O que há de estranho em uma família moderna adotar as fraldas de pano? Certamente, todo mundo tem várias respostas pra essa questão. Parece um retrocesso lavar fraldas quando o mercado oferece uma gama de descartáveis, prometendo noites inteiras sem vazamentos, géis poderosos que mantém a pele do bebê seca, super ultra mega conforto, e nenhum trabalho! As propagandas são as mais fofas e, de acordo com minha humilde opinião de mãe que tem uma filha de pele super sensível e alérgica, são as mais enganosas também (já notaram as propagandas que colocam bebês competindo pela atenção de uma bebezinha, na qual ela desdenha alguns e escolhe o outro por causa da bendita marca de fralda descartável? Alguém já disse que é tipo uma propaganda de cerveja para os machos recém-nascidos!).
Mas, a ideia é falar de como pode ser estranho (ou não) algumas famílias, hoje, escolherem as fraldas de pano em detrimento das descartáveis, mesmo que seus bebês não tenham exatamente uma alergia. Tem gente fazendo essa escolha porque acredita que ela é a escolha certa para o planeta. O que significa que são heróis ou mártires do meio ambiente? Não. O que significa que há pessoas que compreendem o nexo entre o bem estar do planeta e o seu próprio bem estar. Até porque, hoje, não é necessário um grande sacrifício para se usar as fraldas laváveis: elas lavam facilmente na máquina, junto com as demais roupas da família, são de qualidade durável, preços acessíveis, e já existem diversos acessórios biodegradáveis que tornam seu uso ainda mais prático, como os forros de proteção (os liners, que evitam que as fezes causem muita sujeira) e os detergentes e essências especiais para evitar o mel cheiro. Então, estranho me parece mesmo que a geração das nossas mães tivesse que lavar as fraldas (sem máquinas nem forros), e ainda lutar por um lugar no mercado de trabalho com pouquíssima presença dos homens nas tarefas domésticas!
Atualmente, fraldas laváveis modernas são vendidas em diversos países, e em alguns já existe até um mercado pungente em torno desse produto considerado ecológico. No programa canadense La Vie en Vert (A vida em verde), que aqui no Brasil passa com legendas em português na TV5 Monde, aos sábados, fizeram um episódio dedicado à escolha da melhor fralda de pano. Eles informaram que no Quebec existem mais de 60 marcas, e que depois de avaliar o impacto que o uso das fraldas de pano e suas oponentes tem para o meio ambiente, o governo decidiu dar um incentivo financeiro para quem opta pelas primeiras. Assim, o próprio governo economiza na coleta e descarte do lixo e incentiva a economia verde, ou seja, o crescimento de empresas ambientalmente sustentáveis. É dessa maneira que esse "novo" velho hábito tem ganhado força no Canadá.

Mas, o estado da arte aqui no Brasil é um pouco diferente. Infelizmente, nossas políticas públicas não costumam incentivar hábitos saudáveis e sustentáveis dentro e fora de casa. A gente cresce habituado a ver lixo jogado nas ruas, crianças crescendo a base de açúcar e fast food, engarrafamentos gigantes, etc. Porque, há um mito de que o Estado não deve "se meter" na vida privada de ninguém - ele se restringe a propagar campanhas midiáticas em prol de mudanças de atitude individuais, mas não cria políticas de apoio aos pais para que estes consigam criar seus filhos, fazendo as escolhas "mais" certas para eles e para toda a sociedade.
Isso fica mais claro quando observamos as propagandas na televisão. Não há regulação de publicidade aqui, nem para as direcionadas às crianças! É como se a telinha fosse terra de ninguém, aliás, é como se ela fosse palco das guerras entre concorrentes pelos desejos, inclusive os desejos dos pequenos. Se na década de 1980, a novidade era uma bebezinha de plástico que se enchia de água e fazia xixi por um buraquinho, e mais tarde foram as bonecas patinadoras, bomboleadoras, falantes e andantes a base de pilhas, hoje a guerra do mercado de brinquedos e da publicidade para crianças chegou ao ápice da bizarrice: bonecas que fazem cocô de verdade e usam fraldas descartáveis!!!
Falando dessa forma, até parece estranho mesmo que uma boneca use fraldas descartáveis, né?
Mas parece que a gente se acostuma a ver o comercial na tv, ver a Baby Alive nas vitrines, e acha até bonitinho - "Imagina se eu tivesse uma boneca assim na minha infância!". A gente se ilude com a ideia de que as crianças querem esse realismo todo em suas brincadeiras - ditas de fantasia. A gente é capaz de gastar os tubos com um brinquedo desse, e nem pensa que depois a criança vai pedir as fraldas descartáveis para a boneca, e que elas são até mais caras do que as normais, e que se somarão aos montes de lixo, demorando séculos para se decompor. A gente nem conseguem perceber que já está alimentando um comportamento antiecológico nas meninas, e depois exige que elas sejam "amigas do meio ambiente".
Mas, não deve ser por acaso que, lá no Canadá, a Hasbro não venda a Baby Alive. Lá tem regulação de publicidade e incentivo público a comportamentos sustentáveis. Agora, nada impede que nós, famílias que estão começando a ter uma consciência ecológica, com as experiências do dia dia, promovamos mudanças em nosso país! É um longo caminho a percorrer. Precisamos encontrar nossos apoios, nossos pares, em associações, Ong's e empresas que priorizem a sustentabilidade, a assim fazermos também pressão nos governos. Podemos melhorar a cada dia!
Esse texto nasceu, por exemplo, de um belo e rico diálogo que ocorreu ontem em São Paulo, sob a organização do Instituto Alana e seu projeto Criança e Consumo. Fui, orgulhosamente, convidada por essa gente boa, encontrei outras personagens fantásticas da blogosfera e da vida real afora, e voltei com energia renovada para continuar defendendo uma vida mais saudável e denunciando as porcarias que nossas crianças às vezes consomem (aguardem desdobramentos!).
Por enquanto, espero ter contribuído para diminuir o estranhamento quanto ao uso de fraldas de pano em bebês reais, e para despertar o incômodo com a venda de fraldas descartáveis para bonecas. Venha dialogar conosco! Envie também seus incômodos, suas impressões sobre esse assunto. Participe desse debate! Esperamos a contribuição de vocês por email (contato@wmnloja.com.br) ou nos comentários daqui e lá no whatmommyneeds.com.br.
2 comentários:
olha, carol, já tem quatro posts rascunhados sobre esta questão. voltei do encontro com todo o gás para assumir esta causa. vou me ater a reagir às passagens mais-mais:
gargalhei litros: "tipo uma propaganda de cerveja para os machos recém-nascidos"
uhuuu: "há um mito de que o Estado não deve "se meter" na vida privada de ninguém - ele se restringe a propagar campanhas midiáticas em prol de mudanças de atitude individuais, mas não cria políticas de apoio aos pais para que estes consigam criar seus filhos, fazendo as escolhas "mais" certas para eles e para toda a sociedade"
e o canadá rules!!!
posso dizer que te amo?
beijoca
ah, já postei como escapei da baby alive ó: http://viciadosemcolo.blogspot.com/2010/12/entao-e-natal-e-brinquedos-equivocados.html
Mari, eu é que amo você!!! Adoro suas visitas e seus comentários! Estamos aí para apoiar suas novas iniciativas e sempre manter esse diálogo rico.
Grande beijo!
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