Escolher quase sempre implica em decidir o que é certo, julgar uma situação e a própria posição de si mesmo diante dela. Tomar decisões assim faz a vida mais difícil, porém mais valiosa, mais verdadeira. Normalmente, diariamente, fazemos escolhas baseadas na necessidade de sobreviver. Sem pensar muito, somos capazes de escolher a roupa, o transporte, a refeição, e apesar de tais coisas parecerem triviais, são, em última instância, respostas à necessidade de sobrevivência – que está atrelada à existência social, à capacidade de ser “igual”, “próximo” àqueles que nos cercam. Se colocar a roupa da década de 20 significa suicídio social para o grupo do qual desejo fazer parte, nem pensarei em usá-la, a não ser numa festa à fantasia. É o tipo de escolha que não demoro muito a fazer, sobre a qual quase não penso, e que não parece ter grandes consequências que me demandem um julgamento do que é certo ou errado.
Para algumas pessoas, determinadas modas parecem impor discriminação à outras, desvalorizam a imagem de certos grupos – e por isso, essas pessoas fazem de sua vestimenta uma decisão consciente. Vestem-se de preto, abandonam os sutiens, usam cabelos soltos e crespos, adotam ou desprezam as mini saias. O que era uma escolha para a sobrevivência se torna uma decisão política. Mas, política no sentido genuíno da palavra, no sentido de ser a defesa pública de um argumento, de um ponto de vista, de um julgamento de valor.
Tem algo na Bíblia que sempre me incomodou, mesmo quando eu frequentava igrejas, que diz respeito à afirmação de que “não devemos julgar uns aos outros”. Fazemos julgamentos de valores o tempo todo, e precisamos deles para viver e não apenas sobreviver. Se não podemos julgar àqueles que contrariam o que consideramos certo, se não podemos emitir valores sobre eles, então, somos falsos e vivemos apenas com o esforço de sermos “próximos” daqueles que nos mantém sobreviventes. Acredito que as palavras transcritas nesse trecho bíblico não deviam ter sido traduzidas assim, mas deveriam ser “não devemos classificar uns aos outros”. Coisas diferentes, que podem estar intimamente ligadas.
O filme que assisti hoje ilustra meu argumento. O
Julgamento deNuremberg me ajudou a chegar a algumas conclusões sobre escolhas, julgamentos e sobrevivência.
Antes de fazer parte do Estado Brasileiro, eu era uma aspirante a tal. Cresci ouvindo as histórias de perseguição e tortura da Ditadura Militar em meu país, estudei sobre a posição ambígua que a Psicologia – área que escolhi seguir – tomou durante esses anos, reforçando alguns valores e práticas opressores, e muitas vezes, se eximindo de contrariar as decisões dos governos autoritários, nas figuras de seus reitores e de cada psicólogo e psicanalista clínico que praticavam terapias individualistas e descontextualizadas. Em minha curta carreira como psicóloga, resolvi fazer diferente daqueles que tinham se calado e tapado os ouvidos diante do enclausuramento de pacientes psiquiátricos em manicômios, diante do uso das dependências de tais instituições para o cárcere de perseguidos políticos ou desafetos de pessoas poderosas. Por isso, acreditei na aposta da
Reforma Psiquiátrica, do sonho por uma psiquiatria mais humana, de uma psicologia mais consciente, de uma atuação profissional engajada naquilo que julgo correto.
Não devemos classificar as pessoas, considerá-las menos valiosas, inferiores por causa da classe a que pertencem – ou, me atreveria a dizer, que não deveríamos considerar as pessoas como partes elementares de classes, porque elas são muito mais e muito mais complexas do que as classes que usamos para categorizá-las (isso sim acho que foi um ensinamento de Cristo). Mas, devemos manter nossos olhos atentos ao que é certo e ao que é errado.
O Julgamento de Nuremberg mostra vários discursos perfeitamente articulados que vão em direções opostas. De um lado, considera-se crime imputável aos réus a prisão, tortura e homicídio de milhares de pessoas baseados em classificações racistas durante a segunda guerra mundial. De outro, considera-se impossível imputar culpa a alguém diante de crimes cometidos sob o consentimento do Estado e de diversos representantes da comunidade internacional.
Seria, portanto, como extensão dos questionamentos levantados no filme, culpa de um psicólogo, consentir no tratamento desumano de centenas de pacientes internados em manicômios, e continuar exercendo sua prática clínica, alheio ao que acontece à vida de seus pacientes, alheio ao que o Estado permite e concorda que o façam? Lobotomia, terapia de choque, altas doses de remédios incapacitantes, somadas à castigos fisicos, falta de alimentos, falta de roupas, restrição total da liberdade, enfim... Práticas comuns até a década de 1990, quando a Reforma Psiquiátrica, com a participação de alguns profissionais dessas mesmas instituições e outros recém-formados, começaram a fazer real diferença para a política de saúde mental de nosso país – que começou a levar em consideração os Direitos Humanos.
Quando comecei a exercer minha profissão, desejava ser como esses que fizeram a diferença. Dizia, pra mim mesma, que jamais faria parte de uma instituição manicomial, que jamais consentiria numa prática clínica individualista, que trabalharia pelo empoderamento dos mais enfraquecidos e pela cidadania dos alejados em seus direitos. Eu acreditava que estar na saúde pública me permitiria encontrar essas pessoas e ajudá-las.
Com o mesmo sentimento, eu acredito que outras pessoas permaneceram em instituições opressoras – esperando que o contato com o oprimido lhes desse a oportunidade de ajudá-lo. Alguns vivem assim. Negociam seus valores, submetem seu trabalho à práticas corruptas, imaginando que essa é uma forma de produzir alguma resistência no lugar onde estão. Afinal, um Estado não é feito só de cidadãos ruins nem só de bons cidadãos. Se um psicólogo trabalha numa instituição afundada em corrupção e reprodução da miséria, mas trata seus pacientes com humanidade, pode ser considerado um bom cidadão.
Mas, aí é que cabem as perguntas, como faca de dois gumes, emitidas ironicamente pelo personagem do réu
Ernst Janning, no Julgamento de Nuremberg:
“Por que ficamos em silêncio? Por que participamos? Porque amamos nosso país! Que diferença faria se alguns extremistas politicos perdessem seus direitos? Que diferença faria se algumas poucas minoriais raciais perdessem seus direitos? Era só uma fase passageira. Era apenas um estágio. Seria descartada, mais cedo ou mais tarde. Hitler seria descartado”.
Os argumentos para se condenar ou isentar de culpa um réu como Ernst Janning podem ir na direção de teorias do presente e do futuro: sua atitude era necessária para que a Alemanha se defendesse contra seus inimigos, seu apoio momentâneo a Hitler era necessário para que o país recobrasse o ânimo e sobrevivesse enquanto nação independente, etc. Ou, no caso do psicólogo, pode-se argumentar que se não houvesse alguns como ele, inseridos no sistema, a Reforma Psiquiátrica não teria um êxito tão rápido no país.
Às vezes, as pessoas querem nos fazer acreditar que nosso julgamento de valor deve ser atrelado à essas “teorias”, a certas leituras sobre a sociedade. Foi dessa forma que conseguiram o apoio da população para a Ditadura Militar, para o Comunismo Totalitário, e também, para a impunidade de tantos políticos “de esquerda” que subiram ao poder recentemente no Brasil mas que reproduziram práticas arcaicas de coronelismo. Alguns querem nos fazer acreditar que escolher pelo que consideramos errado pode ser o “mais correto a se fazer na atual conjuntura”.
Agora, no meu momento atual, tenho a oportunidade de escolher entre tomar uma atitude pela “sobrevivência”, decidir pelo errado acreditando que ele é o “mais correto”, ou decidir por aquilo que acredito de verdade, ser o certo. Só posso fazer parte de um Estado e de uma carreira profissional que me permitam tomar a terceira atitude – nada mais. No fim das contas, o que importa pra mim não é a capacidade de sobreviver, nem de me aproximar de meus “próximos”, nem mesmo as teorias do presente e do futuro em que acredito, mas de ser fiel ao que considero certo e verdadeiro diante de um ser humano, e assim impor uma resistência de fato ao que, claramente, não vai bem.
Lembro-me ainda da música de Chico Buarque que, tão bem, captou o espírito desse conflito: Geni merece pedras porque “dá pra qualquer um”, mas é olvacionada quando convém à sobrevivência da cidade.
Por isso, aproveito meu momento de introspecção e reflexão, para desejar que, em tempos de tão fugazes verdades, 2012 seja um ano de despertar para os cidadãos de meu país, principalmente, para os que cuidam de nossas cidades, os que trabalham pelo Estado, e os que educam nossas crianças. Todo mundo deveria ver o Julgamento de Nuremberg e refletir um pouco mais sobre as palavras de Jesus.