Hoje a Taís Vinha do Ombudsmãe nos presenteou com uma excelente reflexão! O texto "Criando filhos felizes" nos faz pensar sobre consumismo e sua relação com a nossa (in)felicidade. Numa sociedade altamente influenciada pela produção em massa, e pela intensa velocidade das comunicações, é difícil pararmos para pensar antes de comprar, e principalmente, antes de encher o quarto de nossas crianças de brinquedos, sapatos, roupas e tralhas inúteis. Mas, este é um exercício valioso, que nos leva a refletir sobre os valores que transmitimos às novas gerações (aquelas que serão jovens quando formos velha/os, dependentes e necessitada/os de ajuda).
Esta semana mesmo eu estava no Jardim Botânico com uma amiga e sua filhinha, conversando sobre o excesso de presentes que nossas meninas ganham. Ela insistia para que eu aceitasse ficar com uma cadeirinha recheada de legos, que sua filha já tinha em dobro e que já se acumulava a outras duas cadeirinhas e uma mesa infantil. Eu gostei da ideia dos legos, porque Laura ainda não os tem, mas cadeira para brincar ela já tem duas! Rimos juntas e trocamos dicas para nos livrarmos dos montes de brinquedos estacionados nos quartos. Até lembrei de uma iniciativa bem interessante que existe em São Paulo, o Clube do Brinquedo.
Eu mesma, quando criança, tinha poucas coisas, e a maioria era para brincar ao ar livre: bolas, patins, bambolês, elásticos, panelinhas e baldinhos de areia, enfim... Eu sei que hoje, nos centros urbanos, é mais difícil encontrarmos espaços coletivos para curtir essas brincadeiras mais livres, mas não devemos descartá-las de nossa rotina. Acho que a qualidade do tempo que os pais passam com os filhos também é afetada pelo tipo de atividade que fazem juntos. Se você compensa sua ausência com presentes, rotineiramente, e acostuma a criança a frequentar shoppings e fazer compras, estará tirando dela a oportunidade de curtir momentos autênticos com outros amiguinhos, com você, a natureza, bichinhos de estimação ou de fazenda, dentre outras coisas desse universo lúdico do ser - porque não são só os brinquedos que oferecem a oportunidade de se desenvolver a criatividade.
Criatividade, pela definição de Winnicott, é uma energia vital, que se desenvolve a medida em que o sujeito aprende a reconhecer o outro e os objetos externos a si, mas não antes de ser capaz de se expressar em seu meio social (senão o outro se impõe como autoridade irrefutável ou objeto inteiramente subjugado). Para Winnicott, o espaço potencial é um lugar subjetivo de troca, de interface, onde podemos manipular objetos e sentimentos, comunicando-nos com nossos pares. Quando temos a oportunidade de viver num ambiente acolhedor e diversificado, desenvolvemos um espaço potencial rico, e assim temos aquela sensação gostosa de autenticidade - sabe quando você lê um livro, com o qual parece conversar pessoalmente? Ou uma música que te toca lá no fundo? O prazer é pelo reconhecimento de que aquele universo irreal é, ao mesmo tempo, coletivo (outra pessoa o criou, outros leitores/ouvintes o compartilham, e você faz parte disso).
Criatividade e autenticidade são as chaves para um desenvolvimento emocional saudável. Para quem se preocupa em criar filhos felizes, elas são mais importantes do que a tal competitividade - que vemos tanta gente impor às crianças desde cedo. Se por acaso, Laura for descriminada na escola porque não tem a mochila da moda e não muda de sapatos todos os dias, ficarei feliz demais se ela tiver paz consigo mesma a ponto de não se afetar. Se ela sentir-se um pouco triste por não ser igual aos amigos, ao invés de eu sair correndo para comprar o que lhe faz falta, tentarei ajudá-la a criar algo novo, autêntico, que dê sentido à essa falta. Falta que, na verdade, faz parte da nossa constituição humana, e que ainda que se tente, não pode ser completamente saciada. Disso que se trata a vida, e talvez a tal felicidade: de sentir-se em paz para criar sobre aquilo que não se pode ter.
E você, qual alternativa oferece a sua/seu filha/o?
6 comentários:
putz, carol, realmente é uma reflexão mais que necessária, como já comentei lá na minha xará. Mas será que oferecer alternativas é suficiente nesse meio de consumo massacrante em que vivemos? isso tem me deixado muito em crise ultimamente, já que o caio tem demonstrado cada vez mais quereres, e alguns deles no sentido do consumo (ainda que ele não tenha consciência disso). Em termos de alternativas, acho que estamos bem por aqui: Caio tem contato cotidiano com animais (temos dois cachorros), com plantas e espaços livres (temos quintal, ele nos ajuda a plantar, passeamos bastante em parques...), costumamos frequentar ambientes naturais como fazendas e viajar para lugares de natureza exuberante, como Bonito, é raríssimo irmos ao shopping (e, da última vez que fui, tive certeza que não volto com ele lá tão cedo, tamanha foi a pressão daquilo tudo em cima do moleque), não temos tv a cabo e ele praticamente nunca vê tv em casa (a não ser filminhos e desenhos escolhidos a dedo e a série do cocoricó), ele está numa escolinha em que a diversidade social e cultural está presente, é muito raro comprarmos brinquedos/roupas desnecessárias para ele (inclusive muitas das coisas dele são herdadas de amigos).... enfim, acho que, alternativas, oferecemos várias. Mas, ainda assim, a exposição ao consumo é inevitável: seja no bombardeio de presentes a cada natal/aniversário, seja no contato intenso com TV quando viaja para a casa dos avós, seja no dia-a-dia com os amiguinhos, ou seja nas ocasiões mais inusitadas, como ocorreu outro dia aqui em casa, e que foi justamente o que me levou a começar a pensar nisso tudo: caio tinha um álbum de figurinhas do cocoricó, que ele curtiu um pouco e depois desencanou. Daí, outro dia ele achou o álbum e, na contracapa, tinha uma página de "concurso cultural" com imagens de todos os prêmios que as crianças podiam concorrer: ou seja, TODOS OS PRODUTOS DA MARCA COCORICÓ. O moleque pirou, viu um relógio do Júlio e queria na hora. Eu, pacientemente, expliquei que não dava, que não era hora de ganhar presente, que a mamãe não podia comprar agora, sei lá o que mais eu falei. Mas ele encasquetou. E vira e mexe me pergunta: mamãe, a loja tá aberda? Compra o relógio do Júlio?
Ou então, na escolinha, os dois dias que fui buscá-lo nesse reinício, ele veio me mostrar as mochilas de ben 10 e homem aranha dos amigos, fica passando a mão nas mochilas, ele está desejando aquilo.... Uma situação nova pra mim, estou realmente em conflito com isso.
Esses textos de vocês foram bem bacanas pra pensar mais no assunto, mas ainda me sinto um pouco perdida em como agir frente a esse despertar que está acontecendo nele.
Já ouvi falar um pouco de Winnicott, me recomenda alguns livros? Fiquei interessada!
beijos e desculpa o comentário tão looooongo, mas esse assunto tá na pauta do dia na minha vida...
thaís
(ah, adorei tb o texto sobre a nova vida pública!)
Olá, somos alunos de pós-graduação e o tema de nosso trabalho de conclusão de curso é: mães que viajam com seus filhos. Fizemos uma pesquisa por blogs sobre o assunto e encontramos seu contato. Gostaríamos que você nos ajudasse respondendo algumas perguntas sobre esse tema, lembrando que esse questionário tem fins acadêmicos.
Para participar, basta acessar o link:
https://spreadsheets.google.com/viewform?formkey=dF9Yc2xjbk5UOHJWTUFCUWNEVEoxZ1E6MQ
Agradecemos sua participação.
Cheguei aqui por acaso, gostei e fiquei.
bj
Eu te digo que é muito difícil, Carol. Apesar de ter sido criada com o consumismo perto de zero (meu pai é o típico intelectual de esquerda que não me dava NADA de marca...), sou meio consumista (pode ser até uma forma de trangredir rsrsrs)...
Esse consumismo vem principalmente em relação às crianças. Muitas vezes, nas lojas de brinquedos, me vejo encurralada entre os valores da minha criação+teorias sobre o mundo e as minhas verdadeiras atitudes. Vejo que preciso mudar alguns hábitos urgentemente.
Por outro lado, temos o hábito de ir a parque e praças (sem dinheiro - pq aqui em SSA até nas praças existem apelos de conusmo), ficar no quintal das casas do avós e conversar muito sobre isso.
Tenho conversado sobre as propagandas (ontem mesmo alice me xplicava que nem tudo que passa na televisão é verdade, e tals), sobre os apelos de consumo (brindes inúteis que se ganha comendo porcaria - que ela tem aceitado não comer)...
Agora mesmo foi aniversário de Arthur: ele ganhou tanto brinquedo!!! Ontem comprei quatro caixas plásticas para guardar boa parte e ir dando aos poucos. Ele só tem um ano e não precisa de tantas coisa - basta um carro, uma bola, um boneco e uns blocos de encaixar. É isso que ficará ao seu alcance.
Faço o mesmo com Alice...
Beijoca
Taís, que bom compartilhar essas coisas, né? VEjo que você se esforça muito para transmitir seus valores para seu filhote, e tenho certeza que ele está absorvendo-os. O consumo em si não é o problema, porque faz parte também a gente criar nossas preferências, nossos afetos e cuidar das coisas que gostamos. O problema é quando esse consumo é totalmente desapegado, quer dizer, é apenas uma reprodução do que vemos ao redor. Aí, a relação que criamos com as coisas é descartável, e afeta também a maneira como vivemos em sociedade. Seu filho quer fazer parte do grupo, e ele está aprendendo as estratégias para isso, uma delas é ter o que os amiguinhos tem. Uma dica que eu daria é tentar entender o quanto ele gosta de uma coisa ou outra que pede, e presentá-lo somente com aquilo que for realmente importante. VocÊ pode fazer isso na base da conversa, falando claramente que ele não precisa ter tudo o que os amiguinhos tem para se sentir parte do grupo. Acho que vc está indo num bom caminho, não se preocupe!
Adriana, seja muito bem vinda!
Mari, adorei a explicação da Alice! Ela é uma menina muito esperta! Acredito que seus valores acabam passando para seus filhos, mesmo sem perceber... veja só que maravilha a festinha do Arthur! Aqui em casa, desde cedo, falo com a Laura na hora de dar um brinquedo ou uma roupa dela pra alguém. Ela abraça as coisas, diz que "é da Laura", mas aceita numa boa entregá-las. Acho que é uma forma de ensinar o verdadeiro valor das coisas, né?
Beijos a todas!
Oi querida, saudade...fiquei muito, muito doente depois que publiquei aquele texto sobre a felicidade e nem consegui responder. Estou melhor, mas voltando devagar.
Vc fez reflexões muito importantes sobre esse sentimento tão desejado e tão pouco compreendido. Concordo com aquela sua colocação que há situações em que se sentir feliz é complicado, como na miséria extrema e na ausência de liberdade individual. Existem estudos que mostram que para haver felicidade coletiva, boa governança e estabilidade financeira são necessárias. Mas infelizmente a situação da maioria de nós é o contrário: temos os pré-requisitos, mas infelizmente, procuramos a felicidade nas coisas externas, quando ela mora mais dentro de nós.
Hj vou publicar meus "pensativos" pós comentários no blog.
Semana que vem volto 100%. Bjs!
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