Fui à Bienal do Livro aqui no Rio, no último domingo. Nos preparamos para ir cedo, chegar as 10h, carregar lanchinhos de casa (para diminuir o tempo em filas e comer coisas mais saudáveis e gostosas, porque a qualidade da comida nesses eventos é péssima!), e voltar antes do almoço. Assim, conseguimos evitar o fluxo da tarde.
Não conseguimos ver todos os pavilhões. Se não fosse o último dia, iríamos de novo! Mas, vou logo adiantando o balanço final: super positivo!
Não sei se eu tenho olhos muito tendenciosos, mas reparei numa coisa muito legal. Há várias opções de livros infantis com conteúdo mais crítico, ou seja, que fazem críticas sociais, que convidam as crianças a participarem dos grandes debates contemporâneos. Quer dizer, livros que inspiram os pequenos a conhecerem seus direitos, a aceitarem as diferenças, a conhecerem diferentes culturas, etc. Algumas pessoas usariam o termo "politicamente correto" para definir esses livros, mas sei que na maioria das vezes ele é usado de forma pejorativa - que pena.
Aí vão alguns exemplos:
- O melhor livro de todos, que eu gostei demais e gostaria de dar de presente para cada criancinha desse mundo: "Les plus belle berceuse du monde". É um livro francês, com cd, que tem ilustrações maravilhosas, e canções de ninar e músicas de roda, de diferentes culturas. São 23 músicas: 4 africanas, 4 créoles, 4 distribuídas entre Ukrania, Russia e Polonia, 4 ligadas a cultura judaica, 3 da língua portuguesa, inclusive do Brasil, e 4 do Oriente, incluindo China e Japão. Em cada grupo de músicas, há os créditos dos artistas que fizeram as ilustrações, dos músicos que gravaram a canção, e para cada música, um pequeno texto explicativo. Aliás, cada música tem uma página ilustrada com a letra original e a tradução para o francês. Não sei o que é mais lindo, as ilustrações ou as canções! Veja aí uma palhinha da segunda música do livro:
Essa chama-se Nkwihoreze (Eu vou te consolar), e é da Ruanda. A ilustradora é
Élodie Nouhen.
O único problema é que ele não tem versão em português. O meu comprei no stand da Livraria Francesa.
- O segundo melhor livro que vi por lá é a versão ilustrada, para crianças, da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O título de capa é
"Nascemos livres", e ele também é uma coletânea das mais lindas e criativas imagens de artistas de diversos países do mundo. Essa imagem abaixo é de
Marcia Williams.

- O terceiro livro que recomendo é o
"As panquecas de Mama Panya", que é da mesma editora do anterior, a
SM. Aliás, essa editora é muito especial, porque nos oferece um catálogo maravilhoso de livros sobre os temas mais interessantes e que são dificilmente direcionados para o público infantil. Por exemplo, nela também encontrei um livro para crianças de 8 a 12 anos sobre a inclusão social nas escolas, um sobre separação dos pais para crianças pequenas, e um livro sobre o prazer da leitura para os pequenos que estão começando no letramento, "O monstro que adorava ler". Mas, voltando ao título que recomendei, quero dizer que além de ser uma obra de arte, com ilustrações originais,
"As panquecas de Mama Panya" é um livro sobre a vida cotidiana de um menino africano, do Quênia. O enredo se passa na ida de mãe e filho ao mercado, para comprarem os ingredientes para uma panqueca, e aproxima o nosso mundo ocidental - etnocêntrico - à vida na aldeia de Adika, o protagonista. A história faz parte de uma coleção genial chamada "Cantos do Mundo", que tem o objetivo de apresentar diferentes culturas para as crianças, fugindo dos estereótipos.
Além desses títulos, vi outros que falam da cultura afro, ou que colocam o protagonismo de personagens negros, como bailarinas, anjos, princesas, deslocando-os dos papéis estereotipados e racistas comuns. Há os livros que trazem assuntos polêmicos, como a fé, a religiosidade, a melancolia e o bullyng. Enfim, não sei se estou mais "focada" nisso agora, mas reparei que a oferta de livros está muito mais variada e de melhor conteúdo do que na minha infância! Claro que ainda há espaço para os contos de fadas waldisneyanos, os livros fofos de bichinhos e fadinhas, e tal. Mas, acho ótimo que agora, mesmo dando também os livros besteirol, posso contar com a ajuda de outros mais interessantes no manejo de questões difíceis ou polêmicas com minha filha. Certamente, em algum momento terei que abordar o tema "preconceito" com ela, e será muito bom poder fazer isso de forma lúdica com uma história bonita e bem ilustrada.

Por isso eu sou sim totalmente a favor dos livros "politicamente corretos". E esse ano, a Bienal arrasou nessa matéria! Parabéns às editoras que nos oferecem esses livros! Meus sinceros agradecimentos de mãe, blogueira e lojista ecológica! : )