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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Maternidade, amamentação e sexualidade

Eita assunto complicado! Ainda não vi nada tão banal e polêmico quanto essa dupla dinâmica: maternidade e sexualidade. Um artigo da Folha, já muito comentado e falado nas redes sociais, e bem debatido no Buena Leche pela Cláudia Rodrigues, trouxe novamente a dupla à cena pública ao fazer uma associação literária e infeliz da amamentação em público com o atentado ao pudor. As reações maternas ao artigo foram na base do repúdio, ao demonstrarem até certo "nojinho" com a licença poética do jornalista. Aliás, que licença! Um homem pouco dado aos assuntos maternais e feministas, opinando sobre amamentação em público precisa pedir muita licença e chegar bem de mansinho.

Mas, como eu sou mulher, mãe, como amamentei por oito meses (e quem me dera tivesse sido por mais tempo), e além de tudo, como eu faço parte de uma família com histórico de abuso sexual, acho que não preciso pedir licença. Serei clara e direta, no clima da música do Ultraje a Rigor (vale a pena ler o texto ao som desse video aqui, com o bonus da música "Ciúme").

Quando engravidamos, algumas pessoas parecem nos incumbir de uma indumentária pura, imaculada, e assexuada. Infelizmente, nosso mito criador dominante exclui ou camufla o sexo. E o milagre da concepção da Virgem Maria nos imputa, a nós mães, a difícil tarefa de, na fantasia coletiva, dar à luz sem ter vivido o prazer sexual. Há outras formas de se entender essa história, sim. Há cristãos que privilegiam a sacralidade do feminino, sem a necessidade de sufocá-lo numa pureza mítica. Nesses casos, Jesus dialoga muito bem com o prazer, conhece as necessidades e os desejos humanos, e sabe que sexo é bom e a gente gosta. Portanto, apesar de ter dado à luz sem ele uma vez não significa que Maria tenha permanecido "pra sempre virgem, amém".

Mas, o imaginário que contrapõe maternidade e sexualidade se mantém vivo, até mesmo numa época em que se fala tanto de pedofilia e em que nada mais nos impede de sair por aí satisfazendo nossos desejos sexuais. De fato, o excesso de pudor é até mesmo um disparador de relações esdrúxulas entre pais e filhos. Os homens que não conseguem olhar com naturalidade o corpo de sua filha, que não conseguem conceber a existência de sexualidade nela, que não se envolvem no dia dia da paternidade, não constróem limites bem claros em relação a seu corpo. Afinal, o tabu do incesto é introjetado na subjetividade porque aprendemos a amar nossos filhos como mães e pais - identificados culturalmente com a regra de civilidade de não manipular sexualmente uma criança. Sabemos que tanto adultos quanto crianças tem corpos sensíveis, sentem prazer e tem instintos sexuais. Mas, sabemos que, como adultos, não é nosso papel introduzir a criança no universo do ato sexual.

E aí que entra a questão da amamentação. Sexualidade não se resume a ato sexual, não se resume a sexo. Ela é mais ampla, é uma energia vital que nos move a diferentes direções - diriam os psicanalistas. Enquanto vamos crescendo e aprendendo a nos relacionar com o mundo, a energia vai tomando formas e se liga a certas coisas, tornando-se afeto. Quando o bebê mama, então, está saciando uma necessidade vital e experimentando diversos prazeres: o de enfim sentir-se saciado e os ligados ao processo do mamá. O bebê percebe que é gostoso acariciar um seio enquanto mama no outro, que é bom demais sentir o cheirinho da mãe bem de perto, que o contato pele a pele é um carinho único. E assim, aprende a ter uma relação prazerosa com o próprio corpo e o corpo de uma outra pessoa - a quem descobre gradualmente. Assim, aprende a ser Duplo, a ser dois, a precisar do outro e a doá-lo também um pouco de si. As relações, inclusive sexuais, que desenvolvemos ao longo da vida serão influenciadas por essa primeira relação com a saciedade.

Claro que o seio pode ser substituído por uma mamadeira. A relação que se desenvolve a partir daí é um pouco diferente, mas nada traumático se for feito com amor. Diferente da saúde respiratória, digestiva etc, não é determinante da saúde sexual de um indivíduo que ele mame no seio. Mas, esse é um dos fatores que influencia toda sua jornada complexa nessa vida a dois, a três, a quatro, enfim, de relações afetivas de todos os tipos. Uma criança amamentada ao seio em livre demanda - e portanto, em público - tende a ter auto-confiança, relacionar-se bem com o próprio corpo (dependendo, obviamente, de muitos outros fatores também). O fato é que mamar é prazeroso, estimula a vivência do prazer, tanto para o bebê quanto para a mãe. Se não for assim, se for um processo atravessado por muitas dores e lamentos, não vale a pena!

O mito da mãe assexuada se choca com a imagem da amamentação em público. Porque o seio fica à mostra - um símbolo da sexualidade feminina - e o prazer do bebê que suga também. Portanto, o prazer fica à mostra. E, quem não consegue olhar esse Duplo com naturalidade, quem não consegue lidar naturalmente com a sexualidade que habita o corpo do bebê e de sua mãe, se incomoda ou se excita sexualmente com a visão. Semelhante ao que acontece quando nós, adultos, vemos uma criança nua, tomando banho, brincando: se você é saudável e não apresenta uma perversão odiosa chamada pedofilia, não se constrangerá com o quadro. Porque você entende, inconscientemente, que afeto e sexualidade não se resumem a sexo.

Estou falando com muita tranquilidade, mas sei que esse assunto é espinhoso para muita gente. Há muitas mulheres que não conseguem lidar com a doação da amamentação, que se sentem invadidas, até "abusadas" ao dar de mamá. Geralmente, são mulheres que já sofreram abuso sexual de alguma forma. Há outras que podem ficar muito inseguras com a estética do seio, caso amamentem por muito tempo, porque em nossa sociedade, há uma supervalorização da imagem dos seios sempre empinados e disponíveis para o ato sexual. Há homens que não conseguem desvincular a atração sexual da imagem objetificada dos seios femininos, e que farão pressão para que o bebê desmame logo. Infelizmente, são casos comuns, nos quais a amamentação artificial acaba sendo a alternativa mais adequada. Porque, amamentar em sofrimento é muito ruim para mãe e bebê. Mas, se você for uma dessas pessoas, vale a pena repensar sobre seus pudores, sobre sua maneira de encarar a amamentação, inclusive em público. Vale a pena buscar ajuda psicológica e apoio de outras mulheres que vivem com prazer esse processo tão único da maternidade.

Por outro lado, há mães que usam do artifício da amamentação para obterem prazer, sem perceberem os limites do corpo de seu bebê. Elas são minoria, mas são capazes sim de prolongar a amamentação, impondo-se de maneira sufocante para o afeto do filho. Geralmente, nesses casos, encontraremos no futuro um adulto altamente confuso e inseguro com os próprios afetos - altamente oralizados, como diriam outros psicanalistas. Mas, é possível prolongar a amamentação sem sufocar a demanda real da criança, dando-lhe liberdade para expressar-se, para se alimentar bem com outros alimentos, para passar tempo longe da mãe, experimentando outros colos e outros laços afetivos.

A questão é banal, porque é cotidiana, mas permanece polêmica. Amamentar - ter e dar prazer, sem ser circunscrito ao ato sexual - continua dando panos pra manga, e nos ajuda a pensar um pouco mais sobre maternidade e sexualidade.

E, para concluir, uma palhinha da música "Sexo" do Ultraje:

" E não tem nada de mais

Se a gente nasceu

Com uma vontade

Que nunca se satisfaz

Verdadeiro perigo

Na mente dos boçais..."



14 comentários:

Dani disse...

Uffa! Fiquei até sem fôlego!
Fiquei impressionada com a forma como conduziu o texto...com uma naturalidade natural de quem tem argumentos.

Parabéns. =)

Não era de casa, mas já estou puxando minha cadeira.

Patrícia Boudakian disse...

Carol, clap clap clap pra você. Incrivelmente bem escrito. Argumentos concretos e convincentes. E as músicas sugestionadas: tudo a ver!
Orgulho de ler um texto desses, viu!?
Beijo!

Carolina Pombo disse...

ah que bom!!! eu tb adorei escrevê-lo ao som das músicas. tem textos que simplesmente fluem de nossas experiências, assim, naturalmente... esse aí foi um desses. Obrigada pelas vistas!!!

Anne disse...

carol! finalmente um tratato inteligente, criterioso (e que eu comprei!!) sobre o assunto!
excelente reflexão sobre o que tanto incomoda tanta gente...
ultimamente, amamentando ha 14 meses venho sentido a crescente pressão externa para que eu desmame o Joaquim... o povo se incomoda e não sabe explicar por que.
e tenho certeza que o fundo do incômodo está na falta de resolução individual da sexualidade de quem critica!
adorei!
bjo

Mamamia disse...

clap, clap, clap de pé...Depois de ler tantos texto e tantos desabafos sobre o fato, que eu prefiro nem comentar. Um texto belíssimo, esclarecedor, de quem compreende o que diz. Parabéns Carol.

Mariana - viciados em colo disse...

preciso!

este texto foi preciso, exato, claro até não poder mais.

parabéns!

Sarah disse...

Maravilhoso texto. Completo, objetivo, cheio de argumentos sólidos. Parabéns.
bjos
Sarah
http://maedobento.blogspot.com/

Nine disse...

Carol, parabéns pelo texto! Concordo com tudo, tudo que vc escreveu e vc ainda conseguiu colocar em palavras sentimentos meus em relação à amamentação.

No fundo, eu nunca tive problemas comigo mesma, mas tinha com os outros, porque não sei se quem olha o ato de amamentar, pensa alguma "sujeira".

Coisa parecida aconteceu há pouco tempo durante nossas férias. Minha filha de 2 anos estava tomando banho de mar sem as fraldas, brincava na areia, voltava para a água. Percebi um cara que não parava de olhar para ela de dentro da água. Pirei! E se ele for um pedófilo? Saco... quis sair da praia na hora...e pior que podia nem ser nada, mas a gente ouve tanta coisa, que...credo!

Beijos,
Nine

Paloma, a mãe disse...

Fantástico, Carol! Aliás, o texto da Cláudia, do Buena Leche, foi exato nas palavras e definições. Achei muito bom vc trazê-lo pra este espaço também.
Beijos

Paty disse...

Oi Carolina, nossa como eu fiquei feliz com teu texto, confesso que estou em paranóia há uma semana, desde que meu bb parou de procurar meu peito, e eu por alguns motivos não insisti.
Bom, vc ter falado sobre de como eu posso transformar esta nova fase em uma relação de carinho e saudável pro meu filho mudou tudo.
bjos fica com Deus e que Ele continue te abençoando com textos assim.

Ilana disse...

Adorei! Poucas vezes vi um texto tão bem escrito e com ideias tão apropriadas sobre a amamentação.
Parabéns!
Bjs

Simone de Carvalho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Simone de Carvalho disse...

Parabéns Carol, seu texto é reflexivo e inteligente, como você é mesmo!Acredito que essa é uma discussão que está apenas começando não é? Um beijo para você querida,

Luciana Moura disse...

As vezes não consigo acompanhar todos os posts, só agora consegui ler este e adorei!

Reflexivo, direto, e, para mim uma reflexão diferente, pois como vc disse como é cotidiano, é banalizada. Nunca tinha parado para pensar em tudo isso dessa forma!

Bom, parabéns! Bjs