Conheça melhor este blog de mãe, assistindo ao novo vídeo de boas vindas aqui!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Algumas mães não têm prazer com maternidade

Desta vez o conflito não se trata entre maternidade e carreira. Se durante o primeiro ano de minha filha, esse foi um tema recorrente, agora, sinto como se ele estivesse definitivamente superado. Surpreendo-me com o fato de que, apesar de ter sentido o gostinho da depressão, principalmente por causa do "desencantamento com o mundo" (talvez um processo desencadeado pela constatação da falta de "humanismo" em um local feito para salvar vidas, em última instância, ainda não sei...), o que mais me dá prazer e ânimo é a companhia de minha filha. E não digo apenas a companhia indireta (mediada por babá, televisão ou o escambau), mas estar atenta a ela, brincando, brigando, conversando, dando banho, comida, enfim o pacote completo com o plus das férias escolares.

É verdade, cansa muito. Às vezes não consigo nem ler duas páginas do livro que estou (tentando) terminar, e durmo 10 horas da noite, exausta. Mas, apesar de ter plena consciência de que não voltaria a me dedicar exclusivamente à maternidade (aliás, acho que nunca consegui fazer isso), tem sido muito bom pra mim exercer meu papel de mãe sem intermediários! Acho que alcancei uma maturidade sobre isso: sinto-me muito bem na identidade de mãe, tenho mais clareza sobre a educação que quero dar pra minha filha, mais segurança em minha capacidade e mais tranquilidade em aceitar minhas limitações. E talvez por isso tenho me chocado mais com algumas cenas que contemplo no dia dia aqui pela zona sul do Rio.

Hoje, em especial, fiquei muito revoltada com a quantidade de piscinas de plástico, alugadas pelas famílias, para suas crianças, na praia do Leblon. As piscinas enormes, alugadas a 8 ou 10 reais, são enchidas com mangueiras dos barraqueiros, com água doce que eu não sei de onde vem (parece brotar do chão, ao lado de cada barraca). Na verdade, o que me incomodou mais foi a falta de interação das crianças com a própria praia e com seus pais (muitas, pra não dizer todas, com exceção de três, permaneceram isoladas em suas "praias particulares", interagindo principalmente com as babás). Nessas cenas, fica evidente o consumismo, o comodismo e a falta de intimidade dessas crianças com a natureza. O que deixa claro que todos esses ismos foram herdados e não são características inevitáveis das novas gerações.

Além dessa situação na praia, outras variantes tem me deixado meio atônita com a falta de prazer e intimidade entre pais e filhos pequenos pelas ruas shoppings da minha cidade. Falo especialmente dos pequenos, porque, veja bem, se um adulto que pariu um bebê não cai de quatro por ele nos primeiros anos de vida, provavelmente não se encantará por um adolescente esquisito depois... E aí, entram cenas de famílias inteiras (incluindo avós) carregando uma ou duas babás de branco em restaurantes, lojas, na Lagoa etc, em sábados e domingos. Recentemente, fiquei mexida com um menino de uns 5 anos chorando muito, na verdade, berrando, no colo da babá, num rodízio, enquanto os pais comiam e mal se mexiam - deu pra ouvir a mãe falando baixinho para a "responsável" pela criança levá-lo "pra fora".

Então, tenho pensado muito sobre esse assunto: que tipo de relação a minha geração de pais tem estabelecido com seus filhos?

Lembrei de uma artista francesa que já me inspirou muito com suas esculturas: Niki de Saint-Phalle (que é inclusive a autora da escultura da imagem de dezembro, em nossa sessão Cultura, Arte e Imagens). Com uma história de vida bem complexa (que inclui abusos sexuais do pai, uma relação dolorosa com a mãe e o afastamento das filhas), ela se tornou artista na década de 1960, após um período de internação numa clínica psiquiátrica. Mas, eu, pessoalmente, penso que seu boom criativo foi a separação do marido e o afastamento dela do papel de mãe. Pois, suas principais obras, as Nanas (criadas durante sua convivência com uma amiga grávida), recriam um arquétipo feminino maternal. São esculturas gigantes, coloridas, com as quais a artista tentava expressar todas as cores de seus sentimentos, jogando com símbolos bem conhecidos da feminilidade. A grande obra de sua vida é o Jardim de Taiocchi, na Itália, onde criou um universo colorido de símbolos que articulam questões pessoais com as imagens das cartas do Tarot, e onde estão algumas de suas Nanas. Eu, aqui com meus botões, penso que o conflito da artista com a identidade materna era tão intenso que ela não pôde ignorá-lo. Apesar de não conseguir viver intensamente a relação com as filhas, ela elaborou-a com sua criatividade, colocando em ação a opressão e a atração que aquele papel marcado a causava. Ela disse uma vez que a arte era sua garantia de sanidade.

Mas, por que eu trouxe esse exemplo?

Às vezes, me parece que algumas mães simplesmente não sentem prazer com esse papel. Há mulheres que optam por não ter filhos. Mas, há também aquelas que imaginam que tê-los faz parte do curso da vida, apesar de não desejarem de fato ser mães. Algumas descobrem-se realizadas com a maternidade, mas outras não - não mesmo. E o mesmo pode acontecer com os homens. Isso não é necessariamente culpa de alguém, mas com certeza produz efeitos na vida das crianças. Acho que às vezes falta autenticidade, honestidade, na relação entre pais e filhos, e fica-se preso a certos estereótipos hipócritas de "bons pais". Se todas as pessoas fossem completamente sinceras com seus sentimentos em relação à maternidade/paternidade e pudessem pensar e falar sobre eles (e pintar e criar esculturas, e curtir com os filhos uma manhã de praia, sem coisas e mais coisas de plástico, e receber a gratidão deles com beijinhos e risadas...), acho que a haveria menos babás de branco passeando pela cidade em domingos de sol e, talvez, menos piscinas alugadas na praia.

11 comentários:

Mariana - viciados em colo disse...

me incomodo muito com isso ao meu redor e - ouso dizer - venho me incomodando comigo mesma também, quando me percebo sem essa capacidade de brincar de verdade. adoro o pacote de cuidados que a maternidade instala, mas o meu app de brincar veio com defeito.

outra coisa: sinto que muitas mães não se sentem capazes de dar conta e acabam se viciando em babás.

o fato é que em pleno século 21, algumas mulheres não conseguem sustentar o desejo de não ser mãe e cedem... aí...

beijoca

Augusta disse...

belo texto, isso me incomoda muito também.
Engraçado como não fazia ideia desse universo, nunca havia notado, antes de ser mãe, e amar ser mãe.Ontem mesmo fui (correndo) fazer as unhas, depois de longos 3 meses, com celular na mão e ligando de 20 em 20 minutos pro meu pai, que mora 3 ruas do salão, naquela angustia de deixa-lo e ele chorar, sei la o que, me deparo com uma "mãe" que deixeou sua bebe de 1 mês e meio em casa para fazer luzes no cabelo, o que já não rola pra quem amamenta, e quando uma das meninas perguntaram, ao ver a foto da bebe, se ela estava gordinha assim so mamando no peito, a anta solta, dou quando estou a fim, porque ninguém merece, cansa demais, você acha que acordo de madrugada pra dar peito, R´A! meu marido que acorda e que vai dar mamamdeira!
Mãe? algumas mulheres de fato geram sem saber o quão sagrado é isso, são "paridas" em suas cesáresa desnecessarias, sem deixar seu corpo entrar em ação e por elas mesmas trazer seus filhos ao mundo, com amor, carinho e calma, e ai, acham que é só falar, tenho um filho, pra vida fazer sentido, ser mãe é mais, somos a primeira educadora, o pilar, se querermos um mundo melhor, devemos nos preocupar em nossos filhos,fazendo deles pessoas melhores, e isso só se da com amor.

bjus

Dani Garbellini disse...

Carol, muito interessante o viés do seu texto.
Confesso que minha reação é sempre me revoltar e ficar questionando por que raios fulana quis ser mãe, se evidentemente não suporta cuidar de criança.
Mas existe uma construção social tão grande que poucos tem auto-conhecimento suficiente para fazer conscientemente a escolha de ser ou não mãe.
Percebo também uma falsa idealização da maternidade, uma idéia de que é uma delícia sempre (e é), mas é muito diferente do conceito de delícia que temos antes do nascimento dos filhos, né?
Sem contar que existe uma pressão enorme para que voltemos a ter a vida de antes o mais rápido possível. Quantas vezes já ouvi que é errado dedicar-se tanto aos filhos, que é preciso ter vida e não ser escrava. Mas a verdade é que é impossível depois de ser mãe voltar a ser como antes. Não é uma questão de ser escrava dos filhos, mas que nunca mais a vida será como antes e que sim, é importante termos algum tempo para nós, porém conscientes que especialmente na infância, os filhos demandarão muito tempo e empenho dos cuidados e, se os pais não o fizerem, terão que terceirizar.

Carol disse...

sabe o que me choca muito? quando converso com outras maes do Rio (moro na Argentina atualmente) e elas me contam que tem empregada, babá E folguista. Que jamais que iam deixar de dormir com o Maridao pra cuidar de bebe na madrugada. E que final de semana elas nao aguentam ficar com os filhos o tempo todo.

Sério, me sinto muito deslocada. Pq eu trabalho e terceirizo meu filho uma parte do dia, mas morro de saudades dele, faco questao de estar disponivel, de educar, de alimentar, de amamentar, de tudo que é possível dentro do tempo que passamos juntos. AS outras maes me contam que as babás inclusive levam no pediatra! GENTE!

Quando que essas criancas passam tempo com as maes e pais?

Otima reflexao, Carol.

beijos!

márcia disse...

oi Carol!

hoje mesmo eu tava pensando numa prima que tenho que mora no Japão e deixou, há 14 anos atrás, a filhinha bebê de 4 meses com a mãe dela, minha tia.
acontece que ela sempre adiava a ida da menina pro Japão dizendo que tudo era muito caro, difícil, etc. e assim ela foi vendo a vida da menina pelas fotos e quando vinha pro Brasil parecia uma irmã mais velha, não se via ali uma relação de mãe e filha.
ela então, deu a guarda da menina pra mãe reconstruiu a vida com outro marido e nunca mais voltou. ela manda dinheiro todo mês pra ela, financeiramente a menina vive bem, agora psicologicamente...

a minha prima assumiu que cumpriu seu papel social, mas não queria na realidade ser mãe. no início era engraçado a gente ver ela com os gatos no colo e a menina com a avó, mas aquilo era indício do despreparo e da falta daquele espírito materno que aflora em muitas, mas não em todas.

beijins

A.H.B. disse...

Olá, li seu post na Lola e mandei um email comentando sobre ele. ^^ Achei que deveria avisar aqui, porque, sei lá, pode cair na lixeira, já que é contado desconhecido.
Dei uma olhada em seu blog, você faz um bom trabalho dando dicas para as mães ou futuras mães.
Pessoalmente, não quero ter filhos nunca, mas para quem quer, é muito necessário esse tipo de suporte.
Abraços!

Gisele disse...

Pedi demissao do meu ultimo emprego juatamente porque nao suportava terceirizar a educação do meu filho...quase nao ficavamos juntos...e o trabalho aumentava...contratei baba e nao suportava ve-la atuando nas coisas que eu deveria atuar! Prefiro o cansaço a ver meu filho brincando com uma desconhecida e nao comigo!!
Sou separada, nao posso ficar sem trabalhar...minha solucao: tentativa na vida academica...prefiro ganhar menos hj mas me dedicar a ele.

Carla Borges disse...

Olá, Carol. Gostei de alguns textos seus. Digo alguns, pois não me identifico taaanto com os que são mais voltados para o assunto ''maternidade'', rs.
Achei seu blog através de um texto seu - muito bom por sinal - no ''escreva lola escreva''. Está de parabéns. Vou linká-la. Beijos .

Taniana disse...

Fiz um post sobre o tema em 19 de novembro, depois de uma viagem em família. Simplismente não aceito!! Fico revoltada com essa hisória de babá. Na verdade acho que as mães que desfilam com as moças vestidas de branco querem mais é aparecer, acham que é status carregá-las de um lado para o outro.

Pobre da criança.......

Cecy disse...

Oi Carol, parabéns pelo blog. Conheci hoje e me deparo com um post sobre um assunto que me incomoda bastante: essa relação entre pais babás e crianças.
Sou professora e observo os reflexos dessas relações deturpadas dentro de sala de aula. São crianças diferentes, extremamente consumistas e com valores deturpados. Isso me entristece e incomoda. Me pergunto o que leva uma pessoa optar por ter um filho e tratá-lo como um objeto.
Além disso, tem a questão das babás, que são tratadas em uma relação meio doentia, que lembra "Casa Grande e Senzala", é super comum ver nos restaurantes a família comendo e a pobre da babá observando(essa cena em particular é comum e me enoja).Fora as festas infantis onde não vemos mães e sim babás.Tem muita coisa errada aí.
Não consigo entender que tipo de seres humanos esses pais pretendem criar. Preocupante.

Graziela disse...

Oi Carol passei rapidinho so para desejar um Feliz Natal e um excelente Ano Novo para voce e para sua familia.
Que em 2012 venha recheado de muita saude, paz, alegria, felicidade e sucesso para voce.
Espero nossas conversas continuem ao longo do ano.
Abracos
Gra
* adorei seu post, logo volto para comentar.