Se apenas tivéssemos ouvido no jornal da tv que uma manifestação popular no Morro do Bumba, em Niterói, fora contida pela ação da polícia - mesmo que mencionassem o uso de spray de pimenta - não sentiríamos qualquer solidariedade pelos manifestantes. A verdade é que, no dia dia, os conflitos sociais de nossas ruas são estampados como eventuais "badernas" e ameaças à harmonia singular de um país tão multicolorido como o Brasil. Estamos acostumados a ler manchetes e engolir as pilulas de emoções istantâneas que elas nos oferecem. Assim, choramos com a tragédia do Morro do Bumba em 2010 (com 7.000 desabrigados e mais de 100 mortos), e consentimos na ação policial que desobstruiu as ruas da suposta violência popular. Note bem que, a matéria linkada acima exibe no título "Desabrigados do Morro do Bumba fazem protesto violento".
Mas, além de lermos e ouvirmos matérias jornalísticas sensacionalistas, tivemos a oportunidade de flagrar um detalhe revelador da tal ação policial. Veja bem na foto abaixo, que está circulando no Facebook e que foi extraída da galeria de fotos do O Globo, com a legenda referente à manifestação que citamos:
Se não fosse pelo detalhe do spray estar direcionado para os olhos das pequenas meninas, não nos escandalizaríamos com a ação policial. Mas, essa imagem grita! Ela escancara o conflito racial que tanto tentamos esconder sob a ilusão de um país que convive bem com as diferenças. Por que admitimos, sem dor, que a força policial violente uma manifestação de pessoas completamente lesadas em seus direitos, que, não por acaso, são majoritariamente negras ou afro-descendentes. Essas pessoas que são taxadas de "violentas" pelo jornal, não tem onde morar. Abrigaram-se durante anos num morro construído sobre lixo, e perderam o pouco que tinham com um desastre natural evitável. Por que não atentamos para os detalhes dessas tragédias? Por que os jornais nunca comentam a proporção de negros afetados por essas tragédias evitáveis? Por que isso só é discutido quando o assunto em pauta é o racismo - que na maioria das vezes é dito "brando" no Brasil?
Em minha pesquisa de mestrado, tive uma pista dessa "qualidade" brasileira. Dentre meus dados de análise, se destacou a luta solitária de um Senador da República, entre seus pares, para aprovar o Estatuto da Igualdade Racial. Em seus discursos, o mesmo senador reclamava que seu projeto estava sendo obstruído por motivos rasos, que serviam apenas de obstáculo para que esse tema entrasse nas pautas de votações. Não foi por acaso que em meu material de análise, de 146 discursos, emitidos por 47 senadores, apenas três desses atores políticos mencionavam de alguma forma a desigualdade racial em nosso país. O Estatuto demorou mas foi aprovado em 2010, e desde então tem promovido a criação de comissões, secretarias e políticas para a igualdade racial. Como tudo o que é visto como "excluído" no Brasil, as demandas pela igualdade racial entraram na agenda política pela via de um Estatuto. É um instrumento legítimo, mas questionável, porque reforça a ideia de que o racismo é apenas um detalhe do problema social brasileiro.
O detalhe que não queremos ver é, de fato, um dos pilares de nossa tragédia nacional, é um dos fundamentos de nossa desigualdade econômica, de nossa probreza, de nossa corrupção. Os opereradores da lei e da ordem continuam se colocando como superiores nessa hierarquia social disfarçada, e continuam ignorando os graves problemas que carregam as famílias negras, não só por serem, em maioria, pobres, mas por serem discrimidadas em diversos sentidos.
Por isso, eu tento escapar desse sistema de capturas, que tenta manter nossas consciências adormecidas para a história de escravidão e injustica racial que carregamos. O episódio da polêmica em torno das obras de Monteiro Lobato foi um dos sinais de que, nós, mães e pais, ainda estamos perdidos nessa arena. Ainda ficamos tontos entre especialistas que recomendam "As aventuras de Pedrinho" e os que o condenam, e ficamos preocupados com o que será melhor para a educação de nossos filhos. A preocupação ainda é limitada demais, ainda se restringe à situação de nossas próprias crias, ao invés de saltarmos os olhos para perceber que o racismo pe estruturante de nossa sociedade e nossa cultura. Acredito que o primeiro passo para esse salto é não deixarmos esses detalhes passarem desapercebidos.
*Esse texto entrou na roda da Blogagem Coletiva promovida pelo Blog do Desabafo de Mãe

6 comentários:
Estou tão chocada com a foto que tenho dificuldade de comentar.
Como jornalista, sinto vergonha do jornalismo nada crítico que é praticado majoritariamente no Brasil. Por sorte, hoje temos os blogs - e acesso mais fácil a teses e estudos que nos intreressam - e não dependemos da grande mídia para nada (eu, pelo menos, não leio nem assisto a grande mídia regularmente faz anos).
Beijos
e a nossa força policial é composta por digamos 97% de gente mestiça de negros com outras mestiçagens....
sim Carol, é uma foto que causa repulsa e fiquei paralisada.
agradeço seu comentário no Face que me fez refletir e perceber que não dá pra se calar diante de tantas barbaridades que sofremos e que sofrem os mais desamparados.
falar de racismo não é prazeroso é duro, tenso. e esse tema, espalhado na blogsfera, fez muita gente se trabalhar internamente de alguma forma. eu, por exemplo, que percebí o quanto não quero enxergar essa realidade do dia a dia e não querer enxergar não é uma saída, não é mesmo?
eu não sei se você conhece esse caso:
http://paidemenina.blogspot.com/2011/02/ontem-dia-de-aniversario-de-5-anos-de.html
esse entre centenas, milhares de outros acontecem todos os dias debaixo do mesmo ceu que vivemos. tomara que a gente consiga dar um basta.
beijos
Que foto absurda! Que atitude absurda a desse policial! Também estou chocada. Exemplo incontestável de abuso de poder e racismo.
Lembro também do episódio da proibição da obra de Monteiro Lobato, que na época também me indignou. O preconceito e o racismo estão ainda tão enraizados na sociedade que até proíbem livros! E jogam spray em crianças! Inacreditável.
Essa foto é indignante, não acho que ela demonstre racismo, mas sim uma atitude desprezível de uso e abuso de poder perante cidadãos que estavam protestando contra a falta de atitude política diante de um problema que se arrasta há muitos anos sem solução: a fuga em massa para grandes cidades, o falta de estrutura para o rcebimento de todas essas pessoas, a alocação de famílias em locais que deveriam ser proibidos, etc, etc...
Por outro lado, é sabido que, sim, somos preconceituosos com pessoas de pelo negra (não concordo com a palavra racismo), é algo cultural ainda predominante em nossa sociedade.
Moro no RS e aqui percebo alguns comentários preconceituosos, fruto do tipo de colonização da região.
A mudança é lenta, é árdua, necessária e estará longe de acabar enquanto continuarmos pensando que pessoas de pele negra são de uma raça difetente das de pele branca. Esse é meu ponto.
Beijos,
Nine
Gente, valeu pelo debate!
Márcia, muito bom saber que você está se esforçando por mudar a postura. Fico feliz com minha participação nisso! Conheço o caso que vc linkou e realmente é terrível e ao mesmo tempo, comum.
Sarah, o lance do Monteiro Lobato foi bom, pelo menos, para levantar discussão. Os livros não foram proibidos, eles foram não-recomendados pela comissão governamental que avaliar os livros usados nas escolas públicas. Achei válida a posição da comissão, tendo em vista os argumentos. Mas, infelizmente, o debate descambou pela questão: Monteiro era ou não racista? Não acho que deixar de ler suas obras vá contribuir, mas discuti-las, contextualizá-las sim.
Nine, eu acho que racismo é a palavra certa para definir o tipo de exclusão que vivemos aqui historicamente. Porque, a discriminação dos afro-descendentes ocorreu, desde o início, baseada numa ideia de que a sociedade se divide em raças e que a raça negra é inferior. Isso era ensinado em universidades! Então, mesmo sabendo hoje que a raça humana é uma só, não podemos ignorar o tipo de separação cultural que foi produzida a partir de observações equivocadas. Afirmar que existe racismo é mexer na ferida do passado para tentar mudar o presente. Mas, sei que esse tema pode gerar diferentes opiniões. Obrigada pelo comentário!
Beijos!
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