Antes de engravidar, eu adorava ficar horas lendo e ouvindo música. Tinha uma coleção amada de cd's e músicas no computador, desde música clássica até Los Hermanos, Radiohead e Pink Floyd. Eu era capaz de ficar 4 horas, praticamente ininterruptas, escrevendo ou lendo, ouvindo minhas músicas. De vez em quando (tipo umas 3 vezes no ano), eu acendia um cigarro de canela (sim, eu sou uma das únicas pessoas que você conhece que gosta de cigarrilha com sabor) sozinha no meu quarto, e, em alguns minutos me imaginava fazendo as coisas mais inesperadas no futuro: lançando um roteiro de cinema, cantando numa banda, fazendo a posição mais difícil do último estágio da yoga...
Mas, a gravidez totalmente inesperada me tomou um pouco desses momentos solitários e tão prazerosos. Minha coleção de músicas foi sendo gradualmente abandonada, a cada mudança de apartamento ou troca de pc - nas quais os back ups ficavam fechados em caixas cheias de cd's por longos meses. Eu tinha tanta coisa pra me preocupar! Casar, montar uma "casa de família", terminar o mestrado e trabalhar, fazer um pouco de natação e hidro pra não engordar muito e ter fôlego no parto, e trabalhar! Consegui namorar um pouquinho nessa fase também, porque, thanks Lord, minha libido não me abandonou!
Às vezes, quando ficava esperando na ante sala do consultório do meu ginecologista, uma das minhas canções tocava no rádio, e eu tinha um dejà vu de meus momentos de solteira no meu quarto. Confesso que sentia um pouco de nostalgia, mas as emoções que eu estava vivendo superavam em muito qualquer estado eufórico que eu tinha experimentado nos últimos 26 anos de vida. E assim, fui levando o início de minha jornada como mãe.
Eu passei pelos últimos dois anos e meio meio esquecida de mim mesma, sabe? Até hoje meus cd's não tem um lugar certo na nossa casa (estão empilhados na última prateleira da estante da sala e alguns poucos espalhados num escritório improvisado, que aliás acabou de ser finalmente organizado para ser de fato utilizado).
A verdade é que por mais que eu não tenha parado totalmente a minha vida, minha filha tomou o centro das nossas atenções. Meu marido e eu, que éramos namorados até então, vivemos uma revolução por dentro e por fora para dar conta do recado. Nenhum de nós manteve o mesmo caminho previsto e planejado lá atrás, mas conseguimos criar novas perspectivas, novos sonhos, tentando incorporar um pouco do que existia antes. Não deu pra ele ter a experiência de morar sozinho (ele teve que ir da casa da mãe direto para o casamento), nem deu pra eu ir fazer meu doutorado fora (ainda!). Nesse período já discutimos muito sobre nossas diferentes expectativas, culpamos um ao outro pelos sonhos não realizados, tivemos vontade de desistir e voltar a ser apenas namorados... Mas, o apoio mútuo tem sido a chave para sermos bons pais sem perder a sanidade. Porque é difícil, viu? Apesar de ser extremamente prazeroso! Talvez a maternidade traga o maior paradoxo da vida: amar um outro ser de forma tão intensa que nos preenche e ao mesmo tempo nos tira um pouco do eixo.
Porém, admito que deixar minhas coisas, minhas músicas, meus pequenos momentos solitários tão abandonados até hoje não é necessário! Talvez tenha sido durante a gravidez e os primeiros meses de Laura, mas acho que hoje tem um pouco de comodismo, sabe? A gente corre o risco de ir se acostumando em viver quase integralmente para outras pessoas. Isso é sedutor para quem tem uma certa tendência à preguiça...
Ai que preguiça! Quando olho pra minhas caixas intocadas ou meus livros empoeirados...
Por isso, hoje, depois de finalmente conseguir ver meu escritório minimamente arrumado (e estou conseguindo esticar minhas perninhas embaixo da minha mesa!), resolvi dedicar um tempo, uma música, e uma cigarrilha velha pra mim. E me senti tão leve e inspirada, que vim aqui pra escrever este post domingueiro. Compartilho com vocês, queridas companheiras de labuta, mães, grávidas, mulheres que talvez por diversos motivos têm esquecido de si mesmas, uma música que me emocionou hoje. Com vocês, Carolina Pombo Adele com o música Don't you remember (uma das minhas mais recentes aquisições):



