este mestrado e entrar de corpo e alma (e dados e estudos e pesquisas e debates) nesta questão.

Beijoca

disse...

Carolina, excelente texto. Verdade que esse é um assunto espinhoso. A jornalista expoe somente o lado negativo, que nao ha' como dizer que é totalmente falso, mas ela errou feio ao nao citar os beneficios como a troca de idéias, detates e tanta coisa boa que o mundo virtual nos oferece.

Ao mesmo tempo, é interessante o debate, pq acho que algumas maes expoe demais os filhos. A gente ainda nao sabe que consequencias que isso pode ter... pode ser que nenhuma ou pode ser que sim. Meu marido fez doutorado na area de "proteçao da vida privada" (informatica) e por isso somos bem sensiveis a esse assunto. Acho até que expomos bastante nossa vida no Pedalando, mas tomo imenso cuidado com as coisas que falo e tomamos juntos a decisao de nao expor nenhuma foto do Rafael. Eu me sinto mais a vontade assim. Criamos um blog particular so' para amigos e familias poderem acompanhar o crescimento dele.

Beijos e boa sorte com a bolsa!

Paloma, a mãe disse...

Carol, excelente reflexão. Eu concordo com vc, nós, mães blogueiras, não fazemos isso para expoôr as crianças (como a mídia faz e ninguém fala nada), nós fazemos por N motivos, que passam pelo entendimento e pela busca de um melhor exercício da maternidade. Claro que adoramos falar de nossos filhos, pois eles nos propiciam esta experiência única e maravilhosa que é a maternidade. E, se além de falar, pudermos refletir sobre isso (como vc, eu e um monte de mães fazem) e socializar estas reflexões, tanto melhor!
Beijos

Rosa Lopes disse...

A blogosfera é a porta de entrada pra fogueira das vaidades em vários setores.
Pescar o que vale a pena leva um tempo, mas a gente acha e pode desfrutar, aprender, encontrar pessoas que buscam idéias e que dão idéias e sem esse recurso talvez não soubessem que tem um apoio do outro lado da tela e lutariam pela mesma causa sozinhas.

Por outro lado eu não acho que ela ajude a descentralizar valores negativos, mães cesaristas procuram o apoio de outras com a mesma concepção, antisemitas outros, enfim temos todo um universo de informações, mas não tenho certeza que elas sejam eficientes no cruze de conceitos e mobilização quando não existe uma grande força por detrás como passou nas eleições, por exemplo.

Quanto a privacidade, sempre se pode bloquear o acesso.
Espero dessa vez poder participar da palestra.
Bj

Adèle disse...

Sempre adorei o tema da gravidez, parto e pós-parto, mas foi só graças aos Blogs de mães que consegui a maior parte das informações que os sites médicos não revelam, como detalhes sobre a placenta e a episiotomia, os procedimentos e abusos pelos quais passam as gestantes e parturientes nos hospitais, os DIRETOS das mulheres e onde denunciar caso não forem respeitados, tudo isso de um ponto de vista REAL e não apenas técnico. Concordo que deve-se tomar muito cuidado na hora de postar fotografias e vídeos de crianças, mas as informações presentes nos Blogs são valiosíssimas, pois revelam a realidade sócio-cultural atual. Alguns Blogs são muito detalhados, contendo informações muito completas sobre o desenvolvimento infantil, um material muito importante para pesquisas de desenvolvimento humano. Deve-se levar em conta todos os benefícios que uma divulgação maior de informações, sem censura, pode trazer. Por outro lado é verdade que as imagens e vídeos postados nos Blogs estão à disposição de qualquer ferramenta de busca da internet, portanto deve-se ter critério na hora de escolher quais serão divulgadas abertamente ao público e quais é melhor mandar apenas para os familiares.
Bjos
(http://avalarini.blogspot.com/)