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sábado, 31 de dezembro de 2011

Aprenda com a sabedoria dos desenhos infantis: Shrek Terceiro

Uma seleção especial de cenas perspicazes de desenhos infantis, pra começar 2012 com bom humor e inteligência. Pra começar, uma seleção de Fiona e suas amigas princesas, em Shrek Terceiro. Divirtam-se!


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Qualquer semelhança com alguns comentários que você mesma deve ter ouvido em seu chá de bebê (não) é mera coincidência...

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Pra que fazer alguma coisa se pode-se esperar pelo resgate do princípe? Igualzinho à vida real, né?

Agora, só um pitaco: pra quem já conhece o filme Shrek Terceiro, deve ser meio estranha a ideia de que o herdeiro do trono deve ser um parente adolescente do Rei ao invés de sua filha única. Afinal, rainhas boas não costumam aparecer pelos contos de fadas, e esse seria um desfecho ainda mais original (e feminista) para o filme. Mas, nada é perfeito...

Um feliz ano novo, especialmente para as leitoras do blog, mães e/ou filhas! Obrigada por me acompanharem durante 2011, aguentando meus altos e baixos, trocando ideias, fazendo críticas e dando sugestões. Obrigada pelo carinho de tod@s e pela força! Em 2012, estaremos juntas novamente.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Uma escolha para começar 2012 com novas forças

Escolher quase sempre implica em decidir o que é certo, julgar uma situação e a própria posição de si mesmo diante dela. Tomar decisões assim faz a vida mais difícil, porém mais valiosa, mais verdadeira. Normalmente, diariamente, fazemos escolhas baseadas na necessidade de sobreviver. Sem pensar muito, somos capazes de escolher a roupa, o transporte, a refeição, e apesar de tais coisas parecerem triviais, são, em última instância, respostas à necessidade de sobrevivência – que está atrelada à existência social, à capacidade de ser “igual”, “próximo” àqueles que nos cercam. Se colocar a roupa da década de 20 significa suicídio social para o grupo do qual desejo fazer parte, nem pensarei em usá-la, a não ser numa festa à fantasia. É o tipo de escolha que não demoro muito a fazer, sobre a qual quase não penso, e que não parece ter grandes consequências que me demandem um julgamento do que é certo ou errado.

Para algumas pessoas, determinadas modas parecem impor discriminação à outras, desvalorizam a imagem de certos grupos – e por isso, essas pessoas fazem de sua vestimenta uma decisão consciente. Vestem-se de preto, abandonam os sutiens, usam cabelos soltos e crespos, adotam ou desprezam as mini saias. O que era uma escolha para a sobrevivência se torna uma decisão política. Mas, política no sentido genuíno da palavra, no sentido de ser a defesa pública de um argumento, de um ponto de vista, de um julgamento de valor.

Tem algo na Bíblia que sempre me incomodou, mesmo quando eu frequentava igrejas, que diz respeito à afirmação de que “não devemos julgar uns aos outros”. Fazemos julgamentos de valores o tempo todo, e precisamos deles para viver e não apenas sobreviver. Se não podemos julgar àqueles que contrariam o que consideramos certo, se não podemos emitir valores sobre eles, então, somos falsos e vivemos apenas com o esforço de sermos “próximos” daqueles que nos mantém sobreviventes. Acredito que as palavras transcritas nesse trecho bíblico não deviam ter sido traduzidas assim, mas deveriam ser “não devemos classificar uns aos outros”. Coisas diferentes, que podem estar intimamente ligadas.

O filme que assisti hoje ilustra meu argumento. O Julgamento deNuremberg me ajudou a chegar a algumas conclusões sobre escolhas, julgamentos e sobrevivência.

Antes de fazer parte do Estado Brasileiro, eu era uma aspirante a tal. Cresci ouvindo as histórias de perseguição e tortura da Ditadura Militar em meu país, estudei sobre a posição ambígua que a Psicologia – área que escolhi seguir – tomou durante esses anos, reforçando alguns valores e práticas opressores, e muitas vezes, se eximindo de contrariar as decisões dos governos autoritários, nas figuras de seus reitores e de cada psicólogo e psicanalista clínico que praticavam terapias individualistas e descontextualizadas. Em minha curta carreira como psicóloga, resolvi fazer diferente daqueles que tinham se calado e tapado os ouvidos diante do enclausuramento de pacientes psiquiátricos em manicômios, diante do uso das dependências de tais instituições para o cárcere de perseguidos políticos ou desafetos de pessoas poderosas. Por isso, acreditei na aposta da Reforma Psiquiátrica, do sonho por uma psiquiatria mais humana, de uma psicologia mais consciente, de uma atuação profissional engajada naquilo que julgo correto.

Não devemos classificar as pessoas, considerá-las menos valiosas, inferiores por causa da classe a que pertencem – ou, me atreveria a dizer, que não deveríamos considerar as pessoas como partes elementares de classes, porque elas são muito mais e muito mais complexas do que as classes que usamos para categorizá-las (isso sim acho que foi um ensinamento de Cristo). Mas, devemos manter nossos olhos atentos ao que é certo e ao que é errado.

O Julgamento de Nuremberg mostra vários discursos perfeitamente articulados que vão em direções opostas. De um lado, considera-se crime imputável aos réus a prisão, tortura e homicídio de milhares de pessoas baseados em classificações racistas durante a segunda guerra mundial. De outro, considera-se impossível imputar culpa a alguém diante de crimes cometidos sob o consentimento do Estado e de diversos representantes da comunidade internacional.

Seria, portanto, como extensão dos questionamentos levantados no filme, culpa de um psicólogo, consentir no tratamento desumano de centenas de pacientes internados em manicômios, e continuar exercendo sua prática clínica, alheio ao que acontece à vida de seus pacientes, alheio ao que o Estado permite e concorda que o façam? Lobotomia, terapia de choque, altas doses de remédios incapacitantes, somadas à castigos fisicos, falta de alimentos, falta de roupas, restrição total da liberdade, enfim... Práticas comuns até a década de 1990, quando a Reforma Psiquiátrica, com a participação de alguns profissionais dessas mesmas instituições e outros recém-formados, começaram a fazer real diferença para a política de saúde mental de nosso país – que começou a levar em consideração os Direitos Humanos.

Quando comecei a exercer minha profissão, desejava ser como esses que fizeram a diferença. Dizia, pra mim mesma, que jamais faria parte de uma instituição manicomial, que jamais consentiria numa prática clínica individualista, que trabalharia pelo empoderamento dos mais enfraquecidos e pela cidadania dos alejados em seus direitos. Eu acreditava que estar na saúde pública me permitiria encontrar essas pessoas e ajudá-las.

Com o mesmo sentimento, eu acredito que outras pessoas permaneceram em instituições opressoras – esperando que o contato com o oprimido lhes desse a oportunidade de ajudá-lo. Alguns vivem assim. Negociam seus valores, submetem seu trabalho à práticas corruptas, imaginando que essa é uma forma de produzir alguma resistência no lugar onde estão. Afinal, um Estado não é feito só de cidadãos ruins nem só de bons cidadãos. Se um psicólogo trabalha numa instituição afundada em corrupção e reprodução da miséria, mas trata seus pacientes com humanidade, pode ser considerado um bom cidadão.

Mas, aí é que cabem as perguntas, como faca de dois gumes, emitidas ironicamente pelo personagem do réu Ernst Janning, no Julgamento de Nuremberg: Por que ficamos em silêncio? Por que participamos? Porque amamos nosso país! Que diferença faria se alguns extremistas politicos perdessem seus direitos? Que diferença faria se algumas poucas minoriais raciais perdessem seus direitos? Era só uma fase passageira. Era apenas um estágio. Seria descartada, mais cedo ou mais tarde. Hitler seria descartado”.

Os argumentos para se condenar ou isentar de culpa um réu como Ernst Janning podem ir na direção de teorias do presente e do futuro: sua atitude era necessária para que a Alemanha se defendesse contra seus inimigos, seu apoio momentâneo a Hitler era necessário para que o país recobrasse o ânimo e sobrevivesse enquanto nação independente, etc. Ou, no caso do psicólogo, pode-se argumentar que se não houvesse alguns como ele, inseridos no sistema, a Reforma Psiquiátrica não teria um êxito tão rápido no país.

Às vezes, as pessoas querem nos fazer acreditar que nosso julgamento de valor deve ser atrelado à essas “teorias”, a certas leituras sobre a sociedade. Foi dessa forma que conseguiram o apoio da população para a Ditadura Militar, para o Comunismo Totalitário, e também, para a impunidade de tantos políticos “de esquerda” que subiram ao poder recentemente no Brasil mas que reproduziram práticas arcaicas de coronelismo. Alguns querem nos fazer acreditar que escolher pelo que consideramos errado pode ser o “mais correto a se fazer na atual conjuntura”.

Agora, no meu momento atual, tenho a oportunidade de escolher entre tomar uma atitude pela “sobrevivência”, decidir pelo errado acreditando que ele é o “mais correto”, ou decidir por aquilo que acredito de verdade, ser o certo. Só posso fazer parte de um Estado e de uma carreira profissional que me permitam tomar a terceira atitude – nada mais. No fim das contas, o que importa pra mim não é a capacidade de sobreviver, nem de me aproximar de meus “próximos”, nem mesmo as teorias do presente e do futuro em que acredito, mas de ser fiel ao que considero certo e verdadeiro diante de um ser humano, e assim impor uma resistência de fato ao que, claramente, não vai bem.

Lembro-me ainda da música de Chico Buarque que, tão bem, captou o espírito desse conflito: Geni merece pedras porque “dá pra qualquer um”, mas é olvacionada quando convém à sobrevivência da cidade.  

Por isso, aproveito meu momento de introspecção e reflexão, para desejar que, em tempos de tão fugazes verdades, 2012 seja um ano de despertar para os cidadãos de meu país, principalmente, para os que cuidam de nossas cidades, os que trabalham pelo Estado, e os que educam nossas crianças. Todo mundo deveria ver o Julgamento de Nuremberg e refletir um pouco mais sobre as palavras de Jesus.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Algumas mães não têm prazer com maternidade

Desta vez o conflito não se trata entre maternidade e carreira. Se durante o primeiro ano de minha filha, esse foi um tema recorrente, agora, sinto como se ele estivesse definitivamente superado. Surpreendo-me com o fato de que, apesar de ter sentido o gostinho da depressão, principalmente por causa do "desencantamento com o mundo" (talvez um processo desencadeado pela constatação da falta de "humanismo" em um local feito para salvar vidas, em última instância, ainda não sei...), o que mais me dá prazer e ânimo é a companhia de minha filha. E não digo apenas a companhia indireta (mediada por babá, televisão ou o escambau), mas estar atenta a ela, brincando, brigando, conversando, dando banho, comida, enfim o pacote completo com o plus das férias escolares.

É verdade, cansa muito. Às vezes não consigo nem ler duas páginas do livro que estou (tentando) terminar, e durmo 10 horas da noite, exausta. Mas, apesar de ter plena consciência de que não voltaria a me dedicar exclusivamente à maternidade (aliás, acho que nunca consegui fazer isso), tem sido muito bom pra mim exercer meu papel de mãe sem intermediários! Acho que alcancei uma maturidade sobre isso: sinto-me muito bem na identidade de mãe, tenho mais clareza sobre a educação que quero dar pra minha filha, mais segurança em minha capacidade e mais tranquilidade em aceitar minhas limitações. E talvez por isso tenho me chocado mais com algumas cenas que contemplo no dia dia aqui pela zona sul do Rio.

Hoje, em especial, fiquei muito revoltada com a quantidade de piscinas de plástico, alugadas pelas famílias, para suas crianças, na praia do Leblon. As piscinas enormes, alugadas a 8 ou 10 reais, são enchidas com mangueiras dos barraqueiros, com água doce que eu não sei de onde vem (parece brotar do chão, ao lado de cada barraca). Na verdade, o que me incomodou mais foi a falta de interação das crianças com a própria praia e com seus pais (muitas, pra não dizer todas, com exceção de três, permaneceram isoladas em suas "praias particulares", interagindo principalmente com as babás). Nessas cenas, fica evidente o consumismo, o comodismo e a falta de intimidade dessas crianças com a natureza. O que deixa claro que todos esses ismos foram herdados e não são características inevitáveis das novas gerações.

Além dessa situação na praia, outras variantes tem me deixado meio atônita com a falta de prazer e intimidade entre pais e filhos pequenos pelas ruas shoppings da minha cidade. Falo especialmente dos pequenos, porque, veja bem, se um adulto que pariu um bebê não cai de quatro por ele nos primeiros anos de vida, provavelmente não se encantará por um adolescente esquisito depois... E aí, entram cenas de famílias inteiras (incluindo avós) carregando uma ou duas babás de branco em restaurantes, lojas, na Lagoa etc, em sábados e domingos. Recentemente, fiquei mexida com um menino de uns 5 anos chorando muito, na verdade, berrando, no colo da babá, num rodízio, enquanto os pais comiam e mal se mexiam - deu pra ouvir a mãe falando baixinho para a "responsável" pela criança levá-lo "pra fora".

Então, tenho pensado muito sobre esse assunto: que tipo de relação a minha geração de pais tem estabelecido com seus filhos?

Lembrei de uma artista francesa que já me inspirou muito com suas esculturas: Niki de Saint-Phalle (que é inclusive a autora da escultura da imagem de dezembro, em nossa sessão Cultura, Arte e Imagens). Com uma história de vida bem complexa (que inclui abusos sexuais do pai, uma relação dolorosa com a mãe e o afastamento das filhas), ela se tornou artista na década de 1960, após um período de internação numa clínica psiquiátrica. Mas, eu, pessoalmente, penso que seu boom criativo foi a separação do marido e o afastamento dela do papel de mãe. Pois, suas principais obras, as Nanas (criadas durante sua convivência com uma amiga grávida), recriam um arquétipo feminino maternal. São esculturas gigantes, coloridas, com as quais a artista tentava expressar todas as cores de seus sentimentos, jogando com símbolos bem conhecidos da feminilidade. A grande obra de sua vida é o Jardim de Taiocchi, na Itália, onde criou um universo colorido de símbolos que articulam questões pessoais com as imagens das cartas do Tarot, e onde estão algumas de suas Nanas. Eu, aqui com meus botões, penso que o conflito da artista com a identidade materna era tão intenso que ela não pôde ignorá-lo. Apesar de não conseguir viver intensamente a relação com as filhas, ela elaborou-a com sua criatividade, colocando em ação a opressão e a atração que aquele papel marcado a causava. Ela disse uma vez que a arte era sua garantia de sanidade.

Mas, por que eu trouxe esse exemplo?

Às vezes, me parece que algumas mães simplesmente não sentem prazer com esse papel. Há mulheres que optam por não ter filhos. Mas, há também aquelas que imaginam que tê-los faz parte do curso da vida, apesar de não desejarem de fato ser mães. Algumas descobrem-se realizadas com a maternidade, mas outras não - não mesmo. E o mesmo pode acontecer com os homens. Isso não é necessariamente culpa de alguém, mas com certeza produz efeitos na vida das crianças. Acho que às vezes falta autenticidade, honestidade, na relação entre pais e filhos, e fica-se preso a certos estereótipos hipócritas de "bons pais". Se todas as pessoas fossem completamente sinceras com seus sentimentos em relação à maternidade/paternidade e pudessem pensar e falar sobre eles (e pintar e criar esculturas, e curtir com os filhos uma manhã de praia, sem coisas e mais coisas de plástico, e receber a gratidão deles com beijinhos e risadas...), acho que a haveria menos babás de branco passeando pela cidade em domingos de sol e, talvez, menos piscinas alugadas na praia.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Conflitos da vida real: como entrar em depressão em apenas 4 meses

Quando fui convocada para assumir uma vaga de um concurso público, em julho deste ano, fiquei bem feliz e compartilhei aqui minha gratidão pelos últimos anos e pelo novo ciclo que se iniciava. Eu estava empolgada com a possibilidade de exercer uma função ligada aos meus estudos no mestrado, mesmo temendo que isso me atrapalhasse a cuidar da loja e da Laura.

A remuneração do meu novo emprego é muito boa, comparada aos últimos trabalho que tive, e vi nela também a oportunidade de juntar mais um dinheirinho para investir em nossos sonhos. Quando a convocação apareceu, eu estava numa fase ótima! Feliz demais com a inauguração da loja e com a possibilidade de conciliar trabalho-maternidade-vocação. Mas, ainda não tinha o retorno financeiro suficiente. Apesar de meu marido segurar as pontas, e de termos muita esperança em nosso negócio, viver no limite orçamentário pode ser muito estressante. E sempre tem aquelas idéias tentadoras de que com mais dinheiro, Laura poderá ter mais oportunidades de fazer atividades, cursinhos, ficar numa boa cara escola, enfim. E meu novo emprego sanava completamente essa questão.

Porém, eis que a realidade se impõe sobre os sonhos, os projetos, os ideais... O trabalho junto ao Ministério da Saúde mostrou-se um enorme desafio aos meus valores pessoais e profissionais. Percebi que da teoria para a prática há um grande abismo, em se tratando de políticas públicas no Brasil, em especial na área da saúde (tá, você deve estar arregalando os olhos, admirada com a minha ingenuidade). Mas, o fato é que entre fazer pesquisa e fazer gestão em serviços de saúde tem uma diferença radical, e eu, do alto da minha montanha de pensamentos elevados, caí no fundo do poço, ao concluir que não é possível conciliar trabalho-maternidade-vocação lidando com as contradições do dia dia de um hospital público, in loco. Pelo menos, aqui no meu hospital, fica muito difícil impossível exercer a minha função sem ter que fazer vistas grossas arriscar-se por falar demais, e entrar em depressão. A deprê chega sorrateira, como um cansaço irremediável, e depois vai se instalando como uma total falta de motivação para tudo.

Sorte minha que tenho a loja, tenho a Laura e meu marido (que na verdade, se tornam meu verdadeiro motivo para levantar todos os dias, mas também a fonte de minha apreensão em pensar em sair de vez desse trabalho). Nesse ínterim, infelizmente, não consegui postar quase nada no blog, inclusive sobre o Concurso Cultural (que com o perdão de todos, foi um fiasco, porque eu não consegui me organizar para divulgar todas as imagens recebidas e abrir a votação, então, decidi mandar um livro para cada participante mesmo, em breve). Não consegui treinar e ambientar direito nossa nova funcionária, que está nos ajudando muito no dia dia da loja, mas que ainda não domina nosso sistema. E também não consegui botar adiante todas as promoções e lançamentos que tínhamos planejado - com exceção da Feira Baby Bum, da qual inacreditavelmente conseguimos participar, e muito bem, por sinal.

Além disso, para completar o muro de lamentações que este post está ficando, dei pouca atenção à minha verdadeira vocação. Não consegui revisar o livro escrito ano passado. Continuei escrevendo bastante, mas de forma desordenada e sem qualquer motivação para enviar nada para editoras e afins. Nesse requisito me sinto mesmo um fiasco (estão escutando o som das chibatadas?).

Então, instala-se um conflito terrível: sair desse trabalho significa poder dedicar-me mais e melhor para as coisas que amo fazer, porém, significa também menos dinheiro (bem menos) para investir nelas. Agora entendo plenamente aquele velho ditado: tempo é dinheiro. Mas, o conflito não é tão simples assim, fica um pouco pior quando me deparo com outra preocupação. Como eu, que sempre dei muito mais valor ao "ser" do que ao "ter" posso me prender a algo que me faz tão mal por causa do que ele me permite ter? A carolzinha acampada no meu ombro direito responde: afinal, se sacrificar hoje para que sua filha possa ter tudo o que for necessário para ela ser tudo o que quiser no futuro, é trabalhar em prol do "ser" também, ora! Afinal, se seus pais tivessem feito isso, você teria conseguido seguir sua carreira desde cedo, sem se preocupar com questões materiais, ora! Mas, a carolzinha do meu ombro esquerdo também não se cala. Ela diz: mas, foi exatamente isso que seus pais tentaram fazer por anos e não conseguiram! Você não pensa nas perdas que você mesma e sua família podem ter por causa desse seu estado de espírito atual?

A esse conflito, soma-se minha vontade de fazer alguma diferença no serviço público onde estou trabalhando. Ainda fico tentada a acreditar que, aos pouquinhos, as coisas vão mudar, vão melhorar, e eu farei parte da mudança. Mas, o choque de realidade está tornando essa expectativa muito baixa. Eu já não sei como fazer real diferença numa instituição em que é normal não acreditar. As pessoas ao meu redor também se entristecem, algumas se acostumam (ou tem que se acostumar) e vão e voltam de licenças para tratar-se de problemas mentais, psicossomáticos, e físicos, muitas vezes oriundos do trabalho. Mas, esse assunto é outro capítulo, que ainda estou tentando elaborar e chegar a alguma conclusão, sem me preciptar. 

Então, pessoas queridas que me lêem, dêem um desconto pelas minhas faltas, atrasos e resmungos. Minha cabeça ainda não se inclinou definitivamente para nenhum dos lados, apesar de pender facilmente para o lado do coração (que afinal, se não fosse isso, eu já estaria muito-bem-obrigada no subsolo da hierarquia moral, nos corredores do meu hospital, beneficiando-me desse sistema sujo, ganhando meu dinheirinho, acostumando-me à deprê, com o lexotan de prache).  

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Depressão em bebês: existe e deve ser tratada

Há uma semana atrás estava arrumando minha estante da sala e me deparei com um dvd da maternidade que nem lembrava que existia. O título na capa era: "primeiros momentos de Laura". Muito estranho... como eu fui esquecer um dvd assim? Então, assisti novamente e entendi meu "esquecimento". Uma cena horrível de minha bebezinha, recém nascida, nua, sozinha, chorando, chorando e chorando. Nada animador pra uma mãe de primeira viagem. Não só por causa do choro, mas porque me pareceu muito bizarro que a maternidade desse de presente para os pais um dvd desses, com o título "primeiros momentos". A primeira coisa que me veio à cabeça foi: "quando afinal fizeram essa filmagem?!" "Eu tava lá o tempo todo, poxa!".

Mas, pensando bem, acho que "contemplar" um bebezinho chorando é muito mais comum e aceitável do que supõe a minha ingênua filosofia. É fato, eles choram por tudo. Precisam chorar para se comunicar. E muitas vezes, nós nem conseguimos entender a mensagem. Podemos acabar nos acostumando às cenas de sofrimento, e até mesmo achar que elas são tão normais que não precisam ser compreendidas. É assim que corremos o risco de não identificar o estado depressivo em bebês.

Eu não quero que este post tenha um tom sensacionalista. Mas, depois de ler alguns artigos sobre o assunto, fiquei tão impactada, que resolvi chamar atenção de tod@s os leitores do blog para ele. Porque, realmente, sem querer, podemos ignorar os primeiros sintomas de uma depressão que pode se estender por toda a vida da criança e até disparar problemas mais grave na vida adulta. Um artigo científico em especial me fez entender melhor o assunto. Este aqui: "Depressão no bebé", de pesquisadores portugueses. Nele, alguns sinais da depressão servem para o diagnóstico precoce: irritabilidade, transtornos do sono, apatia, motilidade reduzida, movimentos físicos anormais, agressividade. Os pais normalmente levam o problema para um pediatra ou psicóloga quando este último sinal fica evidente. É mais fácil identificar comportamentos agressivos do que tristeza em bebês. E infelizmente, em nossa cultura, contemplar o choro infantil é comum.

Se um bebê de menos de um ano de idade não sorri com frequência, parece apático e alheio ao ambiente, não se alimenta bem, pode ser um sinal do estado deprimido. Temos que ficar atentos para não "naturalizar" esses comportamentos e perder a oportunidade preciosa de reverter o quadro. Porque com um atendimento adequado com terapeutas e pediatras, os familiares e cuidadores pode mudar completamente o estado do bebê. Nos primeiros 3 anos, a personalidade dele é praticamente toda formada e vai influenciar na forma que o indivíduo responderá à vida até mesmo quando adulto. Além dos sinais mencionados, também vale ficar atentos à timidez excessiva, à comportamentos anti sociais, à regressão ou interrupção do desenvolvimento psicomotor, como a aquisição da fala e o desfralde.

Entre as causas do estado depressivo em bebês estão aquelas relacionadas à privação do contato com a mãe ou com um cuidador de quem eles são muito próximos. Situações como depressão pós-parto, drogadicção, separação dos pais, processo de adaptação à creche, afastamento de uma babá ou uma vovó muito presentes, enfim. Muitas coisas podem fugir ao nosso controle, e não devemos nos culpar se nossos filhos acabam passando por alguma delas. Mas, precisamos ficar atentos aos sinais que eles nos dão! Quer um exemplo clássico de falta de atenção aos sinais do bebê? A tal adaptação na creche, mal feita, ou feita forçosamente, mesmo com muito choro e sofrimento. Muitas vezes, profissionais mal preparadas pressionam às mães para que deixem seu filho de menos de menos de 1 ano no colo de uma desconhecida, chorando, sem demonstrar comoção, para que ele "se acostume logo". Um horror! Eu mesma já testemunhei uma cena dessas numa das creches que visitei: a mãe visivelmente tensa se encostava na parede, olhando para o nada, com medo de encarar o bebê de 4 meses que chorava desesperadamente no colo de uma cuidadora. No dia até puxei uma conversa com ela, tentando alertá-la de que aquilo não era necessário, mas não tive coragem de me meter. Aliás, as profissionais da instituição insistiam tanto nessa maneira esdrúxula de "adaptar" a criança, que eu me senti um "et" discordando.

Mas, é muito importante a gente dar atenção aos nossos incômodos. É muito importante darmos ouvidos aos nossos sentimentos, e assim, buscarmos entender melhor o que se passa com nossos pequenos. Não precisamos concordar com o prazo fixo de um semana para a adaptação na creche ou escola, não devemos tolerar o choro de um bebê que sofre com a ausência da mãe como se fosse algo banal. Claro que chorar é normal, e ele aprenderá gradualmente a lidar com as frustrações da vida. Mas, É GRADUALMENTE, e não em uma semana, um mês, ou um ano. Temos que respeitar o tempo deles.

Mas, o que fazer para evitar uma depressão no bebê? Na prática, se você não tiver depressão ou drogadicção, se não houver nenhuma situação atípica de separação, você pode preveni-la. Não deixe que seu filho recém nascido fique muito tempo longe de você após o nascimento, na maternidade; ofereça o seio assim que ele nascer, e continue estimulando-o a mamar no seio, naturalmente; não deixe o bebê de menos de um ano chorando se você pode satisfazê-lo; se você não reconhecer o motivo do choro, fique com ele nos braços, para que se sinta aconchegado; se o motivo for passível de disciplina, nunca apele para castigos físicos, evite gritar, e deixe bem claro o motivo da repreensão, com diálogo; mantenha a rotina de sono e alimentação sem grandes alterações; não deixe-o por muito tempo seguido com uma pessoa estranha; faça adaptações graduais, observando as reações dele. Os bebês são muito mais inteligentes do que imaginamos! E eles captam facilmente os estímulos ambientais.