Este blog faz parte do Portal What Mommy Needs, juntamente com o blog Dicas da Mel, e nossas colunas Vida Sustentável, Dicas Culturais, Mãe em Análise e Palavra da Professora.

Aqui, a voz é quase sempre de Carolina Pombo - mãe, escritora, psicóloga e empreendedora "verde". Alguém que adora perguntas, ama debates, e abre o coração sem medo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A menstruação nossa de cada mês

Existe algo de sagrado em menstruar? Algo espiritual?

A resposta vai variar de acordo com a crença e a cultura do respondente. Para certos médicos (em especial o Dr. Elsimar Coutinho, inventor do implante que interrompe definitivamente os ciclos menstruais), ela tem algo de espiritualmente maléfico. Este mesmo doutor a colocou como "coisa do diabo", em fala no documentário Mulher em Fases.

Hoje, vi este filme pela segunda vez, e voltei a pensar no assunto e nas dicotomias que ele apresenta. Há quem diga que as mulheres modernas querem parar de menstruar e mal conseguem pensar sobre as consequências que os hormônios sintéticos podem ter sobre seus corpos, ante a ansiedade de verem-se livres! O artigo da Boa Forma, "Menstruação interrompida: prós e contras" parte desta premissa, por isso, anuncia a matéria com o subtítulo: antes de se livrar da menstruação, saiba quais são os prós e contras. Mas, há também quem veja na menstruação uma ligação especial com o poder de gerar a vida, uma espécie de relação única com a natureza. É com esta conclusão que a criadora do documentário supracitado termina sua busca árdua pelo sentido da menstruação.

Se o doutor diz que não há sentido num sangramento inútil, outros personagens da ciência, como os antropólogos e ginecologistas entrevistados no filme, dão a ele um papel fundamental na vida, na saúde e na identidade feminina. Eles apontam alternativas para lidarmos como as dores e o mal estar dos períodos menstruais: dança terapeutica, terapia energética, masturbação, dentre outras práticas tradicionais de diferentes culturas, nas quais o feminino é sagrado, são apresentadas como formas naturais de alívio do sofrimento que algumas mulheres têm com cólicas e a tensão pré-menstrual. Umas das coisas mais interessantes que ouvi foi que, na verdade, a TPM coloca você em contato mais forte com suas próprias necessidades, retirando um pouco o peso do sensor racional que lhe impõe a repressão de seus instintos e emoções nos demais dias. Então, quando a mulher resolve discutir o relacionamento com o parceiro nesse período não é apenas por causa da TPM, mas porque algo não vai bem há tempos e ela tenta contemporizar sem resolver há tempos... Claro que, se a tensão está acumulada e o estresse é normalmente grande, numa fase como essa, a explosão tende a ser monstruosa!

Em tempos de velocidade acelerada, mulheres multitarefas, violência, consumismo, competitividade em alta, economia globalizada, ainda há espaço para aquelas que querem respeitar seu ciclo corporal original? Dá pra querer que a temporalidade feminina seja respeitada em sua especificidade? Muita gente acha que não, e por isso opta e incentiva o uso das terapias hormonais que interrompem os ciclos. A blogueira e cientista Aninha fez sua defesa polêmica no blog O divã de Einstein, e recebeu uma infinidade de comentários, inclusive meu e da Ceila Santos do Blog do Desabafo de Mãe. Na ocasião, Ceila nos convidou para refletir e debater o assunto. E só agora acho que estou preparada para falar nele.

Sempre sofri com cólicas, mas nunca me grilei com a ideia de menstruar. Quando aconteceu a primeira vez, eu estava a três dias de fazer doze anos, brincando numa colônia de férias. Eu era uma moleca, mas adorei a notícia de ser mocinha! Desde então, sempre acompanhei meus ciclos e só fui saber que existia TPM depois de tomar pílula, aos vinte anos. Apesar de ser de uma família de mulheres (quatro irmãs), não me lembro de ouvir muito essa sigla lá em casa até que minha irmã mais nova virasse adulta. Talvez, ela tenha se tornado mais falável mesmo na década de 1990 e por isso demorou para fazer sentido na minha vida. Quando ela entrou em meus ciclos, porém, foi como uma carapuça! Um rótulo que enfim explica tudo, como se eu precisasse que alguém nomeasse as mudanças de humor que eu percebia na segunda quinzena do ciclo.

As mudanças nunca foram exatamente um problema até eu começar a namorar sério. Toda vez que eu ficava mais sensível, mais carente e até mais agressiva com meu namorado, me vinha a tal sigla em mente. Passei, assim, a justificar para ele meus comportamentos. A pílula anticoncepcional veio como um remédio para as cólicas e para evitar filhos - claro - mas não deu muito jeito na TPM. Até remédio psiquiátrico uma ginecologista tentou me enfiar goela abaixo... mas eu não tive coragem de atravessar a tarja preta só por causa de umas alteraçõezinhas de humor.

Vocês já devem ter lido por aqui sobre o fato de eu ter engravidado tomando pílula e pílula do dia seguinte. Então, vão entender porque, depois de parir e amamentar, não me senti mais confiante e tranquila com este método contraceptivo. Foi também quando me interessei em saber porque minha mãe não tomava remédios anticoncepcionais: porque a fazia mal - simples assim. Cheguei a experimentar duas outras marcas, mas ambas alteraram demais meu ciclo, fazendo-me menstruar por quinze dias ou não menstruar em dois meses. E, finalmente, concluí que, no momento, com as opções do mercado, prefiro não ingerir mais hormônios e tentar me conciliar com meu ciclo natural. Claro que há intempéries, como a de hoje (demiti minha empregada... e já voltei a considerar sua readmissão...), mas até elas me fazem ouvir melhor minhas necessidades e evitar postergar a resolução de conflitos e problemas latentes. Porque, de fato, não são o sangramento nem as mudanças hormonais os meus problemas, como a indústria farmacêutica tenta me convencer.

Além de tudo, penso que há uma razão especial para as aspirantes a mãe não pararem de menstruar antes de engravidarem: acho que podemos tirar lições preciosas de nossos ciclos para serem usadas na hora do parto. Suspeito que se eliminarmos de nossas histórias de vida as fases de supressão da racionalidade excessiva, teremos muita dificuldade em lidar com nosso corpo num trabalho de parto ao natural. Seria este então, mais um círculo vicioso da medicalização de nosso tempo?

14 comentários:

Anônimo disse...

legal, Carol, também gosto dessa discussão. detesto ficar menstruada mas não cogito de jeito nenhum em tomar nada pra parar, acho muita loucura. mas eu não sabia dessa história da gravidez com pílula e dia seguinte! como assim??? o melhor método é camisinha mesmo, não tem jeito... bjs.

Surya

Blog da Escola Virtual para Pais disse...

Carol,
Vc como sempre com uns temas complexos...

A escolha pela dos métodos contraceptivos envolve diferentes questões: física, mental, religiosa... O importante é que seja uma escolha consciente porque terá consequências para a própria mulher, principalmente para aquela que ainda não engravidou.

Como Surya disse o melhor método é a camisinha, até porque precisamos lembrar da AIDS. Aí vem uma outra questão: independente do método contraceptivo, a camisinha deve estar presente no dia a dia do casal como prevenção à AIDS? Caso não, qual o momento para parar de usar a camisinha com um parceiro fixo? Depois de um teste? Fica como sugestão para outro post.

Compartilhei um link desse post no Portal da Escola Virtual para Pais, ok?

bjks,
Marcia

márcia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mirys + Guigo + Nina disse...

Morning, morning, sweetheart!

Carol, é o seguinte: tem selinho pra vocês lá no nosso blog! Não sou muito disso (pois fico com medo de mandar selinho para quem não quer ou não mandar para quem gostaria), mas hoje decidi declarar publicamente quem a gente lê e gosta.

Te descobri há pouco tempo, mas virei leitora assídua!!! E resolvi fazer a propaganda desse seu espaço!

Então, se quiser ir buscar seu selinho, passe por lá
http://diariodos3mosqueteiros.blogspot.com/2011/02/e-para-voce-o-que-e-importante-em-2011.html

Bjos e bençãos.
Mirys

Ivana (Coisa de mãe) disse...

Carol, esse tema realmente dá pano pra manga. Vou ser bem sincera: durante todo o período em que amamentei e não menstruei senti muita falta (continuo amamentando mas já voltei a menstruar desde janeiro). A menstruação, pra mim, faz muita diferença. Quando menstruo, a minha vida sexual é outra, a minha relação com o meu corpo é outra. Não tenho problemas com cólicas ou TPM e, ainda que os tivesse, não pensaria duas vezes em tratá-las de forma tradicional, ao invés de simplesmente dar fim ao ciclo menstrual.

A minha ginecologista prescreveu pra mim um anticoncepcional injetável trimestral e disse que mesntruaria muito pouco. Resolvi fazer a experiência, mas, se me incomodar esse "pouco" ou "quase nada" de menstruação, vou partir para o D.I.U.

Deixa a natureza trabalhar, né? Com todo o respeito às opiniões em contrário.

Bjos!

Ivana

márcia disse...

bem, eis um dilema que me aflige.
o meu anticoncepcional é injetável com duração trimestral e eu não menstruo. tá, as vezes ocorre um sangramento bem discreto que um protetor diário resolve.
claro que comentei isso com o ginecologista e ele me perguntou se além disso ocorria algum outro sintoma que me incomodasse. respondi que não. então ele me respondeu com a seguinte frase: -" se eu fosse mulher também não iria querer menstruar".
isso não me confortou muito, não. eu tenho a sensação que meu corpo não me pertence, é estranho. eu não morro de saudades da menstruação, mas parece que algo me falta. mas com dois pequenos não penso nem na hipótese de uma terceira gestação, então estou pensando seriamente em Diu & opinião de outros ginecologistas, preferencialmente de uma mulher ginecologista.

Clarissa disse...

Carol, esse post é nota mil! você não faz ideia de quanto andei pensando nesse assunto, e como me incomoda tb essa nova classe de pílulas "revolucionárias" que "protegem" a mulher através da supressão do sangramento mensal. Eu sou favorável ao DIU como conceito, mas nunca usei. Mas sou ainda mais favorável à pílula masculina ou ao desenvolvimento de uma nova classe de contraceptivos que atuam não nos hormônios, mas nos outros bioquímicos necessários para a contracepção (tipo algo que torne o muco cervical hostil, por exemplo). Nem sei se isso existe, mas com todos os avanços científicos, certamente seria possível se a medicina não tivesse fundamentos intrinsicamente machistas onde o "controle dos (perigosos, assustadores) poderes femininos" fosse um objetivo oculto, e inconsciente, porém inegável.
valeu por levantar mais um assunto polêmico e essencial! E depois me fala como conseguir esse documentário. bjo!

Melissa Marsden disse...

Tenho que dizer que frases como "se eu fosse mulher também não iria querer menstruar" (do ginecologista da Márcia) e as do Dr. Elsimar Coutinho me irritam. Acredito que devam existir mulheres que optem por não menstruar - talvez muitas sejam daquelas que passam muito mal nesta época - mas para mim falas como essas são coisas de homem que não entende bulhufas de mulher. A menstruação não é somente um evento biológico. O pior é que nos casos citados os sujeitos são ginecologistas! Que médicos estamos formando?!

Carolina Pombo disse...

Oi gente! Só pra esclarecer uma coisinha, para não gerar mais polêmica ainda: engravidei depois de uma semana de interrupção da pílula, mesmo tomando a pílula de emergência 30 horas após o coito. Normalmente, as bulas de anticoncepcionais dizem que a fertilidade só volta ao normal três meses depois, mas alertam para o problema do esquecimento do medicamento. Ou seja, ela não é 100% confiável porque depende de vários fatores (memória, não vomitar ou ter diarréia, e não viajar sem uma cartela a tira colo - meu caso!). A pílula de emergência só funciona antes do óvulo fecundado nidar na parede do útero, o que ninguém pode saber é o tempo de seu óvulo. Depois de "nidado", dizem até que esta pílula ajuda a preserva-lo...

So... camisinha ainda é o melhor método, apesar das inconveniências... rsrs

Rosa Lopes disse...

Houve um tempo que eu queria muito engravidar e passei a usar o método da temperatura basal. Medir a temperatura todo dia mais que me avisar o período fertil me fez conhecer sinais em mim que eu nem percebia, e o pior é que eles eram tão regulares que acredito que sempre estiveram ali e eu nunca tinha parado pra percebé-los.

Eu não engravidei, aprendi a me conhecer e a identificar minhas fases, com isso também algumas 'soluções' pra ansiedade e TPM e sim disso tudo veio um certo fascínio da ação da natureza em mim. É como fazer as pazes com um problema que não no fundo nem era problema. Nem sempre vai tudo bem, como vc disse têm as "intempéries" kkkkk. Mas eu superei, acho, a pressão externa que nos faz culpadas pela nossa condição natural.
Penso que no dia que ELA não der mais as caras vou deprimir.
bj

maesmulheresmaravilhosas disse...

Sou contra, definitivamente contra, o uso de hormônios exceto em casos onde a intervenção medicamentosa seja necessária para a saúde da mulher.
Vários procedimentos tidos como inofensivos hoje só apresentarão seus efeitos mais tarde, muito mais tarde.
Somos mulheres. Mulheres são de fases. Vamos em frente.

Vanessa disse...

Eu ouço o Dr Elsimar Coutinho falar sobre o assunto há muitos anos mas nunca me convenci. Apesar de também sempre ter tido minhas cólicas, sempre achei que o ciclo mensal me conferiu um conhecimento do meu corpo muito grande. E não rezo pelo fim da menstruação pois com ela irão os hormônios que me são tão necessários. Voto nas regras, então!

bjs

Mariana MT disse...

Adorei sua postagem. Se sentiu preparada para falar sobre o assunto e realmente estava preparada. O texto ficou excelente.

Eu sempre sofri demais durante as menstruações: cólicas intermináveis, ciclo longo, desregulado, fluxo intenso, dores de cabeça, enjôo.

Perdi vários eventos por conta desses mau-estares. Em contra partida nunca soube o que é TPM...e com a sua ligação entre TPM e lado emocional. Fico, particularmente, feliz por isso.

Adorei cada mês sem sangrar, enquanto estive grávida e amamentando.

Nunca me adaptei a pílulas...e como fui operada depois do meu segundo filho, não vou mais precisar de nenhum outro método para não engravidar.

Eu viveria feliz da vida sem mentruar...mas não quero ficar ingerindo químicos para isso.

Enfim...cada um sabe o que é melhor para si. Mas fico feliz de chegar neste blog e perceber que ainda há mães que valorizam, priorizam e optaram por viver e educar seus filhos de uma maneira mais natural e verdadeira.

A cada dia gosto mais de vir aqui!

Sucesso com a loja vitual. Como já mencionei, achei a idéia genial!

Anônimo disse...

Tenho ciclos regulares desde minha primeira menstruação. Nas duas vezes que atrasou, estive grávida. Não menstruo enquanto amamento, e acho uma maravilha, mas acho que a menstruacão é um sinal de que tudo vai bem com o corpo. Uso método natural (billings) para contracepção, o que me faz muito mais atentao ao meu ciclo, meu corpo, minhas dores, meus humores, e muito mais conectada ao meu marido. Somos pessoas muito mais unidas por não dependermos de remédios ou dispositivos mecânicos para regularem nossa família. Posso evitar uma outra gestação, mas é Deus quem manda. Você mesma engravidou evitando; e um post aí em cima a pessoa disse que tentou engravidar e não conseguiu. Não há arma humana que, definitivamente, mande nos planos de Deus.