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quarta-feira, 30 de março de 2011

O Brasil precisa de obstetrizes, médicos ou cegonha?

O Governo acaba de anunciar o lançamento de mais um programa voltado para a saúde materno-infantil. A começar pelo nome, a nova estratégia do Ministério da Saúde não parece afinada às demandas das mulheres e dos movimentos sociais em torno do parto. A Rede Cegonha não enfatiza a diminuição dos índices de cesarianas desnecessárias e não garante uma mudança na formação médico-obstétrica para a humanização do parto e nascimento. Ela anuncia uma verba significativa para o programa, priorizando as regiões com maiores índices de mortalidade, mas não se preocupa com os altos índices de nascimento pré-termo e de bebês com baixo peso nos estados mais ricos, como Rio de Janeiro e São Paulo. Ela prevê a criação do Centro de Parto Normal, uma entidade externa à maternidade e diferente das Casas de Parto já existentes, mas também garante mais leitos e mais verbas para as  Casas da Gestante e do Bebê, que são as novas estruturas para atendimento de gestantes de alto risco. Ou seja, os nomes adotados pelo programa deixam claro a manutenção da forma de atendimento centrada no médico e na doença. Se, do contrário, as estruturas de atendimento a partos normais se chamassem Casas da Gestante e do Bebê, haveria mais chance do programa ser afinado a uma concepção humanizada da gestação.
 
A Rede Cegonha parece assim ser resultado de um governo sem um projeto claro e bem definido para a saúde das mulheres brasileiras. Ao mesmo tempo que ele reconhece a insuficiência do modelo atual adotado pelo SUS, acolhe as demandas corporativas e econômicas que não prezam prioritariamente pela humanização. É provável que, com este programa, o Brasil continue a aumentar sua taxa de cesarianas, com todas as consequências que temos debatido.
 
O Brasil precisa de profissionais preparados para atender parturientes saudáveis, em trabalho de parto normal, sem intervenções desnecessárias. Assim, como em países desenvolvidos com sistemas de saúde públicos e mixtos, o Brasil deveria adotar a regulação e treinamento de parteiras, as chamadas midwives. É o que conclui o artigo de Ruth Hitomi Osawa, Maria Luiza Gonzales Riesco e Maria Alice Tsunechiro, na Revista Brasileira de Enfermagem. Elas fazem uma rápida análise do histórico da profissão de parteira e do embate com a classe médica e de enfermagem na Inglaterra, nos EUA e no Brasil, e mostram que as decisões políticas que impediram ou incentivaram o exercício da profissão foram pautadas pelas demandas corporativas mais do que pelas exigências da população. O que promoveu, na verdade, a regularização e reconhecimento das parteiras na Inglaterra foi um caso de morte materno-infantil durante o parto - uma tragédia que serviu de catalisador para mudanças positivas nas políticas públicas, porque a população se manifestou.
 
É por isso que o What Mommy Needs entrou na luta pela manutenção do curso de Obstetrícia da Faculdade de São Paulo. Seria o melhor dos mundos se nosso país adotasse uma política pública afinada à humanização, e que a preparação dos médicos e enfermeiras com uma mudança significativa nas graduações fosse uma prioridade. Então, nesse mundo ideal, a profissão de obstetriz seria apenas uma especialidade. Mas, a realidade é que os profissionais que desejam trabalhar com o parto e o nascimento, por uma ótica diferenciada, absorvendo o conhecimento tradicional de parteiras, sob um olhar multi-dimensional focado na saúde e no parto normal, tem que se agrupar em cursos diferentes, às vezes, desconhecidos do governo e do público em geral. Portanto, uma graduação com este perfil de estudantes e disciplinas significa a ampliação do reconhecimento desses profissionais e de uma demanda legítima da população feminina informada e cidadã. Nós, mulheres, queremos parir de forma natural, num ambiente acolhedor, na companhia de pessoas que amamos, e de profissionais que respeitem nossa fisiologia.
 
Por isso, sugiro que você, mulher e também homem, se informe e participe dessa luta por um nascimento mais feliz e saudável. Assine o abaixo-assinado online neste link.

5 comentários:

Nine disse...

Que legal esse seiu texto, Carolina. Já li sobre o manifesto em outros blogs e já assinei.
Beijos,
Nine

márcia disse...

Oie, também já assinei.

olha, tem que que fazer muito barulho MESMO. meu esposo trabalha e estuda na USP e comenta que o clima tá tenso por lá não só pro curso de Obstetrícia como outros que o, então reitor, considera que não condizentes com o mercado de trabalho.

que bom que tem muita gente mobilizada pra salvar esse curso.

ótimo seu texto!

Dani Garbellini disse...

Carolina, seu texto está perfeito!
Eu acho que ele deveria ser mandado para nossos representantes do executivo e legislativo. Que você acha?
Beijos!

Ana Carolina disse...

É isso aí!
Uma luta que não é apenas de uma categoria profissional, é simbólica de todas nós que queremos outro parto possível.
Beijos

Carolina Pombo disse...

Que bom que gostaram do texto! Dani, acho que pode ser enviado para o Executivo e o Legislativo sim. Se você quiser fazer isso, fique à vontade. Vou tentar mandar para o ministério da saúde e postar no blog Saúde com Dilma. Quanto mais gente se manifestar melhor, né?

Beijocas