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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Em busca de linhas de fuga

Não existe coisa mais angustiante para uma mulher de espírito livre do que a sensação de não poder voar. Seja por causa de limitações materiais ou pelas limitações de um companheiro que não pode ou não consegue seguir caminhando junto. A pior coisa é sentir-se presa a uma perspectiva de vida que não foi escolhida, mas foi imposta pelas circunstâncias. Muitas pessoas convivem com isso e não sofrem tanto. Ou sofrem e procuram “medicar-se” de várias formas – taí tantos sintomas contemporâneos que refletem a falta de realização pessoal, a falta de amor por aquilo que se faz e vive. Tem pessoas que não almejam nada muito diferente do que aquilo ao que já são “destinadas” por suas famílias. E eu não posso falar nada dessas pessoas porque não as compreendo.

Eu posso falar das mulheres que, como eu, vêem a vida por uma perspectiva fora do padrão. Mulheres que almejam uma liberdade e uma autonomia de existência pouco alcançada pela maioria. Para os homens, de maneira geral, as limitações impostas por uma vida “normal”, enquadrada, linear, referem-se principalmente à necessidade/pressão de serem “profissionais” bem posicionados no mercado, tendo um salário ou um rendimento estável e suficiente para sustentar um padrão de vida de consumo intenso e acelerado. Espera-se que eles cumpram esse papel, tendo ou não companheiras que também trabalhem e também possam sustentar a família. Mas, para as mulheres, a imposição está em enquadrá-las no papel de boas “governantas”, boas cuidadoras de casa, dos filhos e do marido. Ainda que elas reconheçam a necessidade de ser mais do que isso, de fazer uma faculdade, ou de desenvolver uma profissão, o papel de domésticas estará sempre no horizonte. Como uma mulher que se sente responsável pela vida doméstica de uma família pode sonhar em voar, em ter a liberdade de não se estabelecer num ninho fixo? Eis o tema de tantas obras literárias de mulheres de ontem e hoje, que conseguiram encontrar suas alternativas, libertando-se ou não das imposições de uma vida “recatada”.

Para mulheres que almejam coisas diferentes da vida, além de filho e de um companheiro para dividir as alegrias e as tristezas, os ninhos devem ser móveis, mutáveis, leves, simples. Os ninhos devem ser apenas um detalhe. Mas, como construir algo assim em parceria com um homem que ainda se sente muito pressionado a exercer esse papel de “provedor”, de profissional bem colocado no mercado? Lembro aqui da história de April Wheeler, no romance Revolutionay Road (Foi apenas um sonho), em que a suposta parceria do marido para que ela alçasse vôos se resumia a acompanhá-la em apresentações pífias de um teatro de bairro em auditórios escolares. Ele desejava um ninho móvel, mas se fixava numa casa grande e pesada na mesma cidade e trabalhando na mesma empresa que seu pai. Aliás, na versão cinematográfica da história há uma cena sensacional dos homens na estação de trem, retornando do trabalho, com seus chapéus e ternos idênticos, em contraste com um Leonardo Di Caprio irreverente. A ideia de apoiar a mulher em seu vôo solo e ir com ela para Paris era apenas uma ideia – longe de ser concretizada – mas que o fazia sentir, de certa forma, superior aqueles homens mudos da multidão. Engano que acabou com o casamento e o sonho de duas pessoas que se sentiam diferentes mas não tiveram coragem para serem de fato diferentes.


É possível que os homens se sintam livres apesar dos papéis impostos a eles? Sim, é possível. Existem homens que conseguem usar o próprio sistema para encontrar linhas de fuga. E existem mulheres que assim também o fazem. É muito difícil decifrar se o que estamos traçando é de fato algo novo, respirável, vivível, ou se é uma linha já traçada por tantos outros que não conseguiram livrar-se. Mas, ainda sim, é na busca pela liberdade, na busca por uma compreensão maior da subjetivação que nos é produzida, que podemos viver com menos angústia. Como li recentemente, numa citação de Deleuze: “faz falta chegar a dobrar a linha, para constituir uma zona vivível, onde poder alojar-se, tomar apoio, respirar – brevemente, pensar”.  Não predizer, diz Deleuze, senão estar atento ao desconhecido que toca à porta.

Uma boa jornada para mim (que inicio um novo ano de vida) e para todos que almejam algo verdadeiramente novo!

Referências:
Deleuze, Foucault. Paris: Éditions de Minuit, 1986. p. 101

1 comentários:

Aline Cortes disse...

Ótimo texto!
Abraços,
Aline Cortes
www.decaronanacegonha.blogspot.com