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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Conflitos da vida real: como entrar em depressão em apenas 4 meses

Quando fui convocada para assumir uma vaga de um concurso público, em julho deste ano, fiquei bem feliz e compartilhei aqui minha gratidão pelos últimos anos e pelo novo ciclo que se iniciava. Eu estava empolgada com a possibilidade de exercer uma função ligada aos meus estudos no mestrado, mesmo temendo que isso me atrapalhasse a cuidar da loja e da Laura.

A remuneração do meu novo emprego é muito boa, comparada aos últimos trabalho que tive, e vi nela também a oportunidade de juntar mais um dinheirinho para investir em nossos sonhos. Quando a convocação apareceu, eu estava numa fase ótima! Feliz demais com a inauguração da loja e com a possibilidade de conciliar trabalho-maternidade-vocação. Mas, ainda não tinha o retorno financeiro suficiente. Apesar de meu marido segurar as pontas, e de termos muita esperança em nosso negócio, viver no limite orçamentário pode ser muito estressante. E sempre tem aquelas idéias tentadoras de que com mais dinheiro, Laura poderá ter mais oportunidades de fazer atividades, cursinhos, ficar numa boa cara escola, enfim. E meu novo emprego sanava completamente essa questão.

Porém, eis que a realidade se impõe sobre os sonhos, os projetos, os ideais... O trabalho junto ao Ministério da Saúde mostrou-se um enorme desafio aos meus valores pessoais e profissionais. Percebi que da teoria para a prática há um grande abismo, em se tratando de políticas públicas no Brasil, em especial na área da saúde (tá, você deve estar arregalando os olhos, admirada com a minha ingenuidade). Mas, o fato é que entre fazer pesquisa e fazer gestão em serviços de saúde tem uma diferença radical, e eu, do alto da minha montanha de pensamentos elevados, caí no fundo do poço, ao concluir que não é possível conciliar trabalho-maternidade-vocação lidando com as contradições do dia dia de um hospital público, in loco. Pelo menos, aqui no meu hospital, fica muito difícil impossível exercer a minha função sem ter que fazer vistas grossas arriscar-se por falar demais, e entrar em depressão. A deprê chega sorrateira, como um cansaço irremediável, e depois vai se instalando como uma total falta de motivação para tudo.

Sorte minha que tenho a loja, tenho a Laura e meu marido (que na verdade, se tornam meu verdadeiro motivo para levantar todos os dias, mas também a fonte de minha apreensão em pensar em sair de vez desse trabalho). Nesse ínterim, infelizmente, não consegui postar quase nada no blog, inclusive sobre o Concurso Cultural (que com o perdão de todos, foi um fiasco, porque eu não consegui me organizar para divulgar todas as imagens recebidas e abrir a votação, então, decidi mandar um livro para cada participante mesmo, em breve). Não consegui treinar e ambientar direito nossa nova funcionária, que está nos ajudando muito no dia dia da loja, mas que ainda não domina nosso sistema. E também não consegui botar adiante todas as promoções e lançamentos que tínhamos planejado - com exceção da Feira Baby Bum, da qual inacreditavelmente conseguimos participar, e muito bem, por sinal.

Além disso, para completar o muro de lamentações que este post está ficando, dei pouca atenção à minha verdadeira vocação. Não consegui revisar o livro escrito ano passado. Continuei escrevendo bastante, mas de forma desordenada e sem qualquer motivação para enviar nada para editoras e afins. Nesse requisito me sinto mesmo um fiasco (estão escutando o som das chibatadas?).

Então, instala-se um conflito terrível: sair desse trabalho significa poder dedicar-me mais e melhor para as coisas que amo fazer, porém, significa também menos dinheiro (bem menos) para investir nelas. Agora entendo plenamente aquele velho ditado: tempo é dinheiro. Mas, o conflito não é tão simples assim, fica um pouco pior quando me deparo com outra preocupação. Como eu, que sempre dei muito mais valor ao "ser" do que ao "ter" posso me prender a algo que me faz tão mal por causa do que ele me permite ter? A carolzinha acampada no meu ombro direito responde: afinal, se sacrificar hoje para que sua filha possa ter tudo o que for necessário para ela ser tudo o que quiser no futuro, é trabalhar em prol do "ser" também, ora! Afinal, se seus pais tivessem feito isso, você teria conseguido seguir sua carreira desde cedo, sem se preocupar com questões materiais, ora! Mas, a carolzinha do meu ombro esquerdo também não se cala. Ela diz: mas, foi exatamente isso que seus pais tentaram fazer por anos e não conseguiram! Você não pensa nas perdas que você mesma e sua família podem ter por causa desse seu estado de espírito atual?

A esse conflito, soma-se minha vontade de fazer alguma diferença no serviço público onde estou trabalhando. Ainda fico tentada a acreditar que, aos pouquinhos, as coisas vão mudar, vão melhorar, e eu farei parte da mudança. Mas, o choque de realidade está tornando essa expectativa muito baixa. Eu já não sei como fazer real diferença numa instituição em que é normal não acreditar. As pessoas ao meu redor também se entristecem, algumas se acostumam (ou tem que se acostumar) e vão e voltam de licenças para tratar-se de problemas mentais, psicossomáticos, e físicos, muitas vezes oriundos do trabalho. Mas, esse assunto é outro capítulo, que ainda estou tentando elaborar e chegar a alguma conclusão, sem me preciptar. 

Então, pessoas queridas que me lêem, dêem um desconto pelas minhas faltas, atrasos e resmungos. Minha cabeça ainda não se inclinou definitivamente para nenhum dos lados, apesar de pender facilmente para o lado do coração (que afinal, se não fosse isso, eu já estaria muito-bem-obrigada no subsolo da hierarquia moral, nos corredores do meu hospital, beneficiando-me desse sistema sujo, ganhando meu dinheirinho, acostumando-me à deprê, com o lexotan de prache).  

13 comentários:

Paloma, a mãe disse...

Carol,
Eu só me lembro de um post seu no FB, uns meses atrás, em que vc contava que levava mais de 1 hora para ir e mais de 1 para voltar. Menina, só isso já me faria largar o emprego. Como trabalhar em jornada integral, ter filho, ter uma loja e ainda querer produzir intelectualmente deste jeito?
Eu não encarava isso nos meus 20 e poucos, quando tinha muito tempo livre e disposição, imagine agora.
Esta é a minha visão. Eu tentaria outro concurso, para uma área mais de pesquisa, ou mesmo algo perto de sua casa. Sim, localização é tudo numa cidade grande como o Rio.
Espero que a deprê passe logo e vc consiga vislumbrar perspectivas de mudança!
Beijos

Nine disse...

Puxa, Carol, nem sei o que te dizer! Ou melhor, sei: o serviço público precisa de pessoas como você, que sejam jovens, bem preparadas e tenham gana de mudanças! Eu como servidora pública tb passei por um choque de realidade quando assumi meu cargo, pois é certo que a teoria é linda, mas a prática é diferente. Nesses momentos de deprê eu me lembro das pessoas que conheci ao longo desses 5 anos como servidora e que fizeram a diferença para mim e para tantas outras! É certo que desde que a Ísis nasceu meu foco maior é a maternidade, não teria como ser diferente, mas exercer meu trabalho de forma digna, ética, em prol de um serviço público de qualidade também está nas minhas metas, ao menos durante as 8 horas diárias em que preciso me dedicar a ele! Força! Não desanime!
Beijos,
Nine

Carolina Pombo disse...

Oi Paloma,
eu não estou mais há 2 horas de casa... Agora estou bem pertinho. As questões são outras agora... Fiz concursos para a área acadêmica. É a minha prioridade, mas ainda não rolou porque não tenho doutorado. Isso sempre conta. Beijos e obrigada!

Carolina Pombo disse...

Nine, obrigada pela força! Ainda estou vendo se de fato posso fazer alguma diferença em meu local de trabalho atual. Torço por isso. Bjs

Fabiana Alvim disse...

:-(

Desejo muita luz no seu caminho! Vc saberá optar pelo o que for melhor pra vc e pra sua família.

Beijos e que essa nuvem passe logo...

Dea, a mamae da Nina disse...

sou assitente social, fiz facu tarde formei com 34 anos e quase nao exerci a profissao pois Nina nasceu apenas 2 anos depois.

Sei exatamente o q vc fala pq estagiei no Lourenço Jorge, vi acima q vc é do Rio, e imagino q ja tenha visto os horrores q ocorrem la.
Estava estudando p concurso qdo engravidei.
Hoje nao sei se conseguiria lidar com esse limbo social, percebo q é um trab sem fim e em muitas vezes sem retorno, acho q sim q gente como nós falz falta p melhorar este pais onde pessoas matam caezinhos na frente doa filhos e outros filmam, desanimo, descrença, mas temos q seguir, tenho medo de opinar mas eu acho q largaria o q me faz mal.
Lembro d como chegava em casa durante um ano q estagiei no hospital na pediatria e grande emergencia.
Bjks e boa sorte

Marcelo disse...

Menina do espírito livre, não se preocupe com eles, não são fortes o suficiente para quebrar uma alma como a sua. Pedras no caminho são apenas isso, elas ficam para trás e nos ajudam a traçar nosso caminho. Siga seu coração, poucas coisas dão errado quando se faz isso.

Mariana - viciados em colo disse...

ai, ai, carol, sei exatamente como você está se sentindo e me sentiria muito feliz em te abraçar para chorarmos juntas as pitangas.

também sou funcionário pública, também tive choque de realidade, também ando tendo surtos de tristeza, desânimo, cansaço por causa do meu trabalho, também venho me sentindo um fiasco nos meus projetos pessoais e, às vezes, até na maternidade.

mas entre vender o suor do meu trabalho, minhas horas de pensamento, com o setor público e o privada, fico com o público, pois sei que já me senti da mesma maneira em multinacionais.

sobre escolher o caminho entre o SER e o TER, vou te apresentar a um amigo: ele é procurador, mas ama música. ele é competente e já cresceu na hierarquia, ele faz bem o que faz. mas é bom demais na música também. uma vez perguntaram a ele porque ele não largava a procuradoria e ia se dedicar à música: "jamais!" ele disse "a procuradoria me paga bem e permite que eu faça o que gosto!"

lendo seu texto, lembrei de um conceito que você me ensinou: MICROPOLÍTICA! como Nine falou, o serviço público necessita de pessoas preparadas e jovens e modernas como você. e mais: penso que algumas das nossas melhores cabeças estão no serviço público!!! então estou convencida que é uma questão de tempo para mudar esta cultura perniciosa do serviço público.

e estar na academia apenas deixa as pessoas dentro de uma bolha distante da realidade e dos problemas, e o conhecimento gerado não significa melhoria na ponta.

o phoda é que não dá para levar o dia-a-dia em serviços finalísticos sem se tornar meio "cínica", sem se adaptar um pouco... acho que precisamos manter nossa indignação, nossa autenticidade e oferecer algumas soluções.

minha mãe recebe um medicamento psiquiátrico num hospital-tipo-horroroso e o atendimento da farmácia é ma-ra-vi-lho-so, por causa de uma única criatura que recebe a todos sorrindo, dá informações por telefone, conhece cada um dos pacientes e seus familiares.

por isso acredito que nesta micropolítica, mantendo a indignação, ofertando soluções e MAIS IMPORTANTE: FAZENDO NOSSA PARTE, podemos sim promover algumas mudanças. acredite!

beijoca



----- ah, nem sei se escrevi isso para você, ou para mim!

Vanessa disse...

Carol, considere isso uma fase pela qual a maioria passa. Um dia será lembrada como uma época difícil e boa ao mesmo tempo. Boa sorte e que em 2012 você tenha mais tranquilidade sem que isso signifique ter pouco trabalho :-)

bjs

Carolina Pombo disse...

gente, obrigada por todos os comentários!!! Fazem muita diferença pra mim!!! Ufa!

Mari, em especial, quero te agradecer pelas palavras. Até chorei... Terei uns dias de folga para pensar e repensar suas palavras. São muito próximas as de uma pessoa que amo muito, que me ajudou muito durante o mestrado e que está batalhando do jeitinho dela pela Saúde Pública. São exemplos encorajadores que nos movem também, né? Sobre o cinismo, você disse tudo. E minha grande tristeza é me deparar com essa necessidade... Não tenho conclusões sobre isso ainda...

Marcelo, meu amor, já te agradeci demais pela força. O problema é que meu coração é meloso demais... Será que ele me ajudará a tomar uma decisão????

Meu povo e minha pova, hoje consigo pelo menos falar sobre essa situação, mas a grande maioria das pessoas não consegue sequer imaginar o estado de alguns de nossos serviços de saúde mais conhecidos (com exceção da Deia aí em cima). God help us.

Bianca Lanu disse...

Puxa, flor. Força, ressignação e melhoras!

C/ carinho, Bi.

ana isabel disse...

OI Carol

Eu também sou funcionaria publica a 15 anos. Mas não trabalho com uma área tão polemica. Trabalho com saneamento e no setor administrativo. Mas mesmo assim é difícil as vezes. Depois que eu me tornei mãe ficou um pouquinho mais difícil.

Mas como a Mari disse, se tem que trabalhar, é melhor o setor público que o privado. No setor público seus direitos serão respeitados (até para tirar licença saúde é mais fácil).

Minha mãe trabalhou num setor mais polemico (penitenciaria), era psicologa criminal e se decepcionou muito também.
Além da falta de estrutura quando se quer fazer um trabalho diferente.
Mas, apesar de tudo ela continuou, tinha se preparado para aquilo, e as chefias mudam, os governos mudam outras oportunidades podem surgir dentro do serviço publico.
E quando o meu pais morreu, isso acabou se mostrando a decisão mais acertada, porque o salario dela acabou sendo a principal renda da família.

Acho que você deve pensar e escolher a solução que for melhor para você. Pense que o estagio probatório também é uma forma de você avaliar o serviço também.

Mariana - viciados em colo disse...

carol, pense mesmo! pense muito! eu queria tanto conversar isso com você, pessoalmente...

outra coisa, carol: a gente chega com vontade de abraçar o mundo, de resolver todas as questões de colaborar com todos os setores, mas precisamos controlar essa ansiedade e tentar estar "restritas" ao nosso papel, ao nosso horário, ao nosso "galho"...

este é meu desafio... ontem mesmo estava no subúrbio tentando convencer uma pessoa de não entregar 50 presentes numa festa, pois teria mais de 200 crianças... depois pensei: "eles devem saber o que estão fazendo" e voltei pro meu quadrado!

meu esforço vem sendo transformar minha indignação em projetos, em articulação... meu esforço é tentar influenciar as pessoas certas, entende? às vezes me sinto bem com meu trabalho, às vezes sinto que estou dando murro em ponta de faca.

só acho que quatro meses é pouco tempo para você tomar uma decisão definitiva de abandonar um cargo estável, que é o sonho de muita gente e que pode permitir que você faça outras coisas que compensem o "dano" que vem tendo.

trabalhei/estagiei em 11 empresas privadas antes de passar no concurso e quando estou "pior" tento lembrar de como eu me sentia no passado, tento me lembrar do meu humor na volta pra casa, de como eu puxava o freio de mão quando estacionava no trabalho: igual só que com menos dinheiro e com medo de ser demitida, ou seja: era pior!

fico feliz por minhas palavras terem ajudado um pouco...

beijoca